Custo de não cuidar da saúde mental materna é elevado e prejuízo pode chegar a 5 bilhões de dólares, aponta estudo
Na segunda-feira, 15 de maio, a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) promoveram um importante debate sobre saúde mental perinatal. O II Fórum de Saúde Mental Perinatal foi idealizado pelo Grupo de Trabalho de Saúde Mental Perinatal da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, com o apoio da ENSP, e teve como proposta principal ampliar o debate sobre o tema. Na ocasião, a psicóloga e professora da Universidade Mackenzie de São Paulo, Ana Osório, apresentou dados de uma pesquisa que aponta os impactos econômicos de não cuidar da saúde mental perinatal. O estudo estima que o custo de não tratar depressão e ansiedade no período perinatal pode chegar a 5 bilhões de dólares.
O debate foi dividido em três momentos. A abertura contou com a participação da pesquisadora assistente da ENSP - com atuação na pesquisa ‘Nascer no Brasil’ - coordenadora do Fórum e do GT de Saúde Mental Perinatal da SES-RJ, Marcia Baldisserotto; da coordenadora do GT de Saúde Mental da SES-RJ e integrante da área técnica de saúde da mulher da SES-RJ, Ana Roberta Pires; além de Claudia Maia, secretária de saúde estadual do Rio de Janeiro; Halene Silva, superintendente de Atenção Primária à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro; e Antônio Braga, coordenador da área técnica de saúde da mulher da SES-RJ. Após a abertura foi apresentado o estudo sobre os impactos econômicos de não cuidar da saúde mental perinatal, em seguida a apresentação da ‘Campanha Maio Furta Cor’, com relatos de como a Campanha está acontecendo no Rio de Janeiro, além da apresentação das políticas públicas em saúde mental perinatal no Brasil e no mundo, com exemplos do que vem sendo feito, o que já existe em termos de políticas públicas e os objetivos e encaminhamentos do Fórum de Saúde Perinatal.
Na abertura do debate a secretaria estadual de saúde, Claudia Maia, agradeceu todas as instituições envolvidas na discussão, que segundo ela, trará um conjunto de trabalho forte e poderoso sobre o tema. O coordenador da área técnica de saúde da mulher, Antônio Braga, ressaltou em sua fala a importância da Atenção Primária à Saúde (APS) e da Atenção Hospitalar compreenderem que a reprodução pode ter sim implicações psicossociais. Já a superintendente de APS da SES-RJ, Halene Silva, citou a questão da fisiologia do parto, gestação e puerpério, destacando que é preciso reconhecer na APS as experiências individuais das mulheres, por meio de um cuidado singular, com atenção especial para mulheres mais vulneráveis. Ela advertiu que ter a saúde mental afetada tem grande relevância dentro do pré-natal da mulher.

Custos econômicos de não cuidar da saúde mental materna no Brasil podem chegar a 5 bilhões de dólares
A psicóloga e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, Ana Osório, apresentou o estudo “The lifetime cost of perinatal depression and anxiety in Brazil”. O estudo traz informações sobre os impactos econômicos de não cuidar da saúde mental materna, apontando os custos ao longo da vida. A pesquisadora expôs que o período perinatal é de elevada vulnerabilidade a problemas de saúde mental e que países de baixa e média renda são os que apresentam taxas mais elevadas. Dados pré-pandemia apontam taxas de 15 a 30% de depressão e ansiedade no Brasil, com aumento durante a pandemia, elevando as taxas para 47 e 42% para provável depressão ou transtorno de ansiedade, respectivamente. Ela alertou que a saúde mental materna é uma preocupação global, porém, a maioria dos problemas de saúde mental materna permanecem sem tratamento. “No Brasil, 82% das mulheres com depressão perinatal permanecem sem diagnóstico”, lamentou, destacando o fato de que os problemas de saúde mental das mães prejudicam o desenvolvimento dos filhos.
No Brasil, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento está previsto pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para todos, independente do nível socioeconômico. “Esse acesso está previsto na teoria, mas na prática não é bem assim. Falta capacitação dos profissionais de saúde para cuidar da saúde mental materna”. A psicóloga citou programas federais que já existem, como o Rede Cegonha e o Criança Feliz, ambos com enorme relevância, mas que não apresentam ações especificas voltadas para a saúde mental perinatal. Trazendo informações sobre gastos federais com saúde, Ana citou que estimativas sugerem que, em 2019, apenas 2.1% dos gastos federais com saúde foram destinados à saúde mental, o que equivale a cerca de doze reais e cinquenta centavos por habitante. “Os custos de problemas de saúde mental materna não tratados, ligados ao sofrimento humano e a perda de produtividades, são substanciais. É urgente estimar o custo disso no Brasil, considerando os impactos a longo prazo sobre mães e filhos”, alertou ela.

