Saúde mental: seminário critica excesso de medicação e discute apoio de pares como alternativa
Críticas ao modelo biomédico e discussões sobre intervenções de apoio de pares como caminho para a recuperação de doenças mentais marcaram a abertura do 6º Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas, promovido pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (LAPS) da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Com o subtítulo 'O modelo biomédico da psiquiatria fracassou? Quais as perspectivas?', o seminário começou nesta segunda-feira (31/10). Professor e pesquisador da ENSP, Paulo Amarante explicou que “o tema deste seminário diz respeito a uma luta em defesa da população e contra a opressão de uma forma de fazer psquiatria ortodoxa, patologizante, medicalizante, que reduz toda a questão política e social a uma explicação meramente biológica e organicista”.
Primeiro palestrante do evento, o sociólogo Andrew Scull, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, fez um retrospecto histórico da evolução dos tratamentos psiquiátricos e destacou os prejuízos decorrentes da crença de que doenças mentais têm causas localizadas no cérebro. “Apesar de limitados e dúbios, os medicamentos são a âncora da psiquiatria atual”, afirmou Scull. O renomado historiador da psiquiatria explicou que, no passado, acreditava-se que a loucura estava instalada no corpo, no cérebro. Este pensamento legitimava intervenções que chamou de “remédios desesperados” para as doenças mentais, como injeção de sangue contaminado com malária e a lobotomia – dois métodos laureados com o prêmio Nobel. Scull afirma que , atualmente, mais uma vez há a crença de que as razões das doenças mentais são biológicas, o que está na base do modelo biomédico da psiquiatria de hoje.
Em seguida, a também estadunidense Sarah Fay, autora do livro Pathological: The True Story of Six Misdiagnoses, falou da experiência de ter recebido diversos diagnósticos e sobre como se recuperou, tornando-se auxiliadora de outras pessoas em sofrimento. Ela explicou que o chamado apoio de pares envolve a troca para fortalecimento emocional entre pessoas que enfrentam situações que atingem a saúde mental de formas semelhantes.
“Aos 12 anos, me disseram que eu sou anorexia. Eu acreditei e minha mãe achou que eu morreria”, contou Sarah, que ainda receberia diagnósticos de Transtorno de Ansiedade Generalizada, depressão grave, Transtorno Obcessivo Compulsivo, Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e, ainda, Transtorno Bipolar. “Eu passei a vida inteira nas lentes dos diagnósticos, sem esperanças de me recuperar”, relatou. Mas ao encontrar um médico que afirmou não saber o que ela tinha, tudo mudou. “Fui jogada pra fora do meu diagnóstico e ter o meu mundo chacoalhado me ajudou a ir além. Eu não sabia quem eu era fora do diagnóstico”.
Enfim sem um “rótulo”, Sarah se viu diante da própria vida emocional e iniciou um processo de autodeterminação e autonomia para se recuperar: “Você pode concordar ou recusar o diagnóstico. Se você concorda, aplica aquilo a si próprio. Para algumas pessoas, é um alívio, mas pra mim foi um tormento. Quase acabou com minha vida”. Atualmente, Sarah Fay dedica parte do seu tempo a dar apoio a outras pessoas que estão passando por situações parecidas com sua própria experiência e acredita que é preciso falar sobre suporte de pares quando se discute recuperação de doenças mentais: “Eu realmente sinto que é o futuro”.
Paulo Amarante, Sarah Fay, Fernando Freitas e Andrew Scull, no 6º Seminário Internacional A Epidemia das Drogas Psiquiátricas
Na conferência, realizada na segunda-feira à tarde, o sociólogo Andrew Scull participou de um debate com Allen Frances, coordenador do DSM IV. e autor do livro Voltando ao Normal. Antes, ele fez a apresentação “Em defesa do modelo bio-psicossocial”. Nesta terça, a primeira mesa redonda foi “Desafios para a superação do reducionismo biológico na saúde mental e psiquiatria”, com os psiquiatras Laura Martin Lopes-Andrade (Presidenta de la Asociación la Revolución Delirante, da Espanha), Manuel Desviat (Consultor da Organização Pan Americana de Saude/OMS) e Marcelo Kimati (da Universidade Federal do Paraná), com coordenação da psicóloga Cláudia Gomes.
Na tarde de terça, o historiador Tiago Pires Marques (Universidade de Coimbra) coordenou a mesa “O modelo biomédico fracassou? Desafios e Perspectivas para a assistência em saúde mental no Brasil”, com Robert Whitaker (Editor-chefe do Mad in America), Fernando Freitas e Paulo Amarante (LAPS/ENSP/Fiocruz) e Adilson G. Silva (ativista antimanicomial MNLA/FPLAM/FASM/ANEPS). Todas as palestras, mesas redondas e debates do evento estão disponíveis no canal do Youtube VídeoSaúde, Distribuidora da Fiocruz.
Drogas Psiquiátrica (1° dia/manhã - português), assista:
Drogas Psiquiátrica (1° dia/tarde - português), assista:
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