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Insegurança alimentar: "O número pode estar subestimado, porque é muito doloroso dizer que não tem o que comer"

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Publicado em:07/07/2022
Divulgado em junho deste ano, o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil ( 2º VIGISAN) revela que 33,1 milhões de pessoas não têm o que comer no país. São 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome em pouco mais de um ano. A edição recente da pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) mostra que mais da metade (58,7%) da população brasileira convive com a insegurança alimentar em algum grau – leve, moderado ou grave (fome), e que o país regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990.

O retorno do Brasil ao mapa da fome foi o tema da abertura do ano letivo da ENSP em 2022. Durante a atividade, o professor Renato Maluf, da Rede PENSSAN, apresentou os dados do 1º Inquérito e apontou caminhos para redução do dano.

Em entrevista ao Informe ENSP, a pesquisadora Leticia Cardoso, do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, fala sobre esse retrocesso, os impactos da situação na saúde pública e sobre a relação entre a fome e a desigualdade social. "O aumento do número de pessoas em situação de insegurança alimentar - e, entre elas, de 15 a 17% na situação de fome - não é por conta de uma indisponibilidade de alimentos no planeta ou no país, é por uma falta de acesso a alimentos porque a renda e o poder aquisitivo das famílias diminuiu". Confira.

Informe ENSP: Dados divulgados em junho pelo 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de Covid-19 (VIGISAN) mostram que o número de pessoas em insegurança alimentar grave no Brasil quase duplicou em menos de dois anos. Segundo a pesquisa, 33,1 milhões de brasileiros se encontram nessa situação (15,5% da população). Com isso, 14,4 milhões de pessoas a mais passam fome no país. Como explicar esse aumento?

Leticia Cardoso: Sobre esse aumento vertiginoso, é um extremo retrocesso. Esse número absoluto, ultrapassa os valores estimados na década de 1990 e antes. Definitivamente, o aumento do número de pessoas em situação de insegurança alimentar - e, entre elas, de 15 a 17% na situação de fome - não é por conta de uma indisponibilidade de alimentos no planeta ou no país, é por uma falta de acesso a alimentos porque a renda e o poder aquisitivo das famílias diminuiu. 

A gente vem enfrentando nos últimos anos uma oscilação nas taxas de emprego formal, um aumento muito grande da situação informal, um aumento do desemprego e, embora recentemente a gente tenha observado pelas pesquisas que alguns setores da economia estejam se recuperando e empregando mais, o poder aquisitivo das famílias diminuiu. A renda das famílias está estrangulada. Nós tivemos um aumento no preço dos alimentos por conta de um conjunto de fatores: o aumento do preço dos combustíveis encarece o transporte desse alimentos, o investimento em produção de commodities, a alta do dólar, a guerra na Ucrânia, a falta de investimentos e de subsídios para a produção de hortaliças, frutas, arroz, feijão - alimentos que vão para o prato do brasileiro, e não só soja, milho e trigo, que são grandes commodities. Existe, portanto, um conjunto de fatores que interagem entre si para potencializar esse aumento de insegurança alimentar. 

Se, por um lado, as pessoas estão com menos renda, com menor poder aquisitivo, trabalhando mais informalmente, lutando para pagar suas contas, por outro lado os alimentos dispararam de preço. E dispararam de preço de maneira desigual. Os alimentos in natura e mais saudáveis estão ficando mais caros do que os alimentos ultraprocessados. Então, é esse conjunto, uma queda de renda e de emprego e de poder aquisitivo, junto com o aumento do preço, que faz com que as pessoas não consigam acessar os alimentos em quantidade e qualidade necessária para uma alimentação saudável. E, por outro lado, não há um investimento para evitar que esse problema se agrave; ao contrário, há uma desarticulação de políticas que existiram entre os anos 2000 e 2010 que combateram a insegurança alimentar nesse país.

Informe ENSP: Qual a diferença entre insegurança alimentar leve, moderada e grave? Quando consideramos que uma família está passando fome?

Leticia Cardoso: A insegurança alimentar é medida por uma escala, a Escala Brasileira de Segurança Alimentar, construída por meio de um questionário que foi adaptado, passando por todo o processo de avaliação de qualidade para esse instrumento de coleta de dados. Eu ouço críticas dizendo que esse questionário não é bom, mas ele é usado desde 2002, 2003, e passou por processos de aprimoramento e validação acadêmica.

