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Cecília Minayo: ciência como ofício e afeto

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Publicado em:03/03/2026

Por Tania Neves (CDC/VPEIC/Fiocruz)

Entre os momentos inesquecíveis da Imersão no Verão 2026, organizada pela Coordenação de Divulgação Científica da Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz), destaca-se o encontro da pesquisadora Cecília Minayo, professora emérita da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), com um grupo de alunas do Programa Mulheres e Meninas na Ciência. O roteiro na Ensp previa uma surpresa: a exibição de uma animação em que a própria pesquisadora era a personagem principal, interagindo com seus alunos e explicando para eles a importância da pesquisa científica. O gesto comoveu Cecília, que não poupou elogios ao “filme tão bonito” antes de dar início a um relato emocionante sobre sua história na saúde pública.

“Tenho a hipótese que a pesquisadora mais antiga da Fiocruz em atividade sou eu. Podem investigar isso para confirmar ou não”, brincou. Cecília iniciou sua carreira na instituição em 1989, tornando-se professora emérita em 2018. Em março ela completará 88 anos de idade e 71 de magistério, pois sua vida de professora começou aos 17 na cidade mineira de Itabira, onde fez os estudos fundamentais: “Naquele tempo, levava nove horas para chegar da minha casa ao colégio: primeiro a cavalo e depois em trem e andando. Eu tinha plena consciência do sacrifício que meu pai fazia para eu estudar. Ele dizia para mim e minha irmã: ‘Não é porque vocês são meninas que vão ser submetidas’, e nos garantia o direito de estudar”, conta.

Relembrando sua infância, Cecília Minayo plantou sorrisos na plateia ao dizer que, sem querer se gabar, era uma criança muito inteligente e que adorava ler: “Naquele tempo, no interior de Minas, a gente tinha poucos recursos. E o recurso que eu tinha era uma revistinha chamada São Geraldo, que eu lia de frente para trás e de trás para a frente. Considero que essa vontade de ler é importante para quem sonha em ser pesquisadora, porque nos faz entrar na cabeça de quem escreveu e se perguntar o que é aquilo ali e o que está faltando”, disse ela, revelando que de tanto ler sobre as misérias do mundo decidiu que queria ir para a África para ajudar a minimizar o sofrimento das pessoas: “Depois eu vi que a África era aqui. O Haiti é aqui, não é isso que diz a música?”.

Os olhinhos das meninas brilhavam. E Cecília continuava: “Depois de 10 anos vim para o Rio, continuei dando aulas e me formei em Sociologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atuava com trabalho voluntário nos movimentos sociais – onde conheci Carlos, meu marido – mas só me casei com 37 anos, depois de fazer muitas coisas”. A pesquisadora lembrou também dos tempos difíceis da ditadura, que a obrigaram a se exilar fora do país com o marido por cinco anos.

Sobre sua vivência no exílio – que, em um primeiro momento, as meninas entenderam como um período de estudos fora do país – Cecília contou que foi muito difícil, e que vivia de fazer bicos. Voltou em 1979, com a Anistia, trazendo um filho pela mão e outro na barriga. E retomou o estudo e o trabalho de professora ao mesmo tempo em que criava os filhos. “Fiz mestrado, doutorado, tudo trabalhando e cuidando da minha família. Quando entrei para a Fiocruz, encerrei o voluntariado e decidi que minha atuação na fundação seria uma síntese do que eu sempre vivi e trabalhei”, definiu a doutora em Saúde Pública, que atualmente coordena uma pesquisa nacional sobre a saúde dos presos brasileiros e recebeu ano passado o prêmio internacional da Academia Mundial de Ciências (TWAS Awards 2022-2024) na categoria Ciências Sociais.

Maria Eduarda Oliveira da Silva Teotônio, de 18 anos, aluna do Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caic) Euclides da Cunha, no bairro do Itanhangá, no Rio, era uma das mais entusiasmadas com o relato da pesquisadora: “Me emocionei muito, acho que eu me vi ali na história dela. Tenho muitas dúvidas sobre o que eu quero fazer exatamente. Gosto muito da área da saúde, então ver alguém que trabalha até hoje desse jeito alegre, que realizou praticamente tudo aquilo com o que eu também sonho, que é trabalhar na área de saúde, ter várias formações depois da graduação, fazer pesquisa e ainda ter uma vida familiar, isso me empolgou muito”, afirmou.

A título de definir o que a Fiocruz representou e ainda representa em sua vida, Cecília fez uma comparação entre os trabalhos que desenvolveu antes e depois. Segundo ela, as primeiras pesquisas que realizou eram recebidas com um grande “Oh, meu Deus” – havia o reconhecimento da importância e da qualidade, mas não ia além disso. Após o ingresso na Fiocruz, seus estudos passaram a ter impacto na criação de políticas públicas: “Por isso tenho uma gratidão imensa. Eu queria ser cientista e precisava estar em um lugar onde a repercussão não fosse só o ‘oh, meu Deus’, e isso a linha de conduta da instituição me deu”.

Após responder uma ou outra pergunta das meninas – a maioria querendo ouvir mais sobre como conciliar estudo, trabalho, família e vida pessoal – Cecília reforçou que a vida de pesquisadora é de muito trabalho, embora caiba nela tudo isso que também faz parte da vida. “Não sei se eu as animo ou se desanimo, mas na ciência não tem noite nem tem dia. Você trabalha de dia, pensa de noite, dorme e acorda pensando. Mas aquilo que a gente faz porque ama é sempre um grande prazer”. E encerrou contando uma brincadeira que o marido Carlos – também pesquisador, com quem é casada há 50 anos – costuma fazer quando passam de carro em frente à Fiocruz, no fim de semana, indo ou vindo do sítio de Petrópolis: “Desce, fica aí de vez”.


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