Paulo Nadanovsky fala sobre a pandemia de Covid-19 em dezembro de 2021
O pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), Paulo Nadanovsky, fala sobre A pandemia de Covid-19 em dezembro de 2021: o objetivo é eliminar, diminuir ou permitir a circulação do vírus? Segundo ele, neste momento não temos que pensar apenas em controlar a transmissão do vírus, mas também em sair da pandemia. Máscara, distanciamento físico e testagem em massa são bons para evitar a transmissão do vírus, mas não para acabar com a pandemia.
Confira, abaixo, o texto na íntegra.
Rio de Janeiro, escrito entre 2 e 9 de dezembro de 2021.
Neste momento não temos que pensar apenas em controlar a transmissão do vírus, mas também em sair da pandemia. Máscara, distanciamento físico e testagem em massa são bons para evitar a transmissão do vírus, mas não para acabar com a pandemia. Por isso, talvez haja boas justificativas para que essas medidas sejam aplicadas com parcimônia neste momento. É como um jogo de xadrez, em que cada passo deve ser avaliado cuidadosamente quanto ao seu provável efeito, considerando dois objetivos: evitar a transmissão do vírus e sair da pandemia. Ao contrário do que parece, esses dois objetivos tendem a ser antagônicos. Há um delicado trade off, pois os passos que favorecem um tendem a desfavorecer o outro. A principal motivação deste texto é tentar esclarecer o antagonismo entre esses dois objetivos, com a esperança de que esse esclarecimento possa auxiliar os fazedores de políticas públicas e as pessoas de uma forma geral a tomar decisões mais racionais neste momento.
Há consenso entre grande parte dos especialistas de que não é possível eliminar a circulação do SARS-CoV-2[1]. Até mesmo países que a eliminaram (por exemplo, Nova Zelândia), reconhecem que se quiserem relaxar o controle de suas fronteiras, terão que abrir mão da vida livre de COVID-19[2].
As alternativas para lidar com essa pandemia, desde o início, sempre foram as mesmas: eliminar, controlar ou permitir a circulação do vírus[3]. O que diferencia este momento (dezembro de 2021) é, principalmente, o sistema imune das pessoas que, ao contrário do início da pandemia (março de 2020), não é mais naive (imunologicamente ingênuo).
O grande temor que tivemos do SARS-CoV-2 foi porque não sabíamos quão virulento (agressivo) ele era e porque as pessoas tinham um sistema imune naive frente a ele. Atualmente, praticamente todos os adultos no Brasil já foram vacinados e/ou infectados e sobreviveram à infecção pelo SARS-CoV-2. Além disso, muitos adultos e crianças continuam tendo reinfecções por este vírus ou recebendo novas doses de vacina. Tudo isso nos tornou, em pouco tempo, imunologicamente preparados para enfrentar novos encontros com este vírus. Portanto, neste momento, estamos numa situação mais favorável em relação ao vírus do que no início da pandemia.
Existe justificada preocupação com novas variantes. No caso específico da OMICRON, ou de novas variantes com características similares que porventura venham a surgir, a preocupação se justifica principalmente pelo seguinte: mesmo que ela seja menos letal (ou menos agressiva), se ela for mais transmissível, a quantidade total de casos graves na população pode ser maior do que durante a predominância de variantes anteriores (como a DELTA), que parecem ser mais agressivas e menos transmissíveis. Ou seja, do ponto de vista do indivíduo, a OMICRON pode ser menos preocupante (menor probabilidade de levar uma pessoa infectada à hospitalização ou morte), mas em números totais na população ela pode gerar mais hospitalizações, mortes e, consequentemente, sobrecarregar os serviços de saúde. No entanto, há dois fatos que também devem ser enfatizados. Primeiro, quaisquer que sejam as novas variantes do SARS-CoV-2, elas encontrarão pessoas que já possuem um sistema imune alerta (pela vacina e/ou pela infecção). Segundo, a probabilidade de que surja uma variante do SARS-CoV-2 que consiga escapar completamente da imunidade que adquirimos pela vacina e pela infecção é pequena[4].
A vacina (e a infecção) evita a infecção (e a reinfecção) e a transmissão do SARS-CoV-2, mas apenas por um tempo limitado. A imunidade contra a infecção pelo SARS-CoV-2 enfraquece rapidamente, algo em torno de 3 a 6 meses para a variante DELTA[5], enquanto a imunidade contra COVID-19 grave e morte parece ser mais longa[6]. Novas variantes do SARS-CoV-2, como a DELTA, alteraram pouco a eficácia da vacina e o mesmo pode ser o caso da OMICRON, mas isso ainda está sendo pesquisado.
O monitoramento de adultos que adoecem em decorrência da COVID-19 depois de estarem vacinados ou de terem tido COVID-19 anteriormente é importante, pois necessitamos saber se esses casos tenderão a ser brandos ou graves. O monitoramento de crianças não vacinadas que pegam COVID-19 pela primeira vez é importante, pois precisamos saber se esses casos tenderão a ser brandos com o surgimento de novas variantes, como tem sido até este momento da pandemia, incluindo a DELTA e suas antecessoras.
Clique aqui e leia o texto na íntegra, no Blog do Paulo Nadanovsky.