Estudo vai revelar condições de trabalho e saúde de trabalhadores de áreas indígenas e quilombolas no contexto da Covid-19
Condições de trabalho e saúde mental dos trabalhadores de saúde das áreas indígena e quilombola no contexto da Covid-19 no Brasil é o tema de um dos projetos selecionados pelo Edital de Pesquisa 2021, lançado pela ENSP, por meio da Vice-Direção de Pesquisa e Inovação, no âmbito do Programa de Fomento ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico Aplicado à Saúde Pública.
A coordenadora do estudo, Maria Helena Machado, falou ao Informe ENSP sobre seus objetivos e resultados esperados, assim como os fatores que impactam a vida de trabalhadores de saúde das áreas indígena e quilombola no contexto da Covid-19 no Brasil. Confira, abaixo:
Quais são os principais objetivos do projeto Condições de trabalho e saúde mental dos trabalhadores de saúde das áreas indígena e quilombola no contexto da covid-19 no Brasil?
Maria Helena: A pesquisa tem como objetivo geral analisar em profundidade as condições de vida, o cotidiano do trabalho e a saúde mental dos trabalhadores que atuam diretamente na saúde, seja na assistência às áreas dos quilombolas, como indígenas, no enfrentamento da pandemia, na rede SUS e no SasiSUS, além dos DSEI, Polos Base, nas Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI) e nas Casas de Saúde Indígena (CASAI), buscando compreender a real situação em que se encontram este contingente de trabalhadores, traçando, assim, um paralelo entre os achados da pesquisa-mã “Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no contexto da Covid-19 no Brasil” e do subprojeto: “Condições de Trabalho e Saúde Mental dos Trabalhadores de Saúde das Áreas Indígena e Quilombola no Contexto da Covid-19 no Brasil”.
Como objetivos específicos, destacamos:
- Traçar o perfil desses trabalhadores, nos aspectos gerais (sociodemográficos: sexo, idade, escolaridade, cor ou raça etc.), bem como as especificidades das áreas de atuação desses no ambiente da saúde indígena e quilombola;
- Conhecer em profundidade a situação esse contingente (médicos, enfermeiros, cirurgiões-dentistas, nutricionistas, farmacêuticos, psicólogos, assistentes sociais, epidemiologistas, técnicos e auxiliares de enfermagem, de saúde bucal e de saneamento, bem como motoristas, barqueiros, pessoal de cozinha - cozinheiro, copeiro etc.), pessoal da área administrativa, vigilantes, agentes indígenas de saúde e agentes indígenas de saneamento etc), no que se refere ao seu cotidiano, sua saúde física e mental, bem como os efeitos dessa pandemia na sua vida diária;
- Conhecer os efeitos ou mesmo as consequências diretas nesses trabalhadores e trabalhadoras da linha no pós-pandemia com todo o processo de perdas de pacientes, colegas de trabalho, sofrimento, insegurança e. até mesmo, contaminação durante a pandemia.;
- Propor estratégias de enfrentamento da articulação com a agenda pública nacional, regionais e locais, em conjunto com os parceiros/apoiadores e com a Rede de Colaboradores e outros atores identificados no processo e desenvolvimento da pesquisa.
Como o projeto está sendo desenvolvido?
Maria Helena: Dada a abrangência e complexidade do ambiente da pesquisa envolvendo significativo contingente de trabalhadores e trabalhadoras que atuam em áreas de difícil acesso, estão sendo utilizados métodos e técnicas mistas de acordo com a realidade regional:
a) O aplicado questionário é similar ao da pesquisa-mãe, adaptando às questões específicas do processo e das suas condições de trabalho.
b) O instrumento de coleta foi constituído de perguntas fechadas e algumas semiabertas, adaptando-o ao formato online e impresso. Para sua elaboração no formato de questionário online, foi utilizada a mesma plataforma da pesquisa-mãe: RedCap (Research Eletronic Data Capture), uma plataforma para coleta, gerenciamento e disseminação de dados de pesquisas.
c) O questionário está disponível para preenchimento online, podendo ser preenchido pelo profissional de saúde através de celular ou computador com acesso à internet. O trabalho de campo está sendo híbrido - online e presencial, quando se fizer necessário. Estamos já na fase final de coleta de dados.
+ Conheça a pesquisa Os trabalhadores invisíveis da Saúde: condições de trabalho e saúde mental no contexto da Covid-19 no Brasil
Quais são as primeiras impressões e os principais resultados esperados?
Maria Helena: Têm sido muito gratificante o contato e os resultados do trabalho de campo, no entanto, deparamos com alguns problemas: dificuldades de acesso aos trabalhadores para responderem a pesquisa, devido à distância e isolamento de certas áreas (inclusive, sem conexão com a internet) onde esses trabalhadores se encontram; dificuldades de comunicação e de acesso dos trabalhadores ao questionário online, exigindo adoção de alternativas de questionário na modalidade impresso, chegando até ao respondente propriamente dito, o que exige infraestrutura de auxílio local (pessoal dos DSEI e CASAI e/ou presença in loco de nossos pesquisadores). Estamos superando o receio/pouca adesão dos trabalhadores em responder os questionários, devido aos vínculos precários que geram inseguranças. Importante que o recente apoio e envolvimento da SESAI têm sido decisivo neste momento para a retomada das atividades da pesquisa (trabalho de campo).
Quais são as contribuições do projeto para a sociedade e a popularização da ciência?
Maria Helena: Acreditamos que o ineditismo do estudo em abordar e estudar os trabalhadores da saúde indígena tem enorme importância, não somente para o movimento organizativo dos trabalhadores (sindicatos) , como e, principalmente, para o poder público, no caso a SESAI-MS, que terá em suas mãos um estudo inédito que permitirá às autoridades nacionais da saúde indígena e quilombola formular políticas públicas compatíveis com a importância da saúde dos povos originários do nosso país. É um legado importante que a ENSP proporciona ao financiar este projeto estratégico. E, em parceria com o Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE/ENSP), entregaremos um produto analítico de grande repercussão nacional.
Os estudos que você tem coordenado sobre as condições de trabalho e saúde mental de trabalhadores da saúde têm alertado para a precarização na vida e nas relações de trabalho como fatores impactantes na rotina desses profissionais. De que forma esses dois fatores têm impactado na vida de trabalhadores de saúde das áreas indígena e quilombola no contexto da Covid-19 no Brasil? E quais são os principais desafios enfrentados por esses profissionais?
Maria Helena: A precarização do trabalho é, sem dúvida, o maior obstáculo para a estabilização e manutenção do próprio sistema de saúde, uma vez que trabalhadores instáveis, desprotegidos e inseguros no seu dia a dia gera um ambiente de ameaça à estabilidade e o futuro profissional de milhares de trabalhadores que atuam em todas as instâncias do Sistema Único de Saúde, seja qual for a esfera administrativa, como vimos nas pesquisas que já realizamos sobre as condições de trabalho e saúde mental. Maior ainda é o impacto que essa desproteção causa em trabalhadores que atuam em áreas difíceis, longínquas, como áreas indígenas e quilombolas. Conhecer e trazer questões cruciais à luz da realidade que passam esses trabalhadores e trabalhadoras é um crucial na superação e construção de políticas públicas adequadas e dignas para todos e todas.
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