Brasil celebra um ano da vacina contra a Covid-19
Filipe Leonel
Há exatos doze meses, o Brasil iniciava a vacinação contra a Covid-19 com
sua aplicação em uma profissional de Saúde no estado de São Paulo. O país chega,
neste 17 de janeiro de 2022, com uma alta de casos de Covid-19 em virtude da
rápida proliferação da variante Ômicron, entretanto, com a certeza da
efetividade do imunizante na redução de casos mais graves da doença e da
mortalidade. Apesar do avanço da cobertura ao longo desse período,
especialistas reforçam a importância do passaporte vacinal como uma política
pública de estímulo à vacinação e à proteção coletiva, além de enfatizarem ser fundamental
a manutenção de outras medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras,
higienização das mãos e distanciamento físico e social. E endossam: o elevado
número de mortes e o colapso no sistema de saúde de 2021 poderiam ter sido
evitados se o país tivesse se preparado corretamente e antecipado a aquisição
das vacinas.
Em um ano, o Brasil registra 78,8% da população vacinada com a primeira
dose e 68% totalmente imunizada (com duas doses ou dose única). Embora ainda
não seja a cobertura suficiente em termos de saúde pública para um cenário de
total segurança, a campanha pode ser considerada um sucesso.
“Por ter sido direcionada a adultos, a vacinação contra a Covid-19 é
extremamente exitosa, pois nosso histórico de sucesso nas campanhas é muito
maior em crianças. Quando convocamos adultos para vacinar, como no caso da
influenza, tivemos números parecidos com os que temos agora na Covid-19, que
foi o melhor que conseguimos apesar do posicionamento controverso de algumas
autoridades”, reconhece o pesquisador Luiz Antônio Bastos Camacho, da Escola
Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fiocruz.
A epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional
de Imunizações do Ministério da Saúde, reforça. “Não resta dúvidas do grande
avanço e da adesão importante, o que mostra que a população brasileira acredita
nas vacinas e no PNI. E falamos de uma campanha com um ano de duração. Se
tivéssemos vacinas num curto prazo, poderíamos ter alcançado - já há algum
tempo - os indicadores de hoje, porque a população queria ser vacinada; faltaram,
porém, doses em quantidade suficiente.”
Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, enalteceu a
qualidade, a eficácia e a segurança das vacinas, uma vez que foram realizados
diversos estudos de fase 3, cujos resultados mostraram o percentual de
eficácia, quantas doses devem ser aplicadas, além da avaliação de eventuais
reações adversas. “Tivemos um embate permanente na condução da pandemia. Até em
relação às vacinas. O país foi local de desenvolvimento de estudos de fase 3 de
grande qualidade, mas não compramos vacinas no momento certo. E isso gerou
muitas cicatrizes e sequelas na nossa alma. Entramos em mais um ano de pandemia
conseguindo vacinar um percentual importante da população no Brasil. Ainda não
é o desejável, mas aprendemos muito”, disse a médica e primeira brasileira a se
vacinar com a Astrazeneca, no dia 24 de janeiro.
A efetividade da vacina contra a Covid-19 vem sendo observada pelo
Observatório Covid-19 da Fiocruz desde o início da campanha. As análises da
plataforma mostraram impacto muito positivo na redução das internações e da
mortalidade em idosos, os quais constituíam o grupo prioritário para a primeira
e segunda doses naquele momento. Com a ampliação da vacinação para adultos,
conforme revelou o coordenador Carlos Machado, houve redução do impacto, tanto
no número de casos como nas internações e óbitos para esse público. A próxima avaliação
contemplará os adolescentes. “Em primeiro lugar, a vacinação, como uma medida
de saúde pública, foi fundamental na redução da transmissão e da evolução da
doença para quadros críticos e óbitos. A estratégia da vacinação foi
fundamental, e, se tivéssemos mais vacinas desde o início, certamente, a
mortalidade seria menor e teríamos evitado um colapso no sistema de saúde como
aquele que presenciamos entre março e julho do ano passado”, lembrou o
pesquisador.
