Debate destaca protagonismo juvenil e ciência no território como estratégia para reduzir desigualdades
Por Danielle Monteiro
A ciência como ferramenta de transformação social e o protagonismo da juventude nos territórios marcaram o debate que reuniu gestores da ENSP, estudantes, alunos e egressos de Programas de Iniciação Científica da Fiocruz, além de representantes de iniciativas sociais, durante o 1º Encontro Presencial de Iniciação Científica em uma área periférica do Rio de Janeiro. Realizado no Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila, em Benfica, o evento teve como tema ‘Tecnociência Solidária com Favelas: da iniciação científica à redução das desigualdades sociais em saúde’. A atividade destacou o papel da ciência na redução das desigualdades, no fortalecimento da conexão entre instituições de pesquisa e territórios e no incentivo para que jovens ocupem espaços de produção de conhecimento voltados aos desafios locais.
O encontro foi iniciativa da Vice-Direção de Pesquisa e Inovação (VDPI/ENSP), em articulação com o projeto Tecnociência Solidária com Favelas, do Departamento de Ciências Sociais (DCS/ENSP), e o Conselho Gestor Intersetorial de Manguinhos (CGI Manguinhos).
Durante a abertura do encontro, a vice-diretora de Pesquisa e Inovação da ENSP, Andréa Sobral, agradeceu à escola pela recepção e destacou a importância de ampliar o diálogo entre a instituição e os estudantes do território. Segundo ela, a iniciativa busca apresentar oportunidades e “plantar uma semente” para que os jovens conheçam e participem de Programas de iniciação Científica da Fiocruz. A gestora também adiantou que a instituição pretende promover novos encontros e receber os alunos na ENSP para aprofundar o diálogo sobre as iniciativas de formação e pesquisa.
Coordenadora da Rede de Empreendimentos Sociais para o Desenvolvimento Socialmente justo, Democrático e Sustentável (Rede CCAP), Denise Reis destacou a importância de programas de iniciação científica para ampliar oportunidades entre jovens de territórios. Segundo ela, iniciativas como as desenvolvidas na Rede CCAP ajudam estudantes a conhecer e acessar caminhos acadêmicos e profissionais. “A participação em processos como a iniciação científica ajuda os jovens a se desenvolverem em vários aspectos, não apenas intelectualmente. É uma forma de eles entenderem a realidade ao redor, reconhecerem seus direitos e se perceberem como protagonistas”, afirmou.
Em seguida, a coordenadora do Programa de Vocação Científica (Provoc/Fiocruz), Cristiane Braga, destacou que a participação de jovens em iniciativas de iniciação científica depende também do interesse e da busca ativa dos estudantes pelas oportunidades oferecidas. Segundo ela, programas como o Provoc representam uma forma de aproximar a juventude do território da ciência, oferecendo bolsa, experiência em pesquisa e possibilidades de transformação social. A coordenadora ressaltou que o programa, com duração de até três anos, pode abrir novos caminhos acadêmicos e profissionais, além de conceder oportunidades para que jovens do território mudem a sua realidade social, provocando impacto positivo na sua trajetória profissional.
A coordenadora do Programa de Iniciação Científica na ENSP, Patrícia Constantino, explicou que a iniciativa foi criada há cerca de cinco anos para ampliar o acesso de moradores de Manguinhos e de territórios próximos às oportunidades de formação científica oferecidas pela instituição. Segundo ela, o programa surgiu após a constatação de que, apesar da proximidade com a Fiocruz, poucos estudantes da região participavam dos editais de iniciação científica. Conforme destacou ela, a proposta, que oferece bolsa e apoio financeiro, busca reduzir essa lacuna e incentivar a formação acadêmica de jovens do território, ampliando suas oportunidades e estimulando trajetórias na pesquisa.
Moradora da comunidade do Mandela e participante do Programa de Vocação Científica há três anos, Debora, e a integrante do Conselho Gestor Intersetorial de Manguinhos, Manoela, incentivaram os jovens a aproveitar as oportunidades oferecidas pelos Programas de Iniciação Científica. Segundo elas, é comum que estudantes do território não tenham acesso a esse tipo de informação, o que dificulta a sua participação nessas iniciativas. As jovens destacaram que a experiência no programa vai além da bolsa e proporciona aprendizado, novas conexões e possibilidades de futuro. “Nós também temos direito de ocupar esses espaços. Às vezes, só descobrimos o que queremos fazer quando nos expomos a oportunidades como essa”, afirmou Debora, ressaltando que a participação em projetos e pesquisas pode ajudar a transformar a realidade do território.
