Fake news e hesitação vacinal no contexto da pandemia da Covid-19 no Brasil: tema de artigo da ENSP
Atualmente, uma a cada cinco fake news que circulam no Brasil é sobre vacinas. Notícias falsas a respeito de imunizantes, com dados estatísticos distorcidos acerca de contágio, óbito, cura e métodos caseiros de prevenção e cura da Covid-19, predominantemente usam o nome da Fiocruz como fonte da informação, com o intuito deliberado de defraudar o nome da instituição e dar confiabilidade ao engano, de maneira criminosa e proposital. A afirmação é do artigo assinado por Cláudia Pereira Galhardi, do Icict/Fiocruz; Neyson Pinheiro Freire e Isabel Cristina Kowal Olm Cunha, da Unifesp; Maria Clara Marques Fagundes, da UFF; e Maria Cecília de Souza Minayo, da ENSP/Fiocruz..
Publicado pela revista Ciência & Saúde Coletiva, o artigo apresenta a evolução das notícias falsas disseminadas a respeito das vacinas e do vírus Sars-CoV-2 e os impactos negativos desse fenômeno sobre a crise sanitária que o Brasil atravessa. Trata-se de um estudo empírico quantitativo, realizado a partir das notificações recebidas pelo aplicativo Eu Fiscalizo, por meio do qual foi identificado o predomínio das plataformas Instagram, Facebook, Twitter e WhatsApp como os principais meios de difusão e compartilhamento de boatos e desinformações acerca da Covid-19. A criação da ferramenta fez parte do pós-doutoramento da pesquisadora Claudia Galhardi, na ENSP, supervisionado por Minayo e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Também tem sido possível contar com a colaboração das pneumologistas e pesquisadoras da ENSP Margareth Dalcolmo e Patrícia Canto, e do Núcleo de Pesquisa em Jornalismo e Comunicação (NUJOC) da Universidade Federal do Piauí.
Para os autores, as fake news sobre pandemia, vacinas e saúde pública encontram terreno fértil para se proliferar no Brasil, diante de uma população hiperconectada cuja maioria não sabe reconhecer as diferenças lógicas entre notícias falsas ou verdadeiras. O simples exercício de verificar a fonte da informação parece um obstáculo intransponível para extensas parcelas da população. Principalmente quando se trata de curas milagrosas, acontecimentos fantasiosos e teorias conspiratórias a respeito de vacinas, o vácuo provocado pela precariedade da educação e pela ausência do Estado abre espaço para que sujeitos e instituições mal-intencionados plantem dúvidas no consciente coletivo da população e a leve ao erro de questionar consensos científicos incontroversos.
O artigo diz que esse processo se tornou especialmente perigoso no decurso da maior pandemia dos últimos 100 anos. Desde que a Covid-19 se instalou no Brasil, em março de 2020, a produção em escala de notícias falsas sobre o novo coronavírus tornou difícil para a população em geral encontrar notícias oficiais e verdadeiras acerca do assunto. Inclusive, o volume exponencial de fake news a respeito do vírus Sars-CoV-2 levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a cunhar o termo infodemia, para designar uma verdadeira epidemia de desinformação, deliberada ou incidental, que contribuiu significativamente para aumentar os riscos de contágio, estimular o afrouxamento do isolamento social e promover desconfiança em relação às vacinas.
De acordo com o artigo, a infodemia acontece quando informações e orientações que contrariam o conhecimento científico são amplamente difundidas, afetando a resposta a uma crise sanitária. Por se tratar de um fenômeno relativamente recente, existem poucas investigações empíricas em larga escala sobre a difusão da desinformação ou suas origens sociais . Não obstante, sabe-se que o termo fake news é utilizado livremente para indicar tanto boatos quanto informações falsas apresentadas sob o formato de “notícia”, e circulam principalmente nas redes sociais. É fundamental, porém, preservar a distinção entre informações meramente mal apuradas ou sem embasamento científico e aquelas deliberadamente falsas, divulgadas de forma intencional para atingir interesses de determinados indivíduos ou grupos .
O Programa Nacional de Imunização (PNI), coordenado pelo Ministério da Saúde (MS), em cooperação com as secretarias estaduais e municipais, está hoje entre os mais abrangentes do
mundo. O Brasil é um dos países que oferece o maior número de vacinas de forma gratuita: para crianças, nove para adolescentes e cinco para adultos e idosos. Os dados recentes, porém, revelam uma inversão na tendência histórica de maior aceitação das vacinas no país. Ao longo do século XX, a população brasileira passou da desconfiança e hostilidade às vacinas a uma forte adesão, associada ao sucesso das campanhas de erradicação de doenças como poliomielite e varíola, além de reduzir drasticamente a incidência de outras enfermidades imunopreveníveis, como sarampo, tétano, difteria e rubéola .
