Busca do site
menu

ENSP apresenta no Canadá pesquisa sobre decisão compartilhada em saúde de mulheres

ícone facebook
Publicado em:26/05/2026
Vertente brasileira de projeto internacional de pesquisa que reúne Brasil, Senegal, Camarões e Canadá, o estudo revela barreiras sociais que limitam a tomada de decisão das mulheres sobre a própria saúde

Por Danielle Monteiro

Mulheres ainda enfrentam violência, desigualdade e falta de acesso para decidir sobre a própria saúde. No Canadá, as coordenadoras do Projeto de Pesquisa Gerânio, Eliane Vianna, da ENSP, e Monica Vieira, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), apresentaram, no Fórum Engagées, realizado em Quebec, resultados preliminares do estudo, vertente brasileira da iniciativa internacional Engagées. O encontro é promovido pelo Centre de Recherche en Santé Durable - VITAM, afiliado à Université Laval, instituição responsável pela coordenação geral do projeto Engagées, conduzido pelos pesquisadores canadenses France Légaré e Amédé Gogovor, em parceria com as pesquisadoras da Fiocruz, de Senegal e de Camarões. Com financiamento do programa canadense New Frontiers in Research Fund, o projeto busca desenvolver estratégias de decisão compartilhada em saúde em países do Sul Global.


Os resultados preliminares apresentados mostram que as decisões em saúde das mulheres são profundamente atravessadas por desigualdades sociais, violência armada, dificuldades econômicas e sobrecarga do trabalho de cuidado. Entre os temas identificados estão decisões relacionadas à contracepção, tratamentos médicos, autocuidado e adesão a recomendações de saúde indicadas por profissionais.


Os dados revelam uma alta incidência de mulheres que enfrentam obstáculos concretos para participar das decisões sobre a própria saúde, como falta de informação acessível, dificuldades de mobilidade, violência territorial e ausência de continuidade no cuidado. Conforme destacam as coordenadoras do projeto, os profissionais de saúde participantes da pesquisa relataram que, “muitas vezes, não é escolher que é difícil, mas ter condições para escolher, devido à falta de recursos e de opções para algumas demandas de saúde”.

Para as equipes envolvidas, a experiência tem mostrado que ampliar a participação das mulheres nas decisões em saúde exige não apenas acesso à informação, mas também o reconhecimento das condições sociais concretas que moldam as possibilidades de escolha e cuidado nos territórios.


O projeto Engagées responde às prioridades do “Roteiro de Pesquisa das Nações Unidas para a Recuperação da Covid-19”, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para orientar pesquisas voltadas à redução das desigualdades sociais agravadas pela pandemia e à construção de sistemas de saúde mais equitativos, resilientes e sustentáveis. A Pesquisa Internacional Gerânio é vertente brasileira do projeto, sendo voltada à participação de mulheres nas decisões relacionadas à própria saúde, além da apresentação da Terapia Comunitária Integrativa como ferramenta para apoiar usuárias e trabalhadores no processo de decisão compartilhada em saúde. 


Durante o a visita ao país, a equipe brasileira também participou de reunião para discutir os desdobramentos do projeto Gerânio no Rio de Janeiro e o planejamento das próximas etapas para a finalização da pesquisa, prevista para 2027. O grupo integrou ainda uma oficina de trabalho dedicada às práticas de decisão compartilhada em saúde e à pesquisa participativa com mulheres em situação de vulnerabilidade. A atividade buscou promover um espaço de troca, reflexão e construção coletiva em torno de experiências, desafios e estratégias emergentes de diferentes projetos e contextos de atuação.

Foram discutidos aspectos como as dificuldades de recrutamento e participação de mulheres em pesquisas participativas; as relações de poder presentes nos processos de pesquisa e estratégias para a sua mitigação; a participação de organismos comunitários no processo de pesquisa participativa; as possibilidades de produção e disseminação científica voltadas às usuárias e comunidades participantes das pesquisas; as perspectivas de financiamento futuro e fortalecimento de parcerias entre a Université Laval e a Fiocruz; e os recursos e tecnologias sociais de saúde que apoiem usuárias e profissionais na decisão compartilhada em saúde, com destaque para a Terapia Comunitária Integrativa.

O Projeto Gerânio é conduzido em parceria com Roberta de Carvalho Corôa, pesquisadora de pós-doutorado na Université Laval, e conta ainda com a participação das pesquisadoras Michele Nacif Antunes, da EPSJV, além de Denise Oliveira Figueira, Vanessa da Silva Souza e Maria Celeste Lopes, vinculadas à ENSP.

A pesquisa utiliza uma metodologia participativa, envolvendo usuárias do SUS, trabalhadores da saúde e pesquisadores na construção do próprio projeto, a partir de um comité de pilotagem. A proposta é orientar o estudo segundo as necessidades e a realidade do serviço local.  Entre as estratégias desenvolvidas para fortalecer vínculos e reduzir desigualdades de poder nos grupos de discussão, foram utilizadas oficinas, materiais audiovisuais e ferramentas de escuta compartilhada. O estudo é realizado no território de Manguinhos, no Rio de Janeiro, junto a usuárias e profissionais da Atenção Primária à Saúde do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF/ENSP) e tem o objetivo de identificar as decisões de saúde mais complexas e desafiadoras enfrentadas por mulheres usuárias da Atenção Primária à Saúde no Brasil.

Além da produção de dados sobre necessidades de decisão em saúde, o projeto prevê o desenvolvimento de uma plataforma digital multilíngue com materiais pedagógicos e ferramentas de apoio à decisão compartilhada voltadas a mulheres e profissionais da saúde.

As reflexões produzidas pela parceria Brasil–Canadá também deram origem ao artigo “Advancing shared decision-making toward social justice: insights into an intersectional and decolonial approach from a Brazil-Canada partnership”, publicado recentemente na revista científica BMJ Evidence-Based Medicine. O texto discute como racismo, desigualdades sociais, violência e colonialidade influenciam a participação de mulheres em decisões sobre saúde e propõe abordagens interseccionais e decoloniais para o campo da decisão compartilhada.


Para as próximas etapas, está prevista a finalização das análises, além de publicações científicas. O projeto prevê a elaboração de um vídeo destinado às mulheres de Manguinhos e aos trabalhadores da saúde para apresentar a abordagem da “decisão compartilhada em saúde”. Ancorada nas necessidades da comunidade e do serviço, a ferramenta está sendo desenvolvida de forma colaborativa com o comitê de pilotagem e com profissionais do CSEGSF/ENSP responsáveis pela elaboração da cartilha 'Planejamento familiar e reprodutivo: o que devo fazer?'. A publicação, agora também disponível em francês a pedido dos autores, foi compartilhada no Forum Engagées.


Seções Relacionadas:
ENSP Internacional Pesquisa

Nenhum comentário para: ENSP apresenta no Canadá pesquisa sobre decisão compartilhada em saúde de mulheres