Esse número pode estar subestimado, porque é muito doloroso você dizer que não têm o que comer. Essas estimativas podem ser conservadoras. De acordo com as respostas a questionário, as famílias são classificadas como em insegurança leve, média ou alta. Na insegurança alimentar leve, a pessoa responde que ela não tem certeza de que vai conseguir completar o mês com o que ela tem, tanto em quantidade quanto em qualidade. Ela fica incerta de que vai conseguir o alimento, [pensando, por exemplo] “será que eu vou ter o dinheiro para comprar uma fruta para dar para o meu filho?”

A insegurança alimentar moderada é quando a família pratica alguma restrição na compra, restringe por exemplo a quantidade de carne que costumava comprar, faz substituições, diminui em qualidade e quantidade, e deixa de fato de comprar alimentos que ela gostaria de comprar.  Com essa diminuição da quantidade para dividir entre os membros da família, e uma diminuição da qualidade, e às vezes com a omissão de um ou outro alimento, [a família] em alguns casos deixa de dar leite para uma criança, dilui o leite. Especialmente quando a gente pensa nos alimentos mais caros.

A insegurança alimentar grave, que a gente chama de fome, é quando de fato a família não tem o alimento em quantidade e qualidade suficiente para aquele dia. Ela pula refeição, ela tem uma refeição só no dia, ela não compra o alimento em quantidade suficiente para matar a sua fome. 

São esses os três níveis de escala. A distribuição que a gente teve nesses dados é que dos 58% dos domicílios identificados com algum grau de insegurança alimentar, 28% eram leve (que é essa preocupação); a restrição em quantidade acontece em 30%, e 15% já convive com a fome. Ou seja, 15% já suprimem refeição, não compram alimento suficiente e sentem fome. 

Informe ENSP: É possível mensurar o impacto na saúde pública e no sistema de saúde da subnutrição e da desnutrição?

Leticia Cardoso: Com os dados desta pesquisa, diretamente, não. Não é possível mensurar o impacto na saúde pública da desnutrição e da subnutrição. Em termos de saúde, as pessoas mais prejudicadas são as populações biologicamente mais vulneráveis: os bebês e as crianças menores de cinco anos, além de gestantes e lactantes. Esses são os grupos que sofrem impacto mais imediato com a fome, com a má alimentação causando uma série de infecções comuns: diarreia, infecções respiratórias agudas… parece até que estamos falando de eventos que eu estudei na época da minha graduação, na década de 1990 na Nutrição da UFRJ. 

Eu quero chamar a atenção para uma face nova da situação. O termo má nutrição é a alteração do estado nutricional do indivíduo, seja para baixo ou para cima. Esse aumento na insegurança alimentar vai ter impacto tanto na desnutrição quanto no excesso de peso e na obesidade. E porque eu estou dizendo isso, que parece um contrassenso? Na hora da substituição, como os alimentos in natura e os minimamente processados - arroz, feijão, carne leite, hortaliças, frutas - que são os alimentos saudáveis estão ficando muito mais caros comparados aos alimentos processados, a família vai escolher um alimento de baixa qualidade nutricional e alta densidade calórica. Esse alimento vai sustentar por um período, ou vai atender um a fome momentânea. E alimentos que vão cozinhar mais rápido, porque o gás também está muito caro. Vão consumir aquilo que está mais barato, então existe até o possível aumento da obesidade entre adultos, especialmente entre mulheres pobres. A gente costuma observar o binômio desnutrição nas crianças e obesidade nas mães. 
 
Informe ENSP: Como distinguir o que foi impacto da pandemia no aumento da fome, e o que é devido à situação estrutural da economia do país? 

Leticia Cardoso: A situação econômica e social do país vinha piorando de 2015, 2016 em diante, e os dados da Pesquisa de Orçamento Familiar mostravam o aumento da insegurança alimentar em comparação a 2012. Os dados de 2018 já haviam alertado que a tendência é que esses números aumentassem caso nenhuma medida enérgica, uma política pública, entrasse em vigor ou fosse implementada de fato. E, embora a gente não tenha um estudo epidemiológico robusto para dizer que “X” por cento do aumento da fome foi devido à questão estrutural e “X” por cento foi devido à  pandemia - o que a gente chama em epidemiologia de risco atribuível, é possível dizer que a pandemia foi um catalisador.

A pandemia acirrou um processo de retração econômica e aumento da desigualdade social e de piora das condições sociais e impactou o acesso aos alimentos, impactando por sua vez as famílias de maneira direta. A pandemia escancarou as desigualdades sociais. A gente vê nas condições de morbidade, mortalidade, assistência, vacinação etc. 

