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O cotidiano dos moradores de favela em meio à Covid-19 narrado por comunicadores populares

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Publicado em:19/07/2021

Equipe Se liga no Corona! e projeto Conexão Saúde *    
                                                                               
*Colaboração especial para a Radis, com a participação de Carolina Vaz (O Cidadão), Jonas di Andrade (Voz das Comunidades), Nathalia Mendonça (Cooperação Social/Fiocruz), Renata Dutra (Comunicadora popular de Manguinhos) e Luiza Gomes (Cooperação Social/Fiocruz)


Cada canto da favela é uma história de vida que pulsa. Mães e professoras lutam para garantir o direito à educação para seus filhos, em tempos de isolamento social e de dificuldades trazidas pela Covid-19. Uma ativista divide o cuidado com a família e a ajuda a mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente mães solo. No contexto de aumento da fome e do desemprego, um projeto leva alimento para quem não tem. Na corrida para imunizar a população, as dificuldades enfrentadas para uma médica de família para fazer a vacina chegar até as pessoas. Essas são quatro histórias contadas por um grupo de comunicadores populares da Zona Norte do Rio de Janeiro que mostram o cotidiano e as dificuldades nas favelas durante a pandemia — eles integram a campanha “Se liga no Corona!”, fruto de parceria da Fiocruz com coletivos e lideranças populares. É um alerta de que a covid-19 escancarou ainda mais as desigualdades socioeconômicas e a ausência de políticas públicas para a população em situação de vulnerabilidade, mas também são relatos que mostram que a luta continua no dia a dia.




Educação nas favelas


Com a pandemia, a educação, assim como outras áreas, teve também que se adaptar à nova realidade imposta pela covid-19. O ensino presencial deu lugar ao ensino remoto. Com isso, tanto os alunos como os professores tiveram que se reinventar para continuar ensinando e aprendendo. Nas comunidades, muitas famílias tiveram que optar entre garantir acesso às aulas para seus filhos por meio da tecnologia ou trazer alimento para dentro de casa, por conta do agravamento da desigualdade socioeconômica.


Neila Marinho, 44 anos, é professora e pedagoga formada há mais de 20 anos, nascida no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Foi professora e coordenadora de uma creche-escola no Alemão, onde acompanhou o cotidiano de desigualdades vivenciado por muitas famílias. Atualmente leciona em um colégio de classe média, com realidade distinta, porém com o mesmo ideal: proporcionar uma educação de qualidade aos filhos.


“Construir um ambiente de aprendizagem dentro de uma comunidade é um dos grandes desafios de um professor”, afirma Neila. Ela menciona a desvalorização do professor, a jornada de trabalho extensa e o número excessivo de alunos dentro da sala de aula como problemas que influenciam muito no ensino-aprendizagem. “Além disso, a falta de recursos pedagógicos, a indisciplina dos alunos e a violência são agravantes que temos de superar como desafios”.


Se antes da pandemia o contexto já era de dificuldades, depois da covid-19 ficou ainda mais difícil garantir o direito à educação, como conta a professora. A realidade de muitos estudantes, sobretudo de favelas e periferias, é a de não ter acesso à tecnologia, o que contribui para a exclusão. “Falar de educação no Brasil já é um problema devido à falta de investimentos. Agora, com a pandemia, ficou ainda mais difícil. A falta de planejamento e recursos só aumentou os problemas socioeducacionais e, com isso, a desigualdade ficou nítida para todos”, explica. Segundo Neila, não foi só a tecnologia que escancarou esse problema, mas a falta de interesse, motivação, estrutura e empatia.


“A educação já vem lutando há muito tempo contra a evasão escolar. Por uma série de motivos os alunos são levados a abandonar os estudos. Com a pandemia foi muito difícil manter o foco de muitos deles. Sem recursos tecnológicos, sem internet, sem material, sem incentivo e, principalmente, sem o seu maior apoiador: o professor. O prejuízo disso tudo é incalculável, pois trazer esse aluno de volta para a rotina é o nosso maior desafio”, lamenta.


No Morro do Timbau, favela que pertence ao Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Jéssica Guedes, 14 anos, cursava o nono ano do Ensino Fundamental no CIEP Operário Vicente Mariano no início da pandemia. Ela mora com a mãe e irmãos gêmeos de 8 anos — um menino e uma menina. Durante o ano de 2020, ela tentou acompanhar as atividades online, mas não conseguiu e abandonou. “No começo eu não estava muito animada. A gente parou dia 14 de março, aí ficou online. Até comecei a fazer os deveres e depois abandonei tudo de vez. Não sei se era porque estava sendo online, que foi uma coisa muito complexa. E teve a influência dos colegas também”, conta.


