Semana Nacional de Controle e Combate à Leishmaniose: evento quer ampliar discussão em torno de terapias
De 10 a 17 de agosto ocorre a Semana Nacional de Controle e Combate à Leishmaniose. A descoberta dos protozoários conhecidos com o nome de Leishmania data de 1903. Contudo, o registro de doenças semelhantes são muito antigos. Não há vacina contra as leishmanioses humanas. As medidas mais utilizadas para o combate dela se baseiam no controle de vetores e dos reservatórios, mas há vacinas contra a leishmaniose visceral canina. Laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) realizam pesquisa, desenvolvimento tecnológico, inovação e formação de recursos humanos. Com o objetivo de ampliar a discussão em torno de terapias contra as leishmanioses, o IOC realizará, virtualmente, nos dias 8 e 9 de setembro, o workshop gratuito “Mecanismos moleculares de ação de drogas tripanocidas e leishmanicidas”.
O que é Leishmaniose?
As leishmanioses são um conjunto de doenças causadas por protozoários do gênero Leishmania e da família Trypanosomatidae. De modo geral, essas enfermidades se dividem em leishmaniose tegumentar americana, que ataca a pele e as mucosas, e leishmaniose visceral (ou calazar), que ataca órgãos internos.
Agentes causadores
A leishmânia é transmitida ao homem (e também a outras espécies de mamíferos) por insetos vetores ou transmissores, conhecidos como flebotomíneos. A transmissão acontece quando uma fêmea infectada de flebotomíneo passa o protozoário a uma vítima sem a infecção, enquanto se alimenta de seu sangue. Tais vítimas, além do homem, são vários mamíferos silvestres (como a preguiça, o gambá, roedores, canídeos) e domésticos (cão, cavalo etc.).
Os flebotomíneos são insetos pequenos, de cor amarelada e pertencem à ordem Diptera, mesmo grupo das moscas, mosquitos, borrachudos e maruins; apresentam um par de asas e um par de pequenas estruturas, chamados de halteres ou balancins, responsáveis pela estabilidade do voo e o zumbido característico dos dípteros. No Brasil, esses insetos podem ser conhecidos por diferentes nomes de acordo com sua ocorrência geográfica, como tatuquira, mosquito palha, asa dura, asa branca, cangalhinha, birigui, anjinho, entre outros.
Sintomas
A diversidade de espécies de Leishmania, associada à capacidade de resposta imunitária de cada indivíduo à infecção, está relacionada com as várias formas clínicas das leishmanioses. As leishmanioses tegumentares causam lesões na pele, mais comumente ulcerações e, em casos mais graves (leishmaniose mucosa), atacam as mucosas do nariz e da boca. Já a leishmaniose visceral, como o próprio nome indica, afeta as vísceras (ou órgãos internos), sobretudo fígado, baço, gânglios linfáticos e medula óssea, podendo levar à morte quando não tratada. Os sintomas incluem febre, emagrecimento, anemia, aumento do fígado e do baço, hemorragias e imunodeficiência. Doenças causadas por bactérias (principalmente pneumonias) ou manifestações hemorrágicas são as causas mais freqüentes de morte nos casos de leishmaniose visceral, especialmente em crianças.
Diagnóstico e Tratamento
O diagnóstico parasitológico é feito através da demonstração do parasito por exame direto ou cultivo de material obtido dos tecidos infectados (medula óssea, pele ou mucosas da face) por aspiração, biópsia ou raspado das lesões. Para o diagnóstico, há também métodos imunológicos que avaliam a resposta de células do sistema imunitário e a presença de anticorpos anti-Leishmania. Nesta categoria se incluem o teste cutâneo de Montenegro e testes sorológicos (exame de sangue), dos quais os mais utilizados são os ensaios de imunofluorescência indireta e o imunoenzimático (ELISA). Nem o teste de Montenegro nem os métodos sorológicos positivos significam doença. Indicam infecção por Leishmania, que pode ser atual ou passada. Há também os métodos moleculares (PCR) que detectam a presença de ácidos nucleicos do parasito. Os elementos clínicos e epidemiológicos também contribuem substancialmente para o diagnóstico.
Para todas as formas de leishmaniose, o tratamento de primeira linha no Brasil se faz por meio do antimoniato de meglumina (Glucantime). Outras drogas, utilizadas como segunda escolha, são a anfotericina B e a pentamidina. Todas estas drogas têm toxicidade considerável.
Prevenção
Não há vacina contra as leishmanioses humanas. As medidas mais utilizadas para o combate da enfermidade se baseiam no controle de vetores e dos reservatórios, proteção individual, diagnóstico precoce e tratamento dos doentes, manejo ambiental e educação em saúde. Há vacinas contra a leishmaniose visceral canina licenciadas no Brasil e na Europa. O cão doméstico é considerado o reservatório epidemiologicamente mais importante para a leishmaniose visceral americana, mas o Ministério da Saúde do Brasil não adota a vacinação canina como medida de controle da leishmaniose visceral humana.
Devido ao diminuto tamanho, o encontro de larvas e pupas de flebotomíneos na natureza é tarefa extremamente difícil, por essa razão não há nenhuma medida de controle de vetores que contemple as fases imaturas.
As medidas de proteção preconizadas consistem basicamente em diminuir o contato direto entre humanos e os flebotomíneos. Nessas situações as orientações são o uso de repelentes, evitar os horários e ambientes onde esses vetores possam ter atividade, a utilização de mosquiteiros de tela fina e, dentro do possível, a colocação de telas de proteção nas janelas. Outras medidas importantes são manter sempre limpas as áreas próximas às residências e os abrigos de animais domésticos; realizar podas periódicas nas árvores para que não se criem os ambientes sombreados; além de não acumular lixo orgânico, objetivando evitar a presença mamíferos comensais próximos às residências, como marsupiais e roedores, que são prováveis fontes de infecção para os flebotomíneos.
