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‘Mulheres, Ciências e Saúde’ é tema do número especial de outubro da revista Saúde em Debate

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Publicado em:25/10/2021

A revista Saúde em Debate, do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), lançou neste outubro rosa, o número especial ‘Mulheres, Ciências e Saúde’, construído a partir de muitos olhares e contribuições de autoras e autores de diferentes áreas do conhecimento, com novas e distintas perspectivas de análise. Trata-se de uma produção que atravessa e expressa ações e lutas pela equidade de gênero e, em particular, por garantias de direitos, liberdade de escolhas e fim da invisibilidade do trabalho. Para Claudia Bonan, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz); Cristina Araripe, da Vice-presidência de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz); Roberta Gondim (ENSP/Fiocruz); e Simone Kropf (Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz), que assinaram a apresentação: “As mulheres não somente foram excluídas, subalternizadas e/ou invisibilizadas como também foram consideradas objetos problemáticos das ciências, que insistiam em indagar ‘o que é uma mulher?’, na busca por desvendar e controlar o corpo feminino e estabelecer seus papéis na sociedade”.

As autoras, em A relevância acadêmica, social e política da produção de conhecimentos sobre mulheres nas ciências e na saúde, afirmam que a pertinência e a relevância social, política e científica desse tema têm sido enfatizadas no contexto crescente de debates sobre a atuação de mulheres na produção de conhecimentos, com destaque aos estudos feministas e de gênero, em articulação com práticas e pesquisas em saúde. “Para além das pesquisas sobre a participação das mulheres na ciência – crescente, contínua e persistente –, os problemas tratados nos trabalhos reunidos neste número abrangem discussões sobre a formação e os modos de inserção profissional das mulheres na saúde, suas trajetórias e carreiras, os aportes acadêmicos e significados dessa produção científica tão fortemente marcada, entre outras razões, pela agência e potência feminina como consciência coletiva.”

Segundo elas, a profícua literatura existente no campo de estudos sobre ciência e gênero aponta, incessantemente, para o sentido fundamental dos esforços coletivos que procuram não apenas ampliar e consolidar os debates cada vez mais intensos sobre feminismos, desigualdades de gênero e produção de conhecimentos, mas também sobre as formas de enfrentamento de retrocessos, anacronismos e barbáries que não cessam de nos indignar no tempo presente. Nesse sentido, acrescentam, as lutas contra as iniquidades que estão presentes nas sociedades patriarcais, sexistas, racistas e homofóbicas com as quais temos que lidar são urgentes.

O artigo adverte que as ciências, na era moderna, em seus postulados teóricos, esquemas conceituais, métodos e práticas, contribuíram sobremaneira para uma representação da diferença sexual e uma ordem de gênero que, perpassando dimensões simbólicas, normativas e institucionais, foram profundamente injustas com as mulheres.


Para elas, na contemporaneidade, a produção de conhecimento regida pelos cânones da ciência ocidental moderna eurocêntrica e operada sobre as bases do neoliberalismo e da colonialidade tem raça/cor, gênero e classe. “Nas intersecções desses marcadores, disputam-se tanto a produção de sujeitos políticos como a definição daqueles que estão legitimados e habilitados a fazer parte do campo ‘científico’, provendo os contornos daquilo que é considerado como conhecimento válido, construído a partir de determinados lugares e leituras de mundo.” E ainda: “A exclusão das mulheres dos cenários e agendas produtoras de conhecimento tem nas mulheres negras e indígenas uma das suas principais faces, operada pelo racismo estrutural, próprio da matriz da colonialidade definidora de lugares no mundo”.

Não podemos deixar de sublinhar, portanto, dizem as pesquisadoras, que a estratégia do poder hegemônico de tratar a ciência com neutralidade e objetividade deixou de fora inúmeras contribuições; entre elas, aquelas que apontavam para o fato de que a ciência não está apartada da história, contribuindo para a reprodução de desigualdades em inúmeras camadas de opressão e subalternização.

