Especialistas defendem novos modelos de produtividade para combater desigualdades na Academia
Por Bruna Abinara
Os desafios à equidade de gênero e raça na Academia foram o tema do Centro de Estudos Miguel Murat de Vasconcellos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ceensp/ENSP/Fiocruz) realizado nesta quarta-feira (26/3). No âmbito do mês da mulher, o evento dialogou com as atividades do grupo de trabalho Meninas e Mulheres na Ciência, refletindo sobre o acesso, a permanência e a progressão das cientistas no campo acadêmico. O debate foi transmitido pelo canal da ENSP no Youtube; confira.
A moderadora da mesa, a pesquisadora da ENSP Vera Marques, contextualizou que a produtividade acadêmica está fortemente associada à quantidade de artigos publicados em revistas e o seu impacto na comunidade científica, sendo um fator diretamente associado à distribuição de recursos financeiros. No entanto, a moderadora alertou para como esse contexto impacta as pesquisadoras de forma desigual. “Se na formação de cientistas predominam mulheres, na inserção como docentes, em programas de pós-graduação e na obtenção de bolsas de produtividade, elas são minoria”, constatou.
Vera citou o Efeito Tesoura, que dificulta o progresso de mulheres na Academia, e o Efeito Matilda, que invisibiliza o seu trabalho, como exemplos das desigualdades de gênero e raça nas ciências. Assim, ela deu início ao debate questionando quais estratégias podem ser desenvolvidas para combater esse cenário.
“A produtividade científica tem cor, gênero, idade, classe social, território. Não cabe pensarmos que são espaços imparciais quando a ciência foi forjada na colonialidade, é falocêntrica, branca e eurocentrada”, avaliou a pesquisadora Ionara Magalhães, da Universidade Estadual de Feira de Santana. A palestrante ressaltou a importância de reconhecer que as estruturas acadêmicas são racistas, machistas, etaristas e negam certos sujeitos enquanto produtores de conhecimento.
Para Ionara, é preciso considerar a interseccionalidade, enfatizar as ausências e pensar na mudança social como objetivo da pesquisa. Ela contextualizou que o mundo passa por uma era de recrudescimento do conservadorismo em que poucas cabeças brancas localizadas no Norte Global pensam a ciência e pretendem explicar a história e as sociedades como um todo. Relações predatórias, ambiente tóxico, baixa representatividade e divisão do trabalho científico por gênero foram algumas das desigualdades citadas pela pesquisadora. “Se queremos um país justo e desenvolvido, precisamos passar pela valorização das mulheres no campo científico”, concluiu.
A professora da Universidade Federal de Santa Catarina Miriam Grossi reforçou que a ciência reflete os modelos criados pelo Norte Global a partir da masculinidade. Nesse espaço de hierarquias, a antropóloga feminista explicou que o sistema posiciona os sujeitos em diferentes lugares de valor, dependendo de prestígio da instituição, de recursos financeiros e prêmios. A palestrante lembrou que a entrada das mulheres na ciência só aconteceu a partir do século XX, e, ainda assim, com muitas restrições.
Miriam contextualizou que, ao longo da história, homens se apropriaram do trabalho científico feito por suas esposas. Além disso, questões relacionadas à maternidade e ao trabalho do cuidado ainda impactam diretamente o nível de produtividade das pesquisadoras, uma vez que essas responsabilidades são socialmente consideradas atribuições femininas. Por isso, ela questionou se os antigos processos avaliativos ainda são efetivos. “Esses outros corpos trazem novas epistemologias, que são atualmente desconsideradas enquanto forma de fazer ciência”, afirmou. Por fim, a professora aconselhou que “fazer ciência é fazer política”.
Em seguida, a presidenta da CAPES, Denise Pires, apresentou um panorama dos cursos de pós-graduação no país a partir de dados coletados pelo órgão. A palestrante explicou que o Censo da Pós-Graduação mapeia aspectos demográficos, socioeconômicos, culturais, étnico-raciais, e de gênero dos pós-graduandos, docentes e técnicos para identificar desigualdades e subsidiar a formulação de políticas públicas e ações afirmativas.
Ao analisar o número de mulheres em formações de pós-graduação, Denise constatou que elas se tornaram maioria em cursos de Mestrado em 1998; porém, o mesmo efeito só ocorreu em 2005 para o Doutorado. “Esse contexto demonstra um aspecto característico da desigualdade de gênero: o Efeito Tesoura. Há algum fator que dificultou o acesso e a permanência das mulheres naquele ambiente”, explicou. A presidenta do CAPES ressaltou que esse fenômeno também prejudica o sucesso das cientistas em concursos públicos, a participação delas em cargos de liderança e a sua média salarial. "Quando olhamos para mulheres pretas, a situação é muito pior. Por isso, falamos não só da importância de políticas de equidade de gênero, mas também de interseccionalidade”, afirmou.
A pesquisadora do PROCC e docente do Programa de Epidemiologia em Saúde Pública da ENSP Marília Sá Carvalho criticou o modelo atual de medição de produtividade acadêmica que prioriza quantidade contra eficiência. A co-editora-chefe dos Cadernos de Saúde Pública apresentou a máxima "Inovação, Qualidade, Quantidade: Escolha dois" e defendeu que, nessa escolha, a quantidade poderia ser deixada de lado para valorizar a qualidade e a inovação. “Esse modelo de produtividade é particularmente oneroso para as mulheres, em especial as jovens cientistas, que estão em menor número nas coordenações e não têm tempo para produzir em quantidade”, explicou.
Sob o viés de gênero, Marília refletiu que as relações de poder, abuso e preconceito na ciência reproduzem o que está no mundo. Para a palestrante, é preciso compreender os processos de discriminação, da publicação científica e do desejo de fazer ciência para promover mais equidade na Academia. “Qual a motivação entre mulheres, negros, indígenas? Precisamos recuperar isso, porque é assim que vamos construir um conjunto de cientistas aptos a caminhar no sentido de superar desigualdades e melhorar o mundo”, defendeu.
+ Assista ao evento na íntegra pelo canal da ENSP no Youtube