Busca do site
menu

Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: CSP debate inclusão feminina

ícone facebook
Publicado em:12/02/2026
*Por Clara Rosa Guimarães, jornalista de CSP 


No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, Cadernos de Saúde Pública (CSP) reforça a importância de reconhecer avanços e enfrentar as desigualdades históricas que ainda limitam a participação, a permanência e o reconhecimento de mulheres na ciência. Ao longo de mais de quatro décadas, a revista tem publicado estudos, editoriais e ensaios que evidenciam como gênero e raça atravessam tanto o mundo do trabalho quanto a produção e a comunicação científica.

Um dos destaques desse debate em CSP é o artigo "A participação da mulher no setor da saúde no Brasil – 1970/80", publicado em 1986. O estudo já apontava que, embora a presença feminina no mercado de trabalho brasileiro tivesse crescido significativamente ao longo do século XX, essa inserção ocorreu majoritariamente no setor terciário, em atividades de menor prestígio e remuneração. No campo da saúde, da educação e dos serviços, a força de trabalho era predominantemente feminina, mas marcada por desigualdades salariais, jornadas diferenciadas, especializações menos valorizadas e pela sobreposição entre o trabalho profissional e o trabalho doméstico.

Décadas depois, essas desigualdades persistem e se manifestam claramente no campo científico. Editorial publicado em 2018 pelas editoras de CSP destaca que, apesar de avanços importantes, como o fato de cerca de metade das publicações científicas brasileiras no quadriênio 2011–2015 terem autoria feminina, as mulheres seguem sub-representadas em cargos de chefia e em posições de maior poder simbólico, inclusive na editoria científica. O texto chama a atenção para o preconceito cotidiano, muitas vezes sutil, que se manifesta na sub-representação de mulheres entre autores, revisores e editores.

Seminário STEM na Saúde

Essa discussão foi aprofundada recentemente no II Seminário STEM na Saúde, promovido pela Fiocruz, com apresentações das coeditoras-chefe de CSP, Luciana Dias de Lima e Marilia Sá Carvalho. Luciana abordou o tema "Diversidade e inclusão na publicação científica", destacando que a publicação científica é a principal forma pela qual a ciência "fala" e compartilha conhecimento. Segundo ela, publicar um artigo não é apenas divulgar resultados, mas também estabelecer diálogo com a comunidade científica global, permitindo que as descobertas sejam reconhecidas, testadas, reproduzidas e aprimoradas. "Sem publicação, descobertas não são reconhecidas oficialmente, avanços não podem ser reproduzidos nem aplicados, e o conhecimento fica restrito a poucos", afirmou.


Luciana também ressaltou que a publicação científica é um espaço de poder e influência, ao qual nem todas as pessoas têm acesso em condições de igualdade. Evidências apresentadas mostram que, ao longo de suas carreiras, mulheres publicam menos artigos e recebem menos citações do que homens, especialmente pesquisadoras que atuam no Sul Global. Fatores como interrupções da carreira associadas à maternidade, maiores responsabilidades familiares, menor acesso a redes de colaboração, barreiras linguísticas e limitações financeiras contribuem para uma menor produtividade e visibilidade científica.

Marilia Sá Carvalho, por sua vez, apresentou dados que evidenciam o viés de gênero na avaliação científica. Estudos internacionais mostram que, quando a primeira autora é mulher, os pareceres de revisão tendem a ser mais críticos e menos cordiais. "Sutilmente, você está dizendo: 'Você não é boa o suficiente para estar aqui.' Isso é artigo aceito; isso é artigo publicado", alertou a editora. Ela também observou que, durante a pandemia de COVID-19, homens publicaram proporcionalmente mais artigos sobre o tema do que as mulheres, o que reflete as desigualdades nas responsabilidades de cuidado que recaíram principalmente sobre elas. Para Marilia, que atua há 14 anos na editoria-chefe de CSP, "a ciência não é só para gênia, é para todas", uma afirmação que reforça a necessidade de tornar a ciência acessível e acolhedora para todas as pessoas.



Os dados apresentados pelas editorias situam essas desigualdades em um contexto social mais amplo. Globalmente, cerca de dois terços das pessoas analfabetas são mulheres, e uma em cada três adolescentes de baixa renda nunca frequentou a escola. No mercado de trabalho, a segregação ocupacional e as disparidades salariais de gênero permanecem disseminadas, inclusive no setor da saúde. As mulheres realizam, em média, mais de três horas diárias de trabalho não remunerado do que os homens, uma carga ainda maior na América Latina. Na esfera política, apenas 26,7% dos parlamentares no mundo são mulheres. A violência de gênero também permanece alarmante: uma em cada três mulheres no mundo sofre violência física ou sexual ao longo da vida.

Atuação de CSP frente à desigualdade

No âmbito da publicação científica, CSP tem buscado enfrentar essas desigualdades de forma ativa. Atualmente, 60% do Corpo Editorial da revista é composto por Editoras Associadas. Entre os 45 Editores Associados, no entanto, apenas duas são mulheres pretas, e ainda não há nenhuma mulher indígena, o que evidencia desafios persistentes de equidade racial. Cerca de 70% dos artigos aprovados pela revista contam com participação feminina na autoria, majoritariamente em posição de coautoria, o que também revela assimetrias nas posições de liderança científica.

Editoriais, Perspectivas e artigos publicados nas páginas de CSP reforçam que promover equidade de gênero e raça na ciência e na publicação científica exige transformações estruturais: ampliar a diversidade nos comitês editoriais, enfrentar barreiras linguísticas e econômicas, questionar epistemologias hegemônicas e adotar uma abordagem interseccional que reconheça as múltiplas formas de desigualdade vivenciadas por mulheres negras, indígenas, trans e de diferentes territórios.

Ao dar visibilidade a essas evidências e debates, Cadernos de Saúde Pública reafirma seu compromisso com uma ciência plural, diversa e socialmente comprometida. No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a revista destaca que ampliar a participação feminina na ciência não é apenas uma questão de representatividade, mas também um passo fundamental para fortalecer a produção do conhecimento.


Levando isso em consideração, ontem (10), na Imersão no Verão, da Fiocruz, a revista recebeu cinco alunas do Ensino Médio e Técnico de escolas públicas do Rio de Janeiro para apresentá-las ao universo da publicação científica. As estudantes, que estão próximas de se formarem e demonstram interesse em atuar na área de STEM, tiveram a oportunidade de conhecer todo o processo e os bastidores de um periódico científico.

Durante o dia, as jovens compreenderam o que é um artigo científico, sua importância e como podem começar a produzir ciência desde já. No período da tarde, integraram os trabalhos da equipe técnica de CSP, conhecendo as atividades da secretaria, as funções das Editoras-chefe, os processos de padronização e diagramação de manuscritos e as estratégias de divulgação científica.

Seções Relacionadas:
Cadernos de Saúde Pública Pesquisa

Nenhum comentário para: Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: CSP debate inclusão feminina