Laboratório Territorial de Manguinhos faz tributo ao professor Gilson Alves, em memória!
O Carnaval de 2022 na Unidos de Manguinhos terá um imenso vazio. Um
vazio presente também no território de Manguinhos e na luta cotidiana
pela educação pública e pela democracia. Há um ano, no dia 16 de abril
de 2021, Gilson Alves – professor de geografia, atuante nas lutas de
Manguinhos e integrante do GRES Unidos de Manguinhos - nos deixava,
vítima da Covid-19. Leia o tributo assinado pela pesquisadora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP), Fátima Pivetta, coordenadora do Laboratório Territorial de Manguinhos.
Para muitos, ele era o Professor Gilson, porque assim ele ficou conhecido por onde passava. Por conta de sua sabedoria crítica, de sua memória do território, de sua imensa participação nos desafios e enfrentamentos dos problemas de Manguinhos, e especialmente, por sua amorosidade e respeito no diálogo.
Para nós no Laboratório Territorial de Manguinhos (LTM), Gilson, um parceiro sempre presente, que se enraizou em nosso cotidiano, estando conosco em muitos projetos e intervenções em Manguinhos, desde 2008. Não só do LTM, mas com muitos outros grupos de pesquisa da Fiocruz. Com Gilson na memória, continuamos a luta.
Assim como outros parceiros e parceiras que se foram, ele estará sempre presente. Gilson morreu de Brasil. Ele, que tanto lutava para que a Covid-19 não fosse mais uma desgraça em Manguinhos, foi vitimado por ela. Faleceu na semana em que, como professor, tomaria a primeira dose de uma vacina, que demorou a ser introduzida no país, país esse um dia conhecido por contar com um dos maiores sistemas públicos de saúde e com os maiores índices de adesão às campanhas de vacinação. E o mais dramático e que despedaça o coração de todos nós do LTM, foi ter sido internado e entubado justo naquela semana de 12 a 16 de abril, quando faltavam medicamentos para sedação nos hospitais do Rio de Janeiro, e faltou no hospital Anchieta, onde ele estava. E veio a falecer no dia 16, uma sexta-feira, no sábado era o dia dele tomar a vacina. Tão próximo de nós, tão próximo da Fiocruz, morreu sem direito a tratamento digno e um hospital de excelência.
Gilson era o cara do território. Cria de Manguinhos, como bom carioca graduado na vida e no samba, formado em geografia nos tempos em que eram poucos os negros que entravam na universidade, sempre dividiu toda sua experiência e conhecimento com as pessoas.
Parceiro, você com teu olhar de viés e com um jeito manso de falar, era infalível ao riscar o chão com as palavras, feito mesmo um bom sambista que você era.
Gilson, ficamos com um vazio. Porque você era o cara que escutava atenta e humanamente. Você nos ensinou muito que a presença nos lugares tinha mais a ver com o que se observava do que com o que se falava.
Gilson, você é um dos pedaços mais preciosos do chão sobre o qual construímos conhecimentos e afetos, e saídas para os problemas. E um dos mais férteis para fazer emergir uma terra viva. Com você na memória, continuamos adubando a terra.
Gilson, parceiro-amigo de todos nós do LTM, sempre estará presente com sua sabedoria e alegria. Professor de geografia do ensino médio, negro e da favela. Você não será só mais um número desse genocídio. Será luz no caminho de nossas lutas.
Dos seus Parceiros e Amigos do Laboratório Territorial de Manguinhos – LTM/ENSP/Fiocruz
Oficina do Projeto LTM, financiado pelo CNPq para avaliação participativa do PAC, em novembro de 2013. Acervo LTM
.Gilson em uma visita de campo no Parque João Goulart, para
vistorias das moradias em risco, provocados pelo PAC-Favelas no
território junto com a Defensora Maria Lúcia e técnicos da Defensoria, e
o grupo de assessoria à Defensoria Pública do Rio de Janeiro -
moradores e pesquisadores do LTM/Fiocruz, Unisuam, UERJ e UFRJ.
Novembro, 2016. Acervo LTM. Foto Fabiana Melo Sousa.