Ela estava matriculada no 8º ano, não fez nenhuma atividade passada pelos professores e passou para o 9º ano do Ensino Fundamental. Em 2021, começou a acompanhar as atividades online, tanto as tarefas passadas pela plataforma RioEduca — da Prefeitura do Rio de Janeiro — quanto as aulas ao vivo, e tem conseguido acompanhar. Além disso, iniciou o curso Preparatório para Ensino Médio, do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), que oferece aulas ao vivo toda tarde, de segunda a sexta-feira.


No final de maio, Jéssica optou por voltar às aulas presenciais. A turma, que antes era de 38 alunos, agora tem 20, que foram divididos em dois grupos: A e B. A cada semana é um grupo que vai, e as aulas são das 8h às 14h, além do almoço no refeitório, com distanciamento. Na sala de aula, os 10 alunos ficam separados em três fileiras. Na semana em que não tem aula presencial, são passadas atividades pela plataforma RioEduca, com uma aula online por semana.


Sem computador, ela faz tudo pelo celular. Segundo Jéssica, muitos colegas não voltaram a estudar, nem online nem presencial, o que a preocupa por ser o ano anterior ao Ensino Médio. “Este ano estou aconselhando os colegas a fazerem as atividades. Eu falo: já estamos no segundo bimestre, vamos pro terceiro, isso vai te atrasar”. O casal de irmãos, de oito anos, também não fez todas as atividades em 2020, mas as crianças foram “passadas” para o terceiro ano. Ainda não alfabetizados, eles geram mais preocupação na mãe, Sidneya Guedes Martins, de 47 anos. “Eles passaram para o terceiro ano e até agora eu não entendi por quê, já que eles estão com dificuldade na alfabetização”, resume. Segundo a mãe, eles ainda não sabem ler e escrever, e quem ajuda é a irmã de 14 anos. Ela vai até a escola deles toda semana buscar a xerox das atividades que precisam ser feitas e ajuda, um de cada vez, para que não fiquem tão atrasados na escola.


Para a mãe, é também um jeito de manter os filhos em casa, principalmente o menino: “Quando eu vejo que ele quer ir pra rua, eu falo: ‘bora, Jéssica, pega o caderno! Vai fazendo como dá‘”. A escola deles também abriu a oportunidade de voltar o ensino presencial, mas no dia das inscrições ela não estava com a internet wifi em casa, teve que ir à casa de uma vizinha para fazer a matrícula, mas não deu tempo e acabaram as vagas. Sidneya espera abrir de novo no mês de agosto. “Pra mim é melhor, porque com eles em casa é difícil. Aí a Jéssica vai e ensina. Um dia é um, amanhã é outro, mas ela também precisa estudar, né?”, explica.


Ativismo contra as desigualdades


Com objetivo de superar as diversas situações difíceis dentro da favela, os próprios moradores da comunidade se unem para ajudar uns aos outros. Enquanto o Estado não garante o básico às famílias, tampouco o auxílio emergencial consegue suprir as suas necessidades, mulheres como Camila Santos fazem a diferença dentro do lugar onde nasceram e se criaram.


Nascida na Grota, Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, Camila Moradia, como é conhecida por todos, é defensora dos Direitos Humanos e militante na questão habitacional desde 2010 após vivenciar uma remoção. Em 2015, fundou o Mulheres em Ação no Alemão (MEAA), que tem como missão acabar com a violência contra mulheres e contribuir para o seu empoderamento e de suas famílias, promovendo direitos e colaborando para o fortalecimento da autonomia.


Em relação aos desafios em meio à pandemia, sobretudo quando as flexibilizações do isolamento iniciaram, Camila explica: “O MEAA é um coletivo que acompanha e monitora famílias chefiadas por mulheres. Com a queda de doações, como já temos um ‘perfil’ da família, conseguimos dar outros direcionamentos através de parcerias. Infelizmente é pouco, mas tem feito uma diferença gigante na vida de muitas famílias”.


