“A luta é coletiva”: violência política de gênero e raça ainda limita a presença feminina nos espaços de governança, alerta Vera Marques
Por Guilherme Oliveira*
Vera possui trabalhos importantes em relação à pauta feminina, entre eles, o documentário “Nossas lutas, nossas vozes”. O filme estreou no cinema em maio de 2025 e foi fruto de uma parceria da ENSP com a produtora VídeoSaúde (distribuidora da Fiocruz). O média-metragem traz o relato contundente de dor e coragem de mandatárias sobreviventes da violência política de gênero e raça em seu cotidiano parlamentar, se constituindo em um dos produtos de divulgação científica da pesquisa “Violência Política de Gênero, discursos de ódio e desinformação em interface com a saúde”, apoiada pelo Edital de Pesquisa 2021, lançado pela ENSP, por meio da Vice-Direção de Pesquisa e Inovação, no âmbito do Programa de Fomento ao Desenvolvimento Científico. O estudo analisou aspectos da violência política de gênero contra lideranças políticas, entre mulheres e pessoas LGBTI+, além das repercussões desse tipo de violência na saúde física e mental e as estratégias de enfrentamento adotadas por essas lideranças.
A entrevista integra a série especial sobre pesquisas coordenadas por mulheres pesquisadoras do Claves/ENSP, que reúne matérias e vídeos com pesquisadoras que estudam pautas fundamentais para entender a violência contra as mulheres como um problema de saúde pública, trazendo reflexões que dialogam diretamente com a campanha institucional Feminicídio Zero, defendida pela Fiocruz e por seu Coletivo de Mulheres, o 8M.
Leia, abaixo:
Quais as principais maneiras que existem hoje para as mulheres se defenderem da violência política de gênero?
Vera Marques: As próprias instituições legislativas têm instâncias para denúncias de violência, como as corregedorias e comissões de ética. Porém, na prática, elas têm negligenciado o tema, contribuindo para a manutenção de abusos no exercício político. É urgente que estas instâncias tomem consciência deste problema e assumam protagonismo na prevenção e proteção de sobreviventes da violência política de gênero e raça, bem como na punição de agressores.
Há outros caminhos possíveis para buscar orientações e denunciar, como o Ligue 180 do Governo Federal, as Delegacias de Atendimento à Mulher e o Ministério Público Eleitoral. Da mesma forma, a articulação de redes de mulheridades é fundamental, pois a violência política de gênero que recai sobre uma candidata ou mandatária, em sua individualidade, se endereça também a todas as outras. A luta é coletiva.
A violência política de gênero atinge também pessoas LGBTQIA+ que atuam na política?
Vera Marques: Esta sigla engloba muitas identidades. A violência política de gênero incide sobre corpos que performam o feminino, articulando-se com outros sistemas de opressão como raça, classe, orientação sexual e idade. Um feminino que necessariamente deve se submeter à ordem patriarcal, interseccionalmente violenta.
Você acha que, após a morte da Marielle Franco, houve maior consciência dos políticos e da população sobre a questão da violência política de gênero?
Vera Marques: O tema da violência política de gênero ganha relevância na agenda internacional, particularmente latino-americana, a partir dos anos 2000, quando normativas regionais foram assinadas para o enfrentamento. Na minha compreensão, embora o Brasil seja signatário destas diretrizes, é com o feminicídio político de Marielle que esta violência, de fato, ganha espaço no debate público. A própria aprovação da Lei 14.192/2021, que estabelece normas para prevenir, reprimir e punir a violência política de gênero, é um reflexo direto desta mobilização. Também o aumento de candidaturas de mulheres negras e periféricas que, inspiradas por Marielle, passaram a ocupar espaços no Legislativo, ainda que em um número muito abaixo do ideal.
Que outras medidas preventivas seriam efetivas para combater a violência política de gênero?
Vera Marques: O enfrentamento da violência política de gênero e raça requer mudanças culturais. Por isso, acredito muito no poder do conhecimento. É necessário reconhecer, na prática, que as mulheridades são detentoras plenas de direitos, que devem ser respeitados. É preciso compreender que toques físicos não consentidos e interrupções incessantes da fala das parlamentares, tão corriqueiras no cotidiano legislativo, são abusos inaceitáveis. Campanhas contínuas de conscientização a respeito fortalecem uma agenda preventiva. A veiculação por meio de mídia de amplo alcance é primordial, já que atinge diferentes grupos sociais, independente de classe e geração. Pensando em geração, é fundamental o engajamento especialmente de escolas, mas também de universidades. Como agentes de formação, são participantes na construção e promoção de uma cultura de equidade de gênero e raça, que valorize a diversidade.
Neste sentido, há um papel crucial na desconstrução de estereótipos nocivos que recaem sobre as mulheridades e de padrões de masculinidade que hipervalorizam a violência, a subjugação do outro como formas de expressão legítimas dos homens “de verdade”.
Por fim, destaco a necessidade de implantação de protocolos rigorosos dentro dos partidos políticos e casas legislativas visando prevenir, investigar e punir a violência política de gênero, bem como o fortalecimento de políticas afirmativas que promovam a paridade de gênero e raça nesses espaços.
Quais são os impactos da violência política de gênero na democracia brasileira?
Vera Marques: Inúmeros são os efeitos e atingem a sociedade como um todo. Primeiro, de uma perspectiva mais formal, a democracia exige capilaridade política, ou seja, que os anseios da sociedade adentrem o espaço formal da política, ensejando ações que a representem. Embora homens possam e devam apoiar a agenda das mulheridades, eles não as representam. Tampouco uma mulher branca representa uma negra, ainda que deva apoiá-la. É necessário reconhecer e respeitar os diferentes lugares de fala. Então, a violência política de gênero acaba sendo um instrumento de perpetuação da sub-representação dessas, violando seus direitos constitucionais.
Com isso, a repercussão social dessa violência se materializa em ações desconectadas da realidade de parcela muito significativa da população brasileira, uma parcela cuja centralidade para a vida social é incontestável, já que está envolvida tanto com a vida econômica, “produtiva”, quanto com a vida reprodutiva, do cuidado, de sobrevivência humana. A sub-representação das mulheridades pobres, negras, transgêneras, por exemplo, gera vieses nas políticas públicas, que acabam por contemplar apenas a visão de mundo daqueles que as desenham, perpetuando desigualdades históricas e comprometendo a legitimidade das instituições democráticas.
* Estagiário sob supervisão da equipe de Jornalismo do Informe ENSP
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