Tecnologias para Covid-19 e terapias inovadoras: tema de artigo da ENSP
As oportunidades de cooperação mundial se apresentam de maneira semelhante tanto nas terapias ou vacinas para Covid-19, como nas terapias inovadoras que se aproximam da medicina personalizada. Entretanto, o aumento de gastos ao redor do mundo pode superar a capacidade de pagamento de indivíduos, seguradoras ou sistemas de saúde. No Brasil, a parcela da população beneficiada por essas terapias avançadas tende a crescer, e uma melhor resposta do SUS para tal cenário envolve o financiamento adequado e a cooperação multilateral para assegurar o acesso da população aos progressos científicos. São as conclusões do artigo de Fabius Vieira Leineweber, chefe da Divisão de Biotecnologia da Coordenação de Desenvolvimento Tecnológico de Farmanguinhos; e Jorge Bermudez, ex-chefe do Departamento de Política de Medicamentos e Assistência Farmacêutica (NAF/ENSP), publicado em Cadernos de Saúde Pública.
Segundo eles, a possibilidade de um preço mais equânime em diversos países mitigaria restrições de acesso nos moldes discutidos em fóruns dos organismos das Nações Unidas e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Também afirmam que a divergência entre a solidariedade de um direito à saúde universal e a disputa de mercado ficou evidente na pandemia. “A competição por produtos sanitários não é um aspecto isolado dos arranjos geopolíticos e econômicos vigentes. A sustentabilidade de tratamentos cada vez mais personalizados desafia especialmente a oferta e a demanda de saúde em países com sistemas universais.”
De acordo com o artigo, os investimentos em tecnologias de medicamentos ou vacinas para enfrentamento à pandemia apresentam consequências na forma de externalidades, ou seja, benefícios indiretos em outras áreas relacionadas com a respectiva inovação. “Somente os Estados Unidos investiram mais de USD 11 bilhões, sendo USD 3,5 bilhões em pesquisa. Estima-se uma capacidade produtiva de 42 bilhões de doses de vacinas para a Covid-19 em 2022, sendo 20 bilhões de tecnologias inovadoras, como as vacinas genéticas. Dessa forma, podem ocorrer impactos no acesso a tratamentos de outras comorbidades utilizando esse mesmo escopo tecnológico.”
A literatura recente relaciona as inovações de medicamentos ou vacinas para a Covid-19 com novas vacinas para doenças infecciosas ou câncer. No entanto, os autores esclarecem que o potencial desses medicamentos biotecnológicos se encontrava em recente expansão, principalmente para doenças raras. Dessa forma, considerando um panorama mais amplo de inovações com impactos na saúde pública, eles destacam as aprovações recentes relacionadas às principais tecnologias de vacinas inovadoras, com breve análise sobre as combinações de anticorpos no enfrentamento à pandemia. Assim, esse artigo investiga tecnologias similares às inovações para Covid-19 em vacinas e medicamentos nas principais agências regulatórias.
O grau de inovação para uma única doença é inédito, segundo o artigo. “No caso de tecnologias mais consolidadas, incluindo anticorpos ou vacinas tradicionais, inovações incrementais podem ser relevantes; contudo, tecnologias mais inovadoras podem acelerar uma mudança de paradigma biotecnológico.” Existem mais de 2.300 pedidos de patentes no mundo para medicamentos relacionados à Covid-19 e mais de 100 apenas para as vacinas. As patentes de vacinas são redes complexas que envolvem licenciamentos e disputas através de diversas empresas. Ademais, continua o texto, ainda existem 331 propostas de tratamentos e 260 vacinas em desenvolvimento. Portanto, o advento da pandemia acelera o avanço e o reposicionamento de tecnologias com o potencial de impactar preços, incrementar oportunidades e afetar processos regulatórios, dizem os autores.
Tecnologias de produtos para Covid-19
No caso dos medicamentos, conforme o artigo, os desenvolvimentos de anticorpos são responsáveis por 35% dos ensaios em andamento. Das 85 terapias com anticorpos para Covid-19, 50 estão em fase clínica e 35 em fase pré-clínica. Além disso, 35 terapias celulares estão sendo investigadas, quantidade igual aos 35 antivirais. Ainda como terapias inovadoras, seis tratamentos com RNA correspondem a mecanismos diferentes das vacinas com RNA. Outros tratamentos incluem dispositivos, nanopartículas, peptídeos e imunorreguladores.
As vacinas podem ser agrupadas em quatro principais categorias de tecnologias: vírus, proteína, vetor viral e ácido nucleico com diferenças significativas de mecanismos de ação e processo produtivo. O esforço científico resultou em inovações radicais com as vacinas de vetor viral modificado e de RNA mensageiro, de acordo com o artigo.
Ainda diz o artigo que, no âmbito dos medicamentos, anticorpos monoclonais (feitos em laboratório com a função de mimetizar a ação dos anticorpos produzidos pelo nosso próprio corpo) também são tecnologias promissoras para a Covid-19. Nesse caso, as inovações utilizam uma mistura de dois ou mais anticorpos monoclonais, combinação gerada a partir de camundongos e células humanas infectadas, procurando evitar escape por mutações do vírus.
Terapias inovadoras semelhantes às tecnologias de produtos para a Covid-19
Para os pesquisadores, diversos produtos já registrados utilizam tecnologias semelhantes às vacinas desenvolvidas para a Covid-19. “O grau de inovação apresenta-se diferenciado para o caso das terapias gênicas ou celulares, denominadas terapias avançadas por algumas agências regulatórias, com processos diferenciados de aprovação.”
As terapias gênicas envolvem tratamentos utilizando material genético. As terapias celulares transferem células, que podem ser autólogas, heterólogas ou células-tronco de cordão umbilical; se modificadas geneticamente fora do corpo do paciente, também seriam denominadas terapias gênicas, explicam eles.
Apesar do artigo se limitar à possível influência de vacinas e alguns tratamentos, as tecnologias usadas para Covid-19 na saúde pública não se restringem a isso. “A ampliação de capacidades de testagem teria relevância epidemiológica para direcionar necessidades, assim como aplicativos de notificação de exposição ou tecnologias leves de rastreamentos de contatos, em especial para doenças infecciosas”, acrescentam.
Leia o artigo na íntegra aqui.
Fonte: Artigo CSP