No 1° de Maio, especialistas e trabalhadores lamentam danos provocados pela pandemia
Filipe Leonel
No Brasil, além dos 2 milhões de trabalhadores da saúde atuando na linha de frente do enfrentamento à Covid-19*, outras dezenas de profissionais como entregadores, vendedores, frentistas, funcionários de mercados, padeiros, motoristas, dentre outros, também não puderam ficar em suas casas para cumprir as medidas de distanciamento social para controle do coronavírus. Apesar de serem indispensáveis em tempos de pandemia, a grande maioria desses profissionais não tem o que comemorar neste Dia do Trabalhador. O esgotamento físico e mental aos quais estão submetidos, o desemprego e as frágeis relações de trabalho, o elevado risco de infecção e morte pela Covid-19 e a falta de reconhecimento da sociedade, dos empregadores e, muitas vezes, dos próprios colegas de profissão são alguns pontos de reflexão neste 1° de Maio.

Em março deste ano, a Escola Nacional de Saúde Pública divulgou os resultados da pesquisa Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19 no Brasil. O estudo revelou que a pandemia alterou de modo significativo a vida de 95% desses trabalhadores, que 50% deles admitiram excesso de trabalho ao longo desta crise mundial de saúde, com jornadas para além das 40 horas semanais, e a necessidade de mais de um emprego para sobreviver (45%).
Ainda de acordo com a pesquisa coordenada por Maria Helena Machado (ENSP/Fiocruz), 21% dos trabalhadores não se sentem valorizados pela própria chefia e somente 25% se sentem reconhecidos pelo trabalho realizado durante a pandemia. É o que revela o auxiliar administrativo Waldirlando Lemos, que trabalha na Policlínica de Itaipu. “Infelizmente, não temos motivos para comemorar o 1° de Maio. Para nós, trabalhadores da área da saúde, é triste sairmos das nossas casas, enfrentarmos transporte público lotado, e a população não reconhecer o trabalho realizado. Além disso, ao chegarmos no serviço, ficamos sabendo do falecimento de algum colega, parente e assistimos nossos amigos adoecendo”, lamentou.
Maria Helena lembra que os profissionais da saúde estão presentes em todas as etapas da pandemia, desde as orientações técnico-cientificas sobre a doença até o diagnóstico, o tratamento, os cuidados que a população deve ter para evitar a contaminação e o ato libertador da vacinação.
“Também são eles que estão no trabalho invisível da recepção, da segurança, da administração, da cozinha preparando as refeições dos hospitalizados, da limpeza mantendo os ambientes saudáveis e higienizados nas unidades básicas, nos hospitais, nos laboratórios de diagnósticos, etc. São eles que nos conduzem nas ambulâncias com a equipe de socorristas, pelas ruas da cidade, com zelo e rapidez, até uma unidade de atendimento. Também são eles que nos recebem e, em macas, nos levam ao interior dos hospitais", afirmou a pesquisadora, que completou. "Eles embalam os mortos e nos acompanham até o fim da linha presenciando nossa tristeza e dor pelos mais de 400 mil que se foram. Enfim, estão por toda parte, sempre presentes e prontos para recomeçar todos os dias na busca da recuperação da saúde e da vida”, relatou.
Aumento de 60% das mortes no Brasil no auge da pandemia
Em relação às demais profissões, um levantamento exclusivo feito para o jornal EL PAÍS pelo estúdio de inteligência de dados Lagom Data, com base em informações do Ministério da Economia, mostrou que trabalhadores formais que não puderam ficar em casa em nenhum momento da pandemia exercem algumas das ocupações que mais registraram aumento de mortes no Brasil.
A publicação mostra que frentistas de postos de gasolina, por exemplo, tiveram um salto de 68% na comparação das mortes entre janeiro e fevereiro de 2020, pré-pandemia, e dois dos piores meses da crise sanitária, no início de 2021. A reportagem também releva que entre os operadores de caixa de supermercado, 67% perderam mais colegas no mesmo período. “Motoristas de ônibus tiveram 62% mais mortes. Entre os vigilantes, que incluem os profissionais terceirizados que monitoram a temperatura de quem entra em shoppings centers, houve 59% de mortes a mais”, revela a matéria publicada em 5 de abril.
“A pandemia elevou o número de desempregados e o Estado não socorre os trabalhadores garantindo uma renda mínima ou um auxílio emergencial decente para que cumpram as medidas de distanciamento necessárias para conter a covid-19. Assim, muitos deles têm que sair de casa para sobreviver. Além disso, a pandemia deu luz a uma série de trabalhadores informais, invisíveis perante à sociedade, e que não possuem nenhum tipo de garantia trabalhista, não tem lugar para se alimentar, não tem banheiro decente ou algum lugar para descansar", admitiu o diretor da ENSP Hermano Castro, que é pneumologista e Médico do Trabalho.
O desemprego é um fator que provoca sentimentos opostos no técnico de Manutenção de Equipamentos Gutemberg de Souza Veloso neste 1° de Maio. Ele, que comemora o fato de estar empregado e fazendo a atividade que ama, lamenta o fato de muitos amigos e conhecidos não poderem dizer o mesmo. “Embora faça o que amo contribuindo com a assistência para salvar vidas, saber que o país atingiu a marca de mais de 14 milhões de desempregados causa uma tristeza enorme. Será o dia do trabalhador só para alguns; não para todos”.
Hermano completa. “É um dia de muita reflexão, principalmente de luta e busca pelos direitos já haviam sido perdidos no passado e se agravaram muito durante a pandemia. Cabe aos trabalhadores repensarem o modo de trabalho junto com a sociedade e os governos assumirem a responsabilidade para buscar soluções”.
*Dados da pesquisa Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19 no Brasil
Foto capa: Breno Esaki/SES-DF
Foto Gutemberg: reprodução de TV
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