Em paralelo, o governo atual implementou medidas de austeridade fiscal e de retração de gastos com políticas sociais e de saúde que também só funcionaram como aceleradores desse processo. Os dados desde 2018 já sinalizavam que as condições tinham piorado e eram necessárias medidas já naquele momento. Isso não foi feito. Ao contrário, a gente teve redução de gasto com política social e de saúde, e a gente enfrentou uma pandemia que acirrou essas desigualdades, então foi um catalisador e um amplificador desses números que estamos vendo.

Informe ENSP: Como então poderemos entender mais a fundo a insegurança alimentar causada pela pandemia, o quanto ela afetou o problema social crônico, e suas implicações na saúde?

Leticia Cardoso: Para conhecer o impacto dessa situação, tanto agora como daqui a dez anos, daqui a cinco anos, a gente tem que gerar informação. E essa gestão federal tem diminuído os gastos com pesquisas, as pesquisas nacionais não têm sido custeadas, especialmente a Pesquisa de Orçamento Familiar, o Censo, a Pesquisa Nacional de Saúde. São pesquisas que vão trazer informações fundamentais do impacto desse número de famílias famintas hoje e num futuro próximo, num futuro médio e num futuro de longo prazo. A gente não tem como saber do impacto sem informação. 

De imediato, sem ter dados, o que se espera é que os serviços de saúde tenham aumentadas as suas demandas, porque as famílias vão ficar mais doentes. As crianças vão voltar a ter diarréia, infecção respiratória aguda de repetição e isso vai causar um impacto no atendimento infantil. A gente pode imaginar que as gestantes vão precisar de maior atenção. A gente pode imaginar  em mulheres e até mesmo homens que desenvolvam mais excesso de peso, o aumento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e hipertensão, por causa dos alimentos que têm excesso de gordura e açúcar, que são os ultraprocessados. A previsão é uma piora geral da situação de saúde e de gastos com a saúde, mas, em termos práticos, a gente só vai conseguir conhecer se continuar monitorando a saúde da população, e para isso são necessários recursos dirigidos à pesquisa de qualidade em nível nacional. 

Um estudo que já está com o financiamento garantido, ainda bem, é o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, que vai acontecer no próximo ano, e vai poder nos fornecer informação do estado nutricional de crianças brasileiras, menores de cinco anos. Vamos poder comparar a informação de 2, 3 anos atrás com a informação mais recente, e entender melhor o impacto desse aumento da fome, e ver também entender muito melhor como essas famílias respondem à escala de insegurança alimentar. Eu queria defender a realização destes estudos de âmbito nacional e o fomento à essas pesquisas por parte do governo federal. 

Informe ENSP: O Inquérito mostrou que as mulheres, crianças e pessoas negras são mais afetadas pela fome. Por quê? Pode-se dizer que há uma correlação direta entre a fome e a desigualdade social?

Leticia Cardoso: Sim, existe uma relação direta entre a fome e a desigualdade social. Em relação à raça/cor da pele, os negros são a população mais vulnerável em termos de  situação social e de saúde no país, não só em relação a fome, mas para diversos desfechos de saúde, quando a gente analisa outros grupos de causas de doença ou mesmo mortalidade. Acabamos de ver isso com o Covid. Infelizmente, esse racismo estrutural, e essa correção ainda está longe de acontecer, dessa iniquidade em saúde, por questão de falta de políticas, que ainda não são capazes de equiparar as condições de saúde, porque eles têm menos acesso a emprego, renda e educação, portanto tem menor renda e situação social. Vivem em lugares com menor oferta de serviços, qualidade de vida, comem pior, praticam menos atividade física, ficam doentes com mais frequência, têm menos informação. De uma maneira geral têm muito mais mortes violentas nesse grupo, ainda hipertensão, doenças crônicas, um conjunto de morbidades nesse grupo, observada historicamente, e por muito tempo as pesquisas não mostravam isso, e mais recentemente  a gente consegue observar 
Mulheres e crianças também, porque, como disse, são os grupos biologicamente mais vulneráveis. As famílias com mulheres como chefe de família sofrem mais, têm menor renda, menor remuneração. Mulheres que são chefe de família são vulneráveis porque geralmente sustentam uma família inteira sozinhas. Pela desigualdade social, a fome se expressa mais nas pessoas mais socialmente vulneráveis.  (E.B.)

Crédito foto: Freepik/@jcomp

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