Ela conta como é difícil conciliar o cotidiano repartido entre o trabalho, a família, o ativismo e o cuidado com a saúde mental. “A gente tenta conciliar. No pico da pandemia, foi quase impossível. Eu sou mãe solo, durante três meses seguidos eu só via meus filhos à noite. Atualmente, tenho tentado organizar um tempo para cada coisa, mas é difícil porque nossa vida é uma eterna luta por sobrevivência”, pontua.


Desemprego, luto e fome


A pandemia tem deixado marcas difíceis de serem superadas e apagadas. Desemprego, famílias destruídas pela morte e problemas que os moradores de favela precisam enfrentar todos os dias. As contas chegam, a comida acaba, não sobra espaço para o luto. Como a maioria não tem a opção de ficar em casa, arriscam-se todos os dias enfrentando transportes lotados. De acordo com o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19, promovido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), 116,8 milhões de brasileiros não tinham acesso pleno e permanente a alimentos no fim de 2020 — isso significa que mais da metade da população vivenciou algum tipo de situação de insegurança alimentar (Radis 225).


O auxílio emergencial, uma das medidas estratégicas para garantir a sobrevivência dos grupos mais afetados pelo cenário de crise econômica durante a pandemia da covid-19, não consegue cobrir o valor do aluguel, do uso de gás de cozinha e da alimentação. Como denunciado por diversas organizações e lideranças, a redução desse benefício afeta diretamente as condições de vida e segurança de trabalhadores informais, desempregados e autônomos.


Em Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro, há seis anos, nasceu o projeto Manguinhos Solidário para atender as demandas de enchentes, problema recorrente na região. “Com o tempo, o projeto começou a atender à população em períodos de grandes urgências de diferentes naturezas”, afirma Paloma Gomes, voluntária do projeto.
Atualmente são distribuídas, em média, 200 cestas básicas por mês às famílias mapeadas por coletivos do território e pelos voluntários do Manguinhos Solidário. Este ano as arrecadações sofreram uma queda. “A arrecadação diminuiu bastante, mesmo com parcerias novas. Não está sendo um período muito bom”, conta. “É um momento muito difícil, em que muitas pessoas perderam seus empregos. Não temos um governo para a população pobre, preta e favelada”.

Desafios da vacinação


Segundo a médica da Clínica da Família do Jacarezinho, Rita Borret, a questão da vacinação tem sido complicada, pois as pessoas trabalham e muitas vezes não conseguem comparecer às clínicas para serem vacinadas. “As pessoas trabalham, têm emprego formal e acabam tendo dificuldades de ir se vacinar no dia destinado à sua idade, já que é sempre em dia de semana e horário comercial. Isso dificulta muito para a primeira dose”, explica.


Além disso, muitas pessoas não têm voltado para tomar a segunda dose, pois alegam medo das reações. “Tem uma dificuldade nesta questão da segunda dose. As pessoas estão com muito medo por causa dos efeitos colaterais que tiveram na primeira. Fazemos o trabalho de conscientização, mas existe muita dificuldade”, relata. As unidades de saúde começaram com um movimento de repescagem, o que tem facilitado para quem perdeu a data conseguir se vacinar.


Nas unidades de saúde da Maré, a situação não é muito diferente. Até 28 de junho, tinham sido aplicadas cerca de 46 mil doses da vacina, segundo a Coordenação de Área de Planejamento (CAP) 3.1. Destas, 36.789 foram primeira dose (o equivalente a 26,2% da população), enquanto 8.900 foram segunda dose (apenas cerca de 6% da população da Maré).
Já em Manguinhos, de 30 pessoas entrevistadas pelo projeto Conexão Saúde, 57% disseram ter tomado ao menos uma dose da vacina contra a covid-19, e a maioria afirmou seguir as medidas de isolamento mesmo após ter tomado as doses, segundo dados do projeto. Quanto aos não vacinados, 25% disseram ter preferência por algum tipo de vacina. Destas, 75% revelaram ter medo de reações adversas, como ressaltou a médica Rita Borret.