Posteriormente, o representante da Coordenação de Cooperação Social da Fiocruz destacou os desafios enfrentados por jovens de territórios para concluir o ensino médio e acessar oportunidades. Ao compartilhar sua própria trajetória, de estudante morador no território a doutor, ele ressaltou que permanecer estudando em contextos marcados por desigualdades já representa um ato de resistência. Segundo ele, a aproximação entre a instituição e os moradores do território é fundamental para enfrentar barreiras sociais e construir caminhos coletivos.
Representante da turma do primeiro ano do colégio, o estudante João destacou como principal desafio ao enfrentamento das desigualdades sociais a presença e colaboração do Estado no ensino.
Da iniciação científica à transformação social nos territórios
Em sua apresentação sobre ‘Tecnociência solidária com favelas: da iniciação científica à redução das desigualdades sociais em saúde’, o pesquisador Joycker Peçança, da ENSP, ressaltou que a atividade marca um momento inédito ao estabelecer, pela primeira vez, uma atuação integrada com uma escola no território, reunindo programas estruturados e ações de extensão da Fiocruz. A proposta, segundo ele, busca aproximar diferentes frentes de trabalho e fortalecer a presença institucional no território.
Ele afirmou que o objetivo é identificar desafios e perspectivas do processo de ensino, pesquisa e aprendizagem, de modo a tornar efetiva a integração entre essas dimensões na parceria entre a Fiocruz, o colégio e outras instituições que atuam no território. Conforme destacou, a iniciativa pretende consolidar um modelo colaborativo capaz de articular produção de conhecimento, formação e ações voltadas às necessidades locais.
“Acreditamos que esse processo pode contribuir para a redução das desigualdades em saúde. Queremos dialogar sobre essas possibilidades a partir de uma perspectiva de adequação sociotécnica, buscando avançar na relação entre as instituições e o território, com as pessoas que vivem nele e que são diretamente impactadas pelas políticas públicas”, afirmou o pesquisador.
Segundo Peçanha, a atividade teve como base o conceito de “Tecnologia solidária com favelas” e parte da ideia de que a iniciação científica pode contribuir para a redução das desigualdades sociais em saúde. A proposta considera que a ciência tem como papel compreender a realidade e atuar sobre ela, produzindo conhecimento capaz de orientar intervenções que respondam às necessidades da população. Nesse sentido, conforme destacou o pesquisador, a atividade enxerga a ciência como instrumento de transformação, capaz de sistematizar o entendimento da realidade e promover mudanças voltadas ao bem-estar social.
Nesse processo, existe um desafio, apontado pelo pesquisador: adaptar o conceito de Tecnociência solidária à realidade das favelas. Conforme explicou ele, embora a abordagem já esteja consolidada em experiências ligadas ao meio rural e à economia solidária, ainda é necessário desenvolver uma adequação sociotécnica que considere as especificidades das favelas. Segundo o pesquisador, esse conceito ainda está em processo de construção justamente porque precisa incorporar as características sociais, econômicas e territoriais próprias dos territórios.
Nesse contexto, os Programas de Iniciação Científica exercem papel fundamental, segundo o pesquisador: “Eles ampliam oportunidades para estudantes e estimulam a ocupação desses espaços. Uma pessoa que entenda a realidade do território, fazendo ciência, é diferente de uma que não entende essa realidade. Não faz sentido fazer ciência que gere um produto sem acesso pela população. Caso contrário, aumentam as desigualdades”.
Ele também destacou que o conceito de ‘solidariedade’ orientador da iniciativa precisa englobar quatro princípios centrais: ações seguras, saudáveis, sustentáveis e soberanas, no sentido de promover emancipação dos territórios e das populações envolvidas. Além disso, conforme pontuou o pesquisador, as iniciativas de enfrentamento às desigualdades sociais em saúde devem ser justas e equânimes, além de envolver políticas redistributivas e de bem-estar social.
Ao final do encontro, ficou definido que os estudantes interessados poderão integrar uma linha de pesquisa em parceria com a Fiocruz, escolhendo livremente os temas de interesse e o professor do colégio que será seu orientador. A proposta prevê a participação de docentes das diferentes disciplinas da escola para apoiar o desenvolvimento dos projetos. A iniciativa busca estimular a autonomia dos alunos na definição de suas pesquisas e fortalecer a articulação entre o colégio e a Fundação.



