Dia Nacional da Imunização: Pesquisador alerta para estagnação da curva vacinal contra Covid-19
Raphael Guimarães*
A Covid-19 é o maior desafio do século XXI. Junto a ela pudemos ver uma miríade de questões éticas e técnicas, desde as formas de mitigação da emergência em saúde pública até a notória desigualdade regional de acesso a serviços de saúde pública, seja em escala subnacional brasileira, seja em escala global. Por um lado, uma série de medidas de proteção coletivas foram incentivadas desde o início da pandemia, como o distanciamento físico, o uso de máscaras e a adoção de medidas de higiene. Em que pese o fato de que elas seguem sendo boas orientações, atualmente elas não são mais mandatórias, são apenas recomendações. Contudo, a vacinação segue sendo a principal medida contra a Covid-19. A vacinação, como medida de intervenção de saúde pública, tornou-se a única frente de ataque ao SARS CoV-2. Preocupa, portanto, a estagnação da curva de cobertura vacinal observada no Brasil. Além do ritmo, o padrão observado na cobertura merece destaque. Por um lado, a análise da cobertura vacinal contra a Covid-19 simboliza bem as grandes disparidades regionais brasileiras. Por outro, expressa o incipiente papel realizado pela gestão federal em investir não apenas na disponibilização da vacina, mas de uma campanha de grande espectro para o incentivo à sua aplicação.
No que diz respeito ao comportamento da curva de vacinação, é importante reconhecer a estagnação atual das curvas de primeira e segunda doses. Ao considerar a primeira dose, aumentamos apenas 1% da cobertura nas últimas 7 semanas, com valor aproximado de 84% na semana atual. Isso significa que a procura ativa pela vacina chegou no seu limite. Este diagnóstico requer nova orientação de estratégia para buscar ativamente quem não iniciou a vacinação, seja por convicção em não tomar o imunizante, seja por dificuldade de acesso à vacina. Sobre a segunda dose, que corresponde ao esquema completo, temos o patamar de 78% bem abaixo dos 90% recomendados pelos estudos mais atuais. Vale mencionar que elevamos apenas 1% nas últimas 5 semanas. É importante, nesse sentido, resgatar aqueles que não completaram seus esquemas, a partir de campanhas educativas intensas. A vacinação com dose de reforço, principalmente a primeira dose de reforço (ou terceira dose) ainda cresce, mas de forma desacelerada. O patamar atual, de 46%, é baixo, e considerarmos que a dose de reforço é essencial para manter a imunidade prolongada e defender de forma eficiente contra a variante Ômicron e suas sublinhagens.
Com relação às disparidades, é notável a diferença na cobertura quando olhamos as unidades da federação. Ao comparar estados da região sudeste, como São Paulo, e aqueles da região Norte, como o Amapá, verifica-se diferença de 1,4 vezes a cobertura de primeira dose; 1,7 vezes para a segunda dose e 3,4 vezes para a primeira dose de reforço. Esta disparidade está na esteira da disparidade de muitos outros indicadores de saúde e sociais, o que nos leva a crer que dentro do mesmo país temos populações próximas da Alemanha e outras próximas de Uganda. Há necessidade urgente de medidas pelo executivo federal de minimizar estas disparidades. Essa orientação, cabe lembrar, é o principal objetivo de uma política pública que procura reduzir iniquidades, como é o caso da política de saúde brasileira.
Em terceiro lugar, é válido mencionar a verdadeira guerra travada contra as fake news, que são responsáveis por criar um clima de insegurança associada à eficácia e segurança da vacina. Esta dúvida pesa especialmente sobre as crianças, que seguem com um ritmo de vacinação extremamente lentificado, e muito abaixo do patamar de adultos e idosos. Este cenário, é bom saber, deixa as crianças numa situação particularmente delicada, já que o vírus preferirá circular entre pessoas que oferecem menor bloqueio a ele, e que hoje é representado pelos infantes. Não é demais salientar que a baixa disponibilidade de leitos de UTI neonatal e principalmente CTI pediátrico sempre representaram um desafio ao sistema de saúde, público e privado. Isto significa que o menor aumento de demanda por internação hospitalar em terapia intensiva entre crianças pode criar dificuldades em absorver a demanda, criando uma saturação do sistema para as especialidades pediátricas.
Por todas estas razões, é preciso ter cuidado ao constatar o clima de fim de jogo relacionado à pandemia. Por ora, temos um armistício, mas a guerra ainda não acabou. Neste aspecto, é essencial garantir a manutenção de medidas de proteção individual como o uso de máscaras em lugares fechados e aglomerados, principalmente entre grupos de idosos e estudantes. O incentivo à vacinação é outra estratégia fundamental. Finalmente, o monitoramento de casos, internações e óbitos segue sendo importante para a descrição correta dos cenários epidemiológicos, para que medidas oportunas de vigilância e controle possam ser adotadas em todo o território nacional.
*Pesquisador da ENSP e membro do Observatório Covid-19 Fiocruz
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