O papel da Fiocruz
Laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) realizam pesquisa, desenvolvimento tecnológico, inovação e formação de recursos humanos nas áreas de taxonomia, morfologia, ultraestrutura, bioquímica, biologia, ecologia, controle e interação entre o parasito e o vetor nos transmissores de leishmanioses, além de pesquisa para desenvolvimento de vacinas contra leishmânia. O Laboratório de Referência Internacional para Tipagem de Leishmania, também do IOC, realiza exames de tipagem molecular de isolados de Leishmania, de modo a subsidiar as atividades voltadas à pesquisa e apoio à vigilância epidemiológica da doença.
O Instituto Nacional de Infectologia (Ipec) realiza estudos nas leishmanioses humanas e animais; atua na formação de recursos humanos para a rede de saúde através dos programas de capacitações de diferentes profissionais (médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório); realiza exames de referência para serviços de saúde do SUS, com diagnóstico clínico e laboratorial das leishmanioses; oferece tratamento e acompanhamento de pacientes; realiza exames parasitológicos, sorológicos e moleculares, além de ensaios para identificação etiológica.
No que se refere a insumos, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) produz reativos para diagnóstico das leishmanioses humana e animal, inclusive o teste rápido DPP® Leishmaniose Visceral Canina, o único disponível no mercado atual, oferecendo o resultado em cerca de 15 minutos. Este teste dispensa estrutura laboratorial e equipamentos, facilitando o uso no campo.
A Fiocruz Minas possui diversos serviços de referência em leishmanioses e, através destes, vem atuando juntamente com a Secretaria de Vigilância e Saúde do Ministério da Saúde na capacitação de pessoal para identificação de vetores de leishmanioses e na pesquisa de infecção natural por Leishmania. Também presta assessoria e suporte nas ações de epidemiologia e controle dos insetos vetores junto às secretarias estaduais e municipais, visando ao controle da endemia em áreas de risco no Brasil. Além disso, desenvolve projetos de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico; atua na formação de recursos humanos, com capacitação de profissionais de saúde; oferece atendimento médico ambulatorial especializado e apoio diagnóstico a pacientes com suspeita de leishmaniose tegumentar e leishmaniose visceral e atua como referência laboratorial para hospitais e serviços de saúde de Minas Gerais.
Saiba mais.
Workshop debate ação de medicamentos para doença de Chagas e Leishmaniose
Com o objetivo de ampliar a discussão em torno de terapias contra os parasitos Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas, e Leishmania sp., causador das leishmanioses, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) realiza virtualmente, nos dias 08 e 09 de setembro, o workshop “Mecanismos moleculares de ação de drogas tripanocidas e leishmanicidas”.
A iniciativa, organizada em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), será transmitida ao vivo pelo Canal do IOC no YouTube.
Além de especialistas do IOC e UFRJ, participam pesquisadores do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), Instituto Adolfo Lutz (IAL), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao todo, 14 palestrantes estão confirmados no evento.
Entre os temas da programação, estão o futuro da quimioterapia para doenças negligenciadas, alvos moleculares de drogas tripanocidas e leishmanicidas e o tratamento imunomodulador.
O workshop é gratuito e aberto ao público geral. As inscrições devem ser realizadas pelo Campus Virtual Fiocruz até o dia 3/9.
Leia a matéria completa.
História da Leishmaniose
Nos estudos sobre a Leishmaniose destacaram-se os nomes de Cunningham, Borovsky, Donovan, Wright, Laveran, Mesnil e evidentemente Leishman. Todos esclareceram questões ligadas à etiologia do Calazar e do Botão do Oriente.
A descoberta dos protozoários conhecidos com o nome de Leishmania data de 1903. Contudo, o registro de doenças semelhantes à Leishmaniose são muito antigos. Desde o século XVIII se conhecia o Botão d'Alep (Botão de Aleppo - Síria), o Botão de Biskra, descrito durante a ocupação militar Biskra pelo exército francês em 1844.
Leishman em 30 de maio de 1903 e Donovan em 11 de julho do mesmo ano, efetuaram as primeiras descrições do protozoário, agente do calazar indiano, conhecido mais tarde, como Leishmania donovani. Igualmente em 1903, J.H. Wright descreveu o parasita do Botão do Oriente, conhecido hoje com o nome de Leishmania tropica.
"Wright incluiu primeiro este parasita num grupo especial, por ele denominado Welcozoma, criando a espécie Welcozoma tropica .Verificou-se depois, grande proximidade entre esse e o agente do Kala-Azar, pelo que a distinção genérica não poderia permanecer, devendo o parasita ser também incluído no gênero Leishmania e dele se fazendo a espécie L. tropica".
Carlos Chagas acentuou que os aspectos morfológicos da Leishmania tropica eram mais variáveis do que na espécie anterior, visto que esta apresentava um filamento cromático, denominado impropriamente rizoplasta. Chagas questionava a denominação rizoplasta, dada por Nicolle, visto que:
"Cumpre porém assinalar que citologicamente consideramos rizoplasta uma outra estrutura representada por um filamento que vai do núcleo principal ou do corpúsculo basal do blefaroplasto. Aqui o órgão, a que deram essa denominação, representa o início da formação de um flagelo intracelular."
Estes organismos, munidos de flagelos, foram amplamente observados por Wright, quando estudava a úlcera do oriente e foram também observados no Brasil por Gaspar Vianna. Foi Nicolle quem verificou no calazar esse novo elemento estrutural da Leishmania e que denominou rizoplasta.
Saiba mais sobre a história da doença.
Foto da menina contaminada: DBBM/Fiocruz
Fonte: Instituto Oswaldo cruz