No Brasil, a chegada da vacinação massiva esteve associada a medidas higienistas que reconfiguraram a malha urbana das cidades e a políticas sanitárias coercitivas, como a vacinação forçada, inclusive com autorização para adentrar os domicílios. Em 1904, a vacinação obrigatória contra a varíola foi o estopim de um levante popular na então capital da República, o Rio de Janeiro, que ficou mundialmente conhecido como a Revolta da Vacina. Entretanto, a própria gravidade da doença e os surtos que assolavam o país naquele período histórico fizeram com que a população não demorasse a aderir à vacinação. Enquanto no início do século XX a vacina estava associada à violência do Estado, ao fim daquele século a vacinação beirava ao consenso nacional, associada a bem-sucedidas ações publicitárias, com campanhas festivas e atraentes, tendo como símbolo maior o personagem Zé Gotinha. O próprio sucesso do PNI é apontado, paradoxalmente, como uma das causas de sua crise, porque, à medida que as doenças passam a não circular mais, tornam-se desconhecidas e há uma redução no engajamento da população . Cria-se, assim, terreno fértil para a hesitação vacinal, articulada, no momento atual, por meio das redes sociais.
Durante a pandemia, as declarações públicas do presidente Jair Bolsonaro contribuíram para legitimar a hesitação vacinal, observam os autores, dando maior visibilidade e alcance a seus argumentos. Os próprios indivíduos hesitantes, embora articulados sobretudo por meio de redes sociais, não são um grupo homogêneo. Podem recusar apenas uma ou diversas vacinas, por motivos variados, entre os quais se destacam as crenças de que: a) a vacina contém elementos tóxicos; b) o sistema imunológico da criança é imaturo para lidar com tantas vacinas; c) as vacinas são parte de uma conspiração comercial da indústria farmacêutica; d) a imunidade natural é melhor; e) a maior parte das doenças é inofensiva para a maioria das crianças; f) as doenças imunopreveníveis se reduziram pela melhoria das condições sanitárias, e não por causa da vacinação; g) a liberação de vírus por dejetos, após a administração de uma vacina de vírus vivo, pode levar ao adoecimento.
No caso da Covid-19, a crença de que as vacinas não foram suficientemente estudadas, tendo em vista o tempo rápido de seu desenvolvimento, é um dos fatores associados à hesitação vacinal, ao que se acrescentam a desconfiança quanto à origem da vacina e fatores políticos-ideológicos, segundo o artigo.
É importante ressalvar, no entanto, dizem os pesquisadores, que a não vacinação nem sempre resulta de hesitação vacinal, definida como atraso ou recusa deliberada da vacina. Estudo empírico com bebês brasileiros em situação de atraso vacinal em Cuiabá (MT) aponta a indisponibilidade da vacina na unidade de referência como causa, de acordo com os responsáveis. Fatores demográficos, como idade da mãe ou do cuidador primário, também estão associados à propensão a aderir ou não à vacinação.
Finalmente, os autores esclarecem que o processo saúde-doença, na perspectiva antropológica, destaca o diálogo entre biologia e condição social do indivíduo. Elementos inerentes a todos os seres humanos, como o reflexo de sucção do recém-nascido, escapam ao domínio dos costumes. O processo saúde-doença, por sua vez, engloba fatores biológicos, psíquicos e sociais, sendo construído dentro de condições sanitárias e de vida específicas, singularidades subjetivas e de um sistema de crenças . Assim, acrescentam os autores, a adesão à vacinação está sujeita ao imaginário e a mecanismos sociais que influenciam, de forma decisiva, a propensão de uma dada comunidade a ser vacinada ou não. Entre os múltiplos fatores que afetam tal decisão, destacam-se a confiança na importância, segurança e eficácia das vacinas, bem como a compatibilidade com os valores religiosos do indivíduo – aspectos que o Vaccine Confidence Index (VCI) busca captar. Países que têm maiores percentuais de concordância com afirmações de que vacinas são seguras, importantes e eficazes apresentam maior percentual de pessoas que relatam ter vacinado seus filhos.
O Brasil, historicamente, apresenta muita confiança da população nas vacinas, mensurada pelo VCI. Entretanto, a adesão vem caindo nos últimos anos, alertam os autores. Em novembro de 2015, mais de 90% dos entrevistados concordavam plenamente com a assertiva “vacinas são importantes”. Em novembro de 2018, o percentual caiu para 80-89,9%. A concordância plena com as assertivas “vacinas são seguras” e “vacinas são eficazes” se reduziram ainda mais no curso da pandemia, de 70-79,9% para 60-69,9% . “Esse processo de deterioração da confiança continua, e atingiu patamares inéditos, sobretudo por causa de uma novidade: o infodêmico de notícias falsas que atinge a sociedade de maneira acachapante por meio de dispositivos eletrônicos”, concluem.
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Fonte: Ciência e Saúde Coletiva