“O fácil acesso à pornografia pode criar vias para a perpetração de abusos”, alerta Ana J. Bridges
Por Danielle Monteiro
Confira, abaixo, a entrevista:
Você tem se dedicado a compreender os impactos sociais e psicológicos da pornografia contemporânea, especialmente entre adolescentes e jovens adultos. De que forma os estudos desenvolvidos nos Estados Unidos podem contribuir para a compreensão da violência de gênero no contexto brasileiro, marcado por altos índices de violência contra mulheres e meninas?
Ana Bridges: As teorias que fundamentam os efeitos da pornografia e de outras mídias sobre o comportamento que usamos nos EUA também têm sido investigadas em outros países, como Alemanha, Coreia, Taiwan e México. Em todos eles, o uso de pornografia tem sido associado à objetificação das mulheres e a maiores atitudes e comportamentos de violência sexual. De modo geral, as tendências observadas nos Estados Unidos se repetem em outros países. Isso indica que esse fenômeno se tornou global e que o Brasil, muito provavelmente, também pode se beneficiar dessas teorias.
Em suas pesquisas, você aponta que o consumo precoce de pornografia pode influenciar comportamentos sexuais, a objetificação feminina e a naturalização da violência. Quais são os principais efeitos observados entre adolescentes e jovens adultos, e como esses impactos podem repercutir nas relações afetivas e sociais?
Ana Bridges: Os principais efeitos observados estão relacionados às atitudes sexuais e incluem: o apagamento dos limites do consentimento sexual; o aumento da objetificação sexual (de si e dos outros); a piora da saúde mental/bem-estar e da satisfação com o próprio corpo; maior insatisfação nos relacionamentos; mudanças no comportamento sexual; aumento da agressão sexual; e vínculos com o abuso sexual infantil. Também observamos associações entre maior uso de pornografia e atitudes negativas em relação às mulheres, maior aceitação do sexismo e da violência contra a mulher, e menor apoio à igualdade de gênero.
Estudos longitudinais mostram que o uso de pornografia tende a preceder mudanças de atitudes e comportamentos, e não o contrário. Em outras palavras, a pornografia parece moldar pensamentos e comportamentos, mais do que atitudes e comportamentos moldarem o uso de pornografia. Considerados o conjunto das evidências, os estudos nos EUA sugerem que a pornografia pode exercer efeitos negativos sobre as relações afetivas e sociais, possivelmente por criar expectativas sobre como os relacionamentos e o sexo "deveriam ser" e por reforçar uma visão instrumental da sexualidade/intimidade centrada no indivíduo. Embora na maior parte dos trabalhos da área predominem participantes heterossexuais, nosso estudo recente com um grupo diversificado em termos de gênero e sexualidade no México corroborou esses achados.
Recentemente, você coordenou estudos sobre pornografia e abuso sexual infantil. Quais foram os principais achados dessas pesquisas e o que eles revelam sobre a relação entre a circulação desses conteúdos e a banalização da violência sexual?
Ana Bridges: Nossa pesquisa sobre pornografia e abuso sexual infantil concentrou-se em profissionais experientes que atendem vítimas infantis (enfermeiros forenses especializados em violência sexual, juízes de varas de família, profissionais de centros de defesa da criança, terapeutas). Descobrimos que eles acreditam que há uma clara associação entre pornografia e abuso sexual infantil e descrevem três vínculos importantes: os mesmos fatores que colocam as crianças em risco de exposição à pornografia (ex.: baixo monitoramento parental, crianças com maior domínio tecnológico que os pais, trauma parental, pobreza e desigualdade estrutural, lares monoparentais) também as colocam em risco de abuso sexual; e o uso de pornografia precedendo o abuso: os profissionais notaram que a pornografia era usada por jovens mais velhos e adultos para aliciar crianças, preparando-as para o abuso sexual. Eles também perceberam um aumento no abuso entre crianças ao longo do tempo. No entanto, enquanto crianças pequenas estariam imitando coisas que viam na pornografia com outras crianças, adolescentes usavam intencionalmente aquelas que eram mais acessíveis a eles (ex.: irmãos, primos) para fins sexuais.
Outra associação se refere ao uso de pornografia após o abuso: alguns profissionais notaram que crianças que sofreram abuso sexual recorriam à pornografia para tentar compreender o que lhes aconteceu. Algumas vítimas de abuso sexual infantil apresentavam hipersexualidade como resposta ao abuso, incluindo alto consumo de pornografia. De modo geral, a pesquisa sugeriu que o fácil acesso à pornografia pode criar vias para a perpetração de abusos por meio da imitação, do aliciamento e da sexualização precoce de crianças e adolescentes.
Você defende que discutir pornografia não significa defender censura. Por que a censura, isoladamente, não resolve o problema, e quais caminhos você considera mais eficazes para enfrentar os impactos negativos desse tipo de conteúdo?
Ana Bridges: Ótima pergunta! A pornografia é apenas um dos meios que transmite mensagens sobre gênero, sexo e poder. Infelizmente, não é a única forma de mídia que perpetua a desigualdade de gênero e estereótipos sexuais prejudiciais. Por exemplo, o aumento significativo de comunicadores e influenciadores de direita em mídias digitais nos Estados Unidos que expressam abertamente sua hostilidade em relação às mulheres vem promovendo ideias de dominância masculina e do "direito" dos homens aos corpos das mulheres (ex.: Andrew Tate; Jordan Peterson). Concluímos recentemente um estudo (ainda não publicado) que mostrou que atitudes sexistas e aceitação do estupro estavam associadas ao uso desses tipos de mídia de direita. O uso de pornografia era também um preditor de atitudes sexistas, mas apenas entre homens que não estavam engajados na mídia sexista de direita. Na minha opinião, isso sugere que apenas impor proibições ou limites ao conteúdo pornográfico não resolve o problema da desigualdade de gênero e da dominância sexual. Em vez disso, uma rejeição social mais ampla desse tipo de mensagens (sejam elas veiculadas pela pornografia ou por outras formas), a promoção da educação midiática e de mensagens que enfatizem igualdade, consentimento, autonomia e ideais humanistas e democráticos devem fazer parte da solução.
Diante do crescimento da misoginia, da exposição sexual online e da disseminação de conteúdos íntimos sem consentimento, quais são hoje os principais desafios para prevenir a violência sexual e promover uma educação voltada ao consentimento e às relações mais saudáveis?
Ana Bridges: A capacidade de documentar e disseminar materiais não consensuais é potencializada pelo rápido acesso à internet em um mundo conectado por dispositivos móveis. Isso cria desafios significativos para prevenir a disseminação e a normalização da violência sexual. A capacidade de produzir vídeos e imagens gerados por inteligência artificial complica ainda mais as tentativas de promover relacionamentos saudáveis e proteger a privacidade dos indivíduos. Não sei qual será a solução, mas compreendo que os desafios exigem que nos envolvamos de maneira bastante conscienciosa quanto ao equilíbrio de alguns direitos, como o de expressão ou privacidade, por exemplo, com a proteção dos mais vulneráveis aos danos da pornografia (mulheres, crianças, jovens LGBT). Fico triste porque, de alguma forma, como adultos, falhamos em criar um espaço seguro para as crianças crescerem, explorarem relacionamentos e cometerem erros. E mais responsabilidade terá de ser colocada sobre as pessoas que escolhem violar a privacidade ou a pessoa de alguém, assim como uma melhor persecução dos agressores sexuais e reparação para as vítimas cujas imagens foram distribuídas sem o seu consentimento.
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