O estudo apresentado por Osório fez uma estimativa dos custos de não cuidar da saúde mental perinatal. Através de técnicas de modelagem de simulação, os custos se referem a uma coorte hipotética de mulheres e meninas entre 15 e 38 anos, com depressão e ou ansiedade perinatal, que deram a luz em 2017 e os filhos nascidos nesse ano, seguidos ao longo do tempo, sendo de 10 anos para mulheres (refletindo o curso crônico de problemas de saúde mental de algumas mulheres) e de 40 anos para as crianças (período mais provável para capturar os impactos econômicos durante a vida adulta). O estudo aponta que o custo de não tratar depressão e ansiedade no período perinatal pode chegar a 5 bilhões de dólares ao longo da vida.
Trazendo para a realidade brasileira, Ana alertou que os custos de não tratar ansiedade, depressão e suicídio perinatal materno no Brasil são muito altos, cerca de 25 bilhões de reais. “O custo é muito alto e toda a sociedade para por ele”, destacou a psicóloga. Segundo ela, este é o primeiro estudo a estimar de forma abrangente os custos dos problemas de saúde mental materna em um país de baixa/média renda e traz uma grande inovação, pois inclui as consequências econômicas ligadas aos efeitos negativos da depressão materna nas crianças, trazendo uma inovadora perspectiva de custo intergeracional. Por fim, a professora ressaltou que o estudo tem forte justificativa econômica para investir em triagem, tratamento e apoio a saúde mental das mulheres durante o período perinatal, além da alocação de recursos baseada em evidências. “Este estudo pretende ser uma ponte entre evidência, prática e políticas públicas. Nosso desafio atual é o relatório que está em preparação, além de reunir e manter o apoio das principais partes interessadas e posteriormente desenvolver ferramentas que possam auxiliar na formulação de políticas públicas”, concluiu Osório.
Campanha Maio Furta-Cor: Saúde mental materna importa
As idealizadoras e fundadoras da Campanha Maio Furta Cor, Patrícia Piper e Nicole Cristino também participaram do II Fórum de Saúde Mental Perinatal. Ambas ressaltaram a importância do debate e a emoção em participar. Piper destacou que ouvir dados científicos é extremamente importante para solidificar evidências sobre a importância da saúde mental materna e sua importância para toda a família. Em sua fala, Patrícia falou sobre todo o contexto de criação da campanha e explicou que ela nasceu do espaço que existe entre ciência e a vida das mulheres. “A campanha surgiu neste lugar de entender o que precisa ser feito entre ciência e a clínica”, disse ela.
Nicole Cristino apresentou o Maio Furta-Cor, uma campanha comunitária sem fins lucrativos, democrática e apartidária que visa sensibilizar a população para a causa da saúde mental materna. Segundo ela, há um forte estigma social em torno de temas ligados à saúde mental e quando ele se estende ao campo materno esse estigma é ainda mais reforçado. “No entanto assistimos a um alarmante crescimento dos casos de depressão, ansiedade e, infelizmente, suicídio entre as mães. Pouca ou nenhuma atenção tem sido dada aos fatores que vêm contribuindo ao sofrimento mental das mulheres face às crescentes demandas da maternidade”, lamentou.
Atualmente a Campanha conta com mais de 285 mulheres espalhadas pelo Brasil e está presente em mais de 12 países, lutando pela saúde mental materna em múltiplas e diversas frentes. “Nossa campanha existe desde 2020 e nesse período já aprovamos mais de 50 leis Maio Furta-cor, sendo 3 estaduais (PR, SE, DF)”, celebrou Nicole. No Rio de Janeiro, a campanha cresce a cada dia e durante o evento foram apresentadas as ações que estão acontecendo na cidade, como a Marcha realizada no último sábado (13/5), no Parque de Madureira e outras atividades como rodas de conversa e feira de mães empreendedoras. As representantes do movimento no Rio de Janeiro, Mariana Motta e Nathália Lopes, falaram sobre como a campanha vem se desenrolando na cidade e os próximos passos.

Políticas Públicas sobre saúde mental perinatal no Brasil: perspectivas e desafios
Finalizando o debate, a pesquisadora assistente da ENSP e coordenadora do Fórum e do GT de Saúde Mental Perinatal da SES-RJ, Marcia Baldisserotto, falou sobre as políticas públicas de saúde mental perinatal no Brasil. Segundo ela, não há política pública específica de saúde mental perinatal, assim como não há programa, protocolo ou guia de saúde mental perinatal. “No Brasil, existem fragmentos de políticas públicas que englobam a saúde mental perinatal, mas nada específico sobre o tema”, explicou ela, dando como exemplos os Programas que já existem, entre eles o Programa Nacional de Humanização do Parto e Nascimento, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher Negra e a Rede Cegonha.

Trazendo um pouco do panorama atual na perspectiva do cenário brasileiro no âmbito das políticas públicas, a pesquisadora citou o Grupo de Língua Portuguesa da Internacional Marcé Society, o GT de Saúde Metal Perinatal da SES-RJ, o Fórum de Saúde Mental Materna, o Projeto de Lei 4432/2020, que está tramitando em conjunto com o PL 130/2019, que está aguardando votação no Plenário, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 98/2018, além da Campanha Maio Furta-Cor. Por fim, Baldisserotto falou sobre os próximos passos e desafios. "Neste momento nosso desafio é a formulação de políticas públicas específicas de saúde mental perinatal e um Programa Brasileiro de saúde mental perinatal que seja modelo de assistência em saúde mental perinatal para o SUS. Além disso, é preciso também, capacitação de profissionais de saúde em saúde mental perinatal, produção de conhecimento científico, elaboração de guias, protocolos e manuais, campanhas educativas e de conscientização, e financiamento (recursos)", concluiu Marcia.
O II Fórum de Saúde Mental Perinatal está disponível no canal da ENSP no Youtube. Assista!
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