André Périssé, da ENSP, também concorda que a aquisição antecipada das
vacinas teria facilitado toda a logística de distribuição, principalmente pela
experiência acumulada pelo PNI. “Se o governo tivesse adquirido antes, não
teríamos presenciado aquela confusão dos seis meses iniciais. E isso teria
feito a grande diferença, pois, com a estrutura montada do PNI, teríamos
vacinado como na época do H1N1. A logística e o pessoal deram conta a partir do
momento em que o país teve uma regularidade na vacina. Desse momento em diante,
o SUS deu conta. Portanto, se tivéssemos um planejamento adequado, teríamos,
sim, estrutura para avançar mais. E muitas mortes teriam sido evitadas.”
Efetividade
Um estudo conduzido pelo pesquisador Daniel Villela, coordenador
do Programa de Computação Científica da Fiocruz (PROCC/Fiocruz), comprovou o
benefício da vacinação contra o vírus Sars-CoV-2 na prevenção de casos graves e
óbitos por Covid-19. Ao analisar adultos com esquema completo de imunização, os
valores estimados de efetividade da vacina AstraZeneca apontam que a prevenção
de casos graves e óbitos está entre 80% e 90%. Em relação à vacina CoronaVac,
também considerando o esquema completo de duas doses, para casos graves e
óbitos, os valores de efetividade estão na faixa entre 70% e 90%, enquanto a
efetividade da Pfizer é de 80% a 90% com imunização parcial, ou seja, primeira
dose, para adultos jovens (20 até 39 anos e 40 até 59 anos).
“O efeito é amplamente positivo quando se observa estudos de
efetividade, principalmente na comparação do número de casos e óbitos entre
vacinados e não vacinados, como mostra o estudo. A vacinação é o meio mais
efetivo de controle da Covid-19. Se formos pensar em grupos mais vulneráveis,
incluindo os idosos, a imunização foi muito importante para evitar uma série de
óbitos, ou seja, salvar vidas e reduzir internações”, reconhece o autor do
estudo.
“Agora, um ano depois do início da vacinação, observamos, na prática, a
redução das internações e da mortalidade. E isso é o estudo da vida real; não
um estudo clínico. É o estudo da vida”, completou Périssé.
Fake news
Levantamento feito pelo aplicativo Eu Fiscalizo, da Escola Nacional de
Saúde Pública da Fiocruz, entre 26 de março de 2020 e 31 de março de 2021,
revelou que, entre as notícias falsas sobre a Covid-19 que circulam na internet,
19,8% eram sobre as vacinas. O aplicativo, desenvolvido para que usuários
notifiquem conteúdos impróprios em veículos de comunicação, mídias sociais e
whatsapp, mostrou ainda que o meio digital mais usado para a divulgação de
conteúdo falso sobre as vacinas foi o instagram (46%), seguido pelo whatsapp
(24%), facebook (14%), sites 12% e twitter (4%).
Esse tipo de desinformação vem dando fôlego ao movimento antivacina. O
discurso dos adeptos baseia-se, principalmente, no negacionismo científico, com
argumentos sem evidências concretas que utilizam informações falsas ou
retiradas do contexto sobre a vacinação. A liberdade individual usada em defesa
desse discurso foi analisada pelo pesquisador Sergio Rego, da ENSP. Ele, que
coordena o GT de Bioética da Abrasco, cita John Stuart Mill, um dos filósofos
mais influentes em língua inglesa e um dos ícones do pensamento liberal
mundial, no seu clássico livro “On Liberty”, que fez o seguinte questionamento:
“Qual é, então, o limite correto para a soberania do indivíduo sobre si mesmo?
Onde começa a autoridade da sociedade?”
“Mill deixa claro, neste seu ensaio, que o limite aceitável à liberdade
individual é quando as ações dela decorrentes provocarem danos a outras
pessoas. Assim, de acordo com o liberalismo por ele defendido, um indivíduo não
poderia simplesmente deixar de fazer algo, ou fazer algo, se isso afetar
negativamente os interesses da sociedade”, disse Sergio - que
completou. “Assim, considerando-se a questão da compulsoriedade (ou não)
de se vacinar indivíduos através de recursos que comprovadamente têm
demonstrado ter capacidade de prevenir e atenuar os efeitos nocivos para a
saúde humana do vírus Sars-Cov-2, não me resta dúvidas de que todos que desejem
viver em sociedade devem se submeter a uma regra que impeça danos a outros. Se
fosse possível assegurar que os que se opõem à vacinação ficariam,
voluntariamente e em defesa de sua liberdade, confinados em ambientes sem
contato com outros humanos, talvez essa fosse uma opção a ser considerada. Mas
essa possibilidade não existe”, completou o professor do Programa de Bioética
da Fiocruz/UFRJ/UFF/Uerj.
