Olimpíada na pandemia: pesquisadores alertam sobre riscos num cenário de incertezas
Filipe Leonel
Até domingo, 8 de agosto, mais de 11 mil atletas, de 204 países, passarão por Tóquio, no Japão, para disputa dos Jogos Olímpicos. Apesar da rigidez nos protocolos, a realização do maior evento esportivo do planeta ainda é considerada um risco para especialistas de diversos campos da Saúde Pública. A concentração de milhares de pessoas, provenientes de países em diferentes estágios da pandemia, a desigualdade no acesso à vacina, o risco do surgimento e propagação de novas variantes e a ameaça para aqueles que estão fora da bolha de proteção dos organizadores são aspectos que preocupam a comunidade científica em um cenário de vulnerabilidade de toda a população mundial.
Até domingo, 8 de agosto, mais de 11 mil atletas, de 204 países, passarão por Tóquio, no Japão, para disputa dos Jogos Olímpicos. Apesar da rigidez nos protocolos, a realização do maior evento esportivo do planeta ainda é considerada um risco para especialistas de diversos campos da Saúde Pública. A concentração de milhares de pessoas, provenientes de países em diferentes estágios da pandemia, a desigualdade no acesso à vacina, o risco do surgimento e propagação de novas variantes e a ameaça para aqueles que estão fora da bolha de proteção dos organizadores são aspectos que preocupam a comunidade científica em um cenário de vulnerabilidade de toda a população mundial.
Em abril deste ano, reportagem publicada pela Agência Brasil – com base na pesquisa da agência de notícias Kyodo News – revelou que mais de 70% do povo japonês desejava o adiamento ou até mesmo o cancelamento da Olimpíada de Tóquio enquanto a pandemia do novo coronavírus se alastrasse. A preocupação da população com a possível alta se confirmou na última quinta-feira (29/7), com o registro recorde de casos de Covid-19 (quase 10 mil novos casos confirmados). A capital Tóquio, sede dos jogos, também registrou recorde de infectados pelo terceiro dia seguido, com 3.865 infecções, uma alta de 23,5% em relação aos 3.177 casos do dia anterior.
A opinião da população faz coro ao alerta da ciência. Segundo a OMS, as evidências disponíveis atualmente apontam que o vírus causador da Covid-19 pode se espalhar pelo contato indireto (por meio de superfícies ou objetos contaminados), ou direto com pessoas infectadas por secreções como saliva e secreções respiratórias ou de suas gotículas respiratórias, que são expelidas quando uma pessoa tosse, espirra, fala ou canta. Além disso, recentemente, a transmissão aérea vem sendo cada vez mais enfatizada. Por isso, é importante a manutenção de ambientes ventilados, do distanciamento físico e o uso de máscaras para proteção.
A disseminação mundial de uma nova doença e as medidas preventivas
Especialista na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Bioética, o pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) Sérgio Rego chama a atenção para o risco que a movimentação das pessoas tende a provocar em termos de transmissão do vírus. Não por acaso, esse é um dos motivos que levam a OMS decretar uma emergência de saúde pública de importância internacional. “É preciso maior vigilância nas fronteiras, ou seja, controlar a possibilidade de espalhar a enfermidade. A principal questão ao realizar um evento desse porte é aumentar o risco da transmissão. Até porque várias novas cepas estão surgindo, e o evento intensifica a movimentação das pessoas”, lembrou.
“Os jogos olímpicos são um evento de grandes proporções e reunirão milhares de atletas de todo o mundo. Se houver um surto de Covid-19 entre os atletas, o risco será alto para eles e para todos os envolvidos (trabalhadores da Vila Olímpica, por exemplo, e suas famílias)”, observou.
A preocupação com a possibilidade de os Jogos Olímpicos se tornarem um evento propagador do vírus fez o infectologista André Périssé (ENSP/Fiocruz) se recordar da Rio 2016. Naquela ocasião, mais de 150 cientistas enviaram carta aberta à Organização Mundial da Saúde (OMS) instando-a a “reconsiderar” sua posição e assumir a postura “ética” de recomendar o adiamento ou a mudança de local dos Jogos Olímpicos previstos para agosto no Rio de Janeiro devido ao Zika vírus.
Périssé, que faz parte do Grupo de Trabalho que discute o retorno presencial das atividades Escolares no Rio de Janeiro, completa. “A Covid-19 voou com os passageiros. Foi de um canto ao outro do mundo por meio do transporte aéreo. Não existe lugar isolado ou 100% seguro enquanto tivermos locais fora de controle. E a vacinação é a única forma para conter isso. Em relação ao retorno das atividades escolares, dizemos que não é possível ter um retorno 100% seguro. Temos algumas medidas que podem reduzir o impacto da doença. E estamos falamos de locais pequenos, não eventos de massa”, concluiu.
As populações vulneráveis
O que está por vir?
A despeito do risco de transmissão no Japão, o pesquisador Paulo Sabroza, que atua nas áreas de epidemiologia, geografia da saúde e a vigilância em saúde, avalia que a crise gerada pelo novo coronavírus é apenas mais um exemplo das condições de vulnerabilidade que a própria sociedade construiu ao longo dos anos. Dessa forma, ele considera que os Jogos Olímpicos de Tóquio podem ser um experimento para décadas de crise que devem assolar o mundo num futuro muito próximo. Por isso, ele cobra uma mudança de postura da sociedade.
“O mundo não voltará a ser como era. E temos que nos preparar para operar, ter o mínimo de foco e tranquilidade em uma nova situação na qual teremos cada vez riscos. O coronavírus é um alerta, mas as consequências das mudanças climáticas, por exemplo, já estão acontecendo, não serão mais daqui a 20 ou 30 anos. Já sentimos o reflexo. Precisamos é pensar em uma sociedade preparada, resiliente. E acho que o Japão pode, sim, ser um teste diante do período de crise que deve se prolongar por décadas. Não será o fim da espécie humana, mas talvez o fim do nosso tipo de sociedade”, ponderou.
O pesquisador afirma que, ao longo de toda a história, as crises, além de produzirem extremo sofrimento, também proporcionaram transformações sociais gigantescas. “A cólera foi o principal determinante da saúde pública, do conceito de saúde pública, ou seja, da emergência desse conceito e de ações públicas coletivas sobre a saúde em áreas urbanas”, justificou. E completou enfatizando a necessidade de mudança.
Foto Capa: Reuters/Kim Kyung-Hoon
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