Outra questão fundamental que destacaram. “Em tempos de negacionismos e de ataques às ciências e ao conhecimento, é fundamental reforçar a reivindicação das teóricas feministas que, há décadas, vêm salientando que a diversidade e a inclusão são elementos cruciais para o fortalecimento da ciência, tanto em sua dimensão social quanto em sua dimensão epistemológica.” Igualmente, enfatizam o diálogo e o compartilhamento de experiências com vistas à potencialização de outras agendas e epistemologias na produção de saberes e práticas a partir do lugar e do olhar de mulheres como agentes de transformação. “A presença e o protagonismo crescentes de mulheres na ciência têm produzido efeitos nas bases epistemológicas, na práxis científica e em suas hierarquias, que os trabalhos aqui reunidos expressam, em boa medida, por meio de reflexões críticas que abrangem questões teóricas, políticas e sociais de grande amplitude e envergadura.” Em um mundo de efervescências políticas e sociais, os temas tratados nesse fascículo têm, ao mesmo tempo, um sentido estratégico que reforça a importância das pesquisas no campo, mas que, fundamentalmente, também nos mostra o longo caminho de conquista de um lugar social e científico para as mulheres.

É precisamente nesse caminho, dizem elas, marcado por resistências e lutas, que lembram histórias de mulheres nas ciências. Mulheres que romperam barreiras e que se destacaram como produtoras de conhecimentos; entre elas, cientistas brasileiras pioneiras, como Bertha Lutz (bióloga), Nise da Silveira (médica), Elza Furtado Gomide (física), Graziela Maciel Barroso (botânica), Luiza Bairros (cientista social), Beatriz do Nascimento (historiadora), Lélia Gonzalez (historiadora, filósofa e antropóloga), Virgínia Bicudo (psicanalista), e muitas outras. Essas cientistas mulheres abriram caminhos para as gerações seguintes – e, nos tempos atuais, sua presença e contribuição têm sido cada vez mais relevantes e inspiradoras.


A revista salienta, também, que a Covid-19 intensifica ainda mais a relevância acadêmica, social e política da produção de conhecimentos sobre mulheres nas ciências e na saúde, seja por sua atuação nesses domínios tão centrais ao enfrentamento da pandemia, seja pela explicitação das profundas desigualdades estruturais que a doença descortina e aprofunda.


Dentre o vários artigos que a revista traz, Relações sociais de sexo/gênero, trabalho e saúde: contribuições de Helena Hirata, de Simone Santos Oliveira, da ENSP; Mary Yale Neves, Jussara Brito, da UFF; e Lúcia Rotenberg, do IOC, visou refletir acerca da produção intelectual da pesquisadora Helena Hirata como importante referência para o campo da saúde coletiva, em especial para a compreensão das relações entre o trabalhar e as dinâmicas que envolvem a saúde. Recorreram-se às suas publicações teórico-acadêmicas e entrevistas concedidas a revistas especializadas, cuja análise foi aprofundada por meio de uma conversa virtual com a pesquisadora.

Com suas pesquisas comparativas no Brasil, na França e no Japão, Hirata apresenta as diversidades e semelhanças dos mundos do trabalho, dos processos de globalização e seus efeitos, fortalecendo a discussão sobre a ampliação do conceito de trabalho – para além do trabalho assalariado – e sua centralidade. Seus estudos enriquecem o debate sobre a indissociabilidade entre as relações sociais de sexo/gênero e a divisão sexual do trabalho. A imbricação e a interdependência do conjunto das relações sociais figurarão de forma exemplar em suas análises acerca do trabalho de cuidado, possibilitando a condensação de ideias e conceitos.

Dessa forma, a produção intelectual de Hirata, ao afirmar a transversalidade das relações sociais de sexo/gênero, subsidia reflexões sobre a determinação do processo saúde-doença, contribuindo decisivamente para os estudos da relação saúde e trabalho. Confira na página 137.





Fonte: Saúde em Debate
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