As fake news e a avalanche de desinformações provocadas por esse
fenômeno também atingiram populações vulneráveis como os indígenas. A ampla
disseminação impactou diretamente a vacinação nessa população, principalmente
pelo discurso de algumas autoridades. “As fake news tiveram rápida e ampla
disseminação entre as populações indígenas. E pode ter sido um fator importante
para as recusas que observamos em comunidades inteiras, pois elas enviaram
cartas dizendo que aceitavam qualquer vacina, menos a da Covid-19. Esse é um
dano muito grave, principalmente considerando que as falas questionando a
imunização vieram de autoridades”, disse Ana Lúcia Pontes, pesquisadora da ENSP
e coordenadora do GT de Saúde Indígena da Abrasco.
Apesar do dano provocado pelas fake news e a lentidão na campanha, a
pesquisadora ressalta a importância das mulheres e de toda rede de movimento
indígena na produção de documentos reivindicando a vacinação. “O lugar das
mulheres nessa questão foi essencial, porque elas tomaram a liderança para
falar das vacinas assumindo todo o cuidado com seu povo, com as crianças e as
futuras gerações. ”E completou. “Normalmente, as campanhas de vacinação, em
áreas indígenas, são muito bem-sucedidas, até pelo histórico das doenças
transmissíveis e das mortes provocadas. No caso da Covid-19, houve muita
lentidão. Vimos essa marca de uma resposta mal programada, mal planejada, com
grande lentidão e coberturas muito aquém do necessário em algumas regiões.”
Desafios
O país chega, neste primeiro ano de vacinação, celebrando a aprovação do
registro do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), que possibilitará a produção
e distribuição de uma vacina 100% nacional para a Covid-19 e iniciando a
vacinação nas crianças de 5 a 11 anos para ampliação da cobertura. Para 2022,
os pesquisadores destacam a necessidade da manutenção das medidas não
farmacológicas de prevenção do vírus, além da exigência do passaporte vacinal e
de diminuição da heterogeneidade na cobertura.
“O atual momento nos coloca a necessidade de combinar a imunização
com outras medidas de proteção sociais e de saúde pública, como o passaporte de
vacinas, evitar grandes eventos, privilegiar lugares ventilados e a exigência
do uso de máscaras em locais públicos, além da higienização das mãos,
manutenção do distanciamento físico e social e uma política de testagem que
possibilite a distribuição gratuita do autoteste para a população. A vacinação
tem papel fundamental, e o quadro seria outro, em termos de mortalidade,
morbidade e impacto no sistema de saúde em sua totalidade. Ainda assim, deve
ser combinada a outras medidas de proteção e saúde pública”, reforçou Carlos
Machado.
A ex-coordenadora do PNI e o pesquisador Camacho cobraram mais ações
governamentais para a ampliação da cobertura. “Quando nos debruçamos nos dados
do final de 2021, identificamos que só 16% dos municípios tinham cobertura
vacinal completa acima de 80%, o que mostra uma heterogeneidade muito grande.
Apesar de avançarmos, ainda há iniquidade no acesso à vacina. E precisamos
entender se essa diferença é pela falta de acesso à vacina ou se trata do
resultado dos grupos antivacina se estabelecendo pelo país. O Ministério da
Saúde deveria procurar saber o que está acontecendo e fortalecer a comunicação
com a população, fazendo-a entender que estamos diante de uma vacina eficaz e
segura”, cobrou Domingues.
“Temos um diferencial para Covid-19 que é o passaporte da vacina. Apesar
de não ser comum em outras campanhas, é o caminho. Já esgotamos as alternativas
de persuasão e, agora, temos que exercer outras formas de pressão, pois a
situação é complicada. Não é tornar a vacinação obrigatória, mas cobrar o
passaporte”, aconselha Camacho.
Fotos: Raquel Portugal
Coronavírus