O projeto Conexão Saúde atua desde agosto de 2020 na Maré e desde dezembro em Manguinhos, promovendo ações de vigilância ativa em saúde. Por meio do projeto, moradores dos territórios têm direito a testes gratuitos, apoio no isolamento social e assistência médica. O projeto está articulado com lideranças comunitárias e é coordenado pela Fiocruz, em parceria com o Conselho Comunitário de Manguinhos, Redes da Maré, Dados do Bem, SAS Brasil e União Rio. Uma das prioridades é a produção de dados confiáveis sobre a situação da pandemia nos dois territórios. Editado desde março de 2020, o boletim Conexão Saúde — De Olho no Corona traz dados atualizados quinzenalmente (número de casos e óbitos, vacinação, testagem e resultados do projeto na Maré e em Manguinhos) junto com a análise de especialistas sobre o quadro atual e propostas para o enfrentamento da covid-19 nestes territórios. As edições do boletim podem ser acessadas em www.redesdamare.org.br/publicacoes.


Ações solidárias nas favelas


Cozinhas na Maré


A Frente de Mobilização da Maré terá sua cozinha solidária. A “Cozinha da Frente” e a “Cozinha Marginal” foram aprovadas no edital de Apoio a Ações Emergenciais de Enfrentamento à Covid-19 nas Favelas, promovido pela Fiocruz e pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). As cozinhas solidárias distribuem refeições gratuitas para as famílias de territórios vulnerabilizados socialmente. A iniciativa de combate à fome viabiliza também doações de alimentos e o trabalho voluntário para a distribuição aos moradores durante os períodos de crise.


Nóiz na Cozinha


O projeto social Nóiz surgiu no território do Brejo, na Cidade de Deus, e atua na área de educação e profissionalização com ações voltadas para a cidadania. A ação Nóiz na Cozinha trabalha com o ensino do reaproveitamento de alimentos em pratos e receitas que custam pouco. O objetivo da iniciativa é montar uma cozinha experimental para capacitação ligada ao reaproveitamento de alimentos e alimentação de baixo custo. Estão à frente do projeto os chefs Marilia Koury e Filipe Catão.


Teia de Solidariedade-ZO


A Teia de Solidariedade Zona Oeste articula coletivos, lideranças e instituições atuantes nos bairros de Campo Grande, Bangu, Santa Cruz, Sepetiba, Pedra de Guaratiba, Vargens, Quilombo do Camorim, Recreio e Jacarepaguá. Gerida e coordenada por mulheres pretas e periféricas, a Teia busca a diminuição da vulnerabilidade de famílias impactadas pela pandemia através da ação emergencial em defesa da saúde comunitária e combate à fome. Foi elaborado um kit de saúde e autocuidado baseado no conhecimento ancestral, principalmente de mulheres pretas nos quintais produtivos, quilombos e favelas da Zona Oeste, que busca ainda o combate à insegurança alimentar através da distribuição de alimentos.


Mural de grafite Painel Covid


O Painel Covid foi desenvolvido para atualização de dados sobre o avanço da covid-19, como número de casos e óbitos na favela. Foram escolhidos pontos estratégicos da Maré para registro do diagnóstico e acompanhamento dos dados que muitas das vezes não chegam até a população por dificuldades de acesso à informação. Grafiteiros do território foram convocados para realização das artes do mural com as informações da pandemia para promover essa comunicação visual e diálogo com os moradores.


4G para estudar


O pré-vestibular Unifavela, um dos mais recentes da Maré, participou de um programa de inclusão digital chamado “4G para Estudar”, da ONG Nossas, que teve que se adaptar à realidade local. O programa deveria, a princípio, pagar planos de internet banda larga para os estudantes, porém os serviços operantes na Maré não têm boa qualidade. Sinal de internet fraco e intermitente é o principal problema. O pré-vestibular, então, utilizou o apoio para comprar tablets e chips para acesso ao 4G de seus estudantes, que a partir de agosto de 2020 puderam acompanhar as aulas sem tantas interrupções.


Rumo ao Enem


O projeto da Unicef, viabilizado pela ONG Luta pela Paz, sediada na Maré, que visa a garantia do direito ao estudo de jovens que iriam fazer o Enem. No caso da Maré, o projeto firmou uma parceria com o Curso Pré-Vestibular (CPV-CEASM) para realizar o cadastramento de jovens interessados que tivessem renda familiar per capita inferior a 178 reais por mês; residentes em locais com cobertura de algum sinal de internet; sem dispositivo em casa para acesso à internet e nem pacote de dados ou qualquer tipo de acesso ao sinal de internet. Foram beneficiados 16 participantes do CPV que receberam, cada um, um smartphone, um cartão pré-pago que foi recarregado mensalmente durante cinco meses, dentre outros itens como caderno e livro. A distribuição foi realizada em novembro de 2020.




Fonte: Radis
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