Busca do site
menu

Margareth Portela: "Análises preliminares do nosso estudo apontam para baixo reconhecimento e dificuldades na atenção à Covid longa”

ícone facebook
Publicado em:15/12/2023
Por Danielle Monteiro

A Covid longa, também conhecida como síndrome pós-Covid, emergiu no mundo como mais uma consequência relevante da pandemia de Covid-19. A doença é caracterizada por sintomas persistentes ou novos, após o quadro agudo da Covid-19, que podem ser debilitantes e duradouros. Estima-se que a doença afete centenas de milhares de brasileiros. No entanto, ela não tem recebido a devida atenção de formuladores de políticas públicas e da área da Saúde. Diante dessa realidade e com o intuito de mudar o atual cenário, a ENSP, a Escola de Saúde Pública de Harvard e a Escola de Ciências Políticas e Econômicas de Londres uniram esforços para desenvolver um estudo que vai revelar as necessidades, barreiras e oportunidades no cuidado à Covid longa na cidade do Rio de Janeiro. 

Uma das primeiras a abordar as necessidades de saúde relacionadas à síndrome pós-Covid no Brasil, a pesquisa Cuidado de saúde à Covid longa pretende conscientizar sobre os impactos da doença na saúde e na vida de brasileiros, além de prover recomendações para que o SUS ofereça cuidados de alta qualidade a indivíduos convivendo com essa condição. O estudo foi selecionado pelo Edital de Pesquisa 2021, lançado pela ENSP, por meio da Vice-Direção de Pesquisa e Inovação, no âmbito do Programa de Fomento ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico Aplicado à Saúde Pública.

Em entrevista ao Informe ENSP, a coordenadora do estudo no Brasil e pesquisadora do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (DAPS/ENSP), Margareth Portela, revela as primeiras impressões da pesquisa e conta como o SUS pode melhor atender as necessidades de cuidados de saúde das pessoas que sofrem de Covid longa. Nesse bate-papo, ela também explica por que existe uma forte invisibilidade da doença nos serviços de saúde.

Confira, abaixo:

Quais são os objetivos do projeto, como ele está sendo desenvolvido e quais são as primeiras impressões e os principais resultados esperados? 


Margareth: O projeto visa estudar a COVID longa em pacientes que foram hospitalizados por COVID-19 no SUS no município do Rio de Janeiro, buscando apreender características, evolução e fatores associados à síndrome, além de necessidades de saúde, uso de serviços de saúde e barreiras de acesso aos cuidados de saúde necessários, com vistas à produção de evidências que subsidiem a organização da rede de serviços de saúde para atenção ao problema.

O trabalho envolve uma colaboração internacional com a Harvard University e a London School of Economics e Political Science, e conta com financiamento do Instituto Lemann, além do Programa de Fomento ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde Pública da ENSP/Fiocruz. O estudo contempla um componente quantitativo e outro qualitativo. No primeiro, foram entrevistados 652 participantes, selecionados a partir de uma amostra de desenho complexo focando pacientes hospitalizados por COVID-19 em hospitais da cidade do Rio de Janeiro entre 2021 e 2022.

Consideram-se dados demográficos e socioeconômicos dos participantes, assim como sintomas compatíveis com a COVID Longa, comorbidades, qualidade de vida relacionada à saúde, vida laboral, situação vacinal e percepção sobre necessidades de saúde, uso e barreiras de acesso a serviços de saúde por conta de problemas de saúde agravados ou observados após a COVID-19. No componente qualitativo, por sua vez, foram realizadas 29 entrevistas com profissionais de saúde e gestores da rede de serviços de saúde no município do Rio de Janeiro, e 15 entrevistas (até o momento) com pacientes com COVID Longa, independentemente de terem sido hospitalizados ou não. A nossa perspectiva é construir evidências para a estruturação de cuidados à pessoas com a condição centrado nas suas necessidades.

Análises preliminares do estudo apontam para baixo reconhecimento e dificuldades do sistema de saúde na atenção à COVID Longa. Por outro lado, também indicam elevada ocorrência de sintomas compatíveis com a COVID Longa, embora seja importante a sua avaliação com cautela, dada a sua inespecificidade, especialmente em uma população com grande proporção de pessoas mais vulneráveis. A percepção da pessoa de ter COVID Longa nos pareceu um indicador sensível no estudo. Adicionalmente, nos chamou a atenção a elevada mortalidade entre participantes selecionados após alta da internação por COVID-19.

Esperamos prover um panorama sobre a ocorrência de sintomas de COVID Longa na população hospitalizada por COVID-19 no Rio de Janeiro e obter resultados quanto ao efeito da COVID Longa na qualidade de vida relacionada à saúde, situação laboral e sobrevivência. Mas, especialmente, pretendemos mapear necessidades, uso e barreiras de acesso aos serviços de saúde pela COVID Longa e apreender as experiências de profissionais de saúde e pacientes para a proposição de respostas que deem conta da atenção ao problema no SUS.


+ Leia também: Pesquisa vai revelar necessidades, barreiras e oportunidades no cuidado à Covid longa 



Quais são as contribuições do projeto para a sociedade e a popularização da ciência? 


Margareth: Acreditamos que dar visibilidade à COVID Longa e buscar caminhos para a atenção ao problema se constitua em uma contribuição relevante para a sociedade brasileira, tão fortemente afetada pela pandemia de COVID-19. No que concerne à popularização da ciência, temos a preocupação de produzir materiais de linguagem simples e direta sobre a COVID Longa e cuidados a serem adotados.


+ Leia também: Médica e professora da Universidade de Harvard fala sobre dificuldades no diagnóstico e tratamento da Covid longa



Considerando as primeiras impressões obtidas pelo projeto até o momento, qual é o papel da vacina da Covid-19 no enfrentamento à Covid longa?


Margareth: Como entrevistamos pessoas internadas por COVID-19 em diferentes momentos da pandemia a partir do fim de 2020, podemos antecipar que, de fato, tivemos mais dificuldades para o recrutamento de participantes com 06 ou 12 meses após a internação, pela significativa redução no número de internações. Também tivemos a impressão de que pacientes internados após a vacinação muitas vezes o foram por outros problemas de saúde que os faziam clinicamente mais vulneráveis. No momento, não temos uma avaliação sobre efeitos da vacina na ocorrência e intensidade da COVID Longa propriamente, mas é factível explorarmos esse aspecto com base em dados do estudo.


+ Leia também: Edital de Pesquisa 2021: projetos selecionados são apresentados em seminário



Em entrevista concedida ao Informe ENSP, você comentou que a organização de cuidados para pacientes com Covid longa esbarra em problemas crônicos da rede de serviços de saúde. O que é necessário para que o SUS possa melhor atender as necessidades de cuidados de saúde das pessoas que sofrem dessa doença? 


Margareth: Eu diria que um primeiro ponto central é o reconhecimento de que o problema existe, de que há muitas pessoas, que tiveram quadros graves ou leves de COVID-19, convivendo com sintomas tais como fadiga, mal-estar pós esforço físico ou mental, comprometimento cognitiva, dores nas juntas, palpitações, entre outros, que impactam a sua qualidade de vida e capacidade laboral. Um outro ponto fundamental é o entendimento de que a COVID Longa é sistêmica, podendo incorrer em manifestações diversas acometendo diferentes órgãos/sistemas do corpo. Estes dois pontos, por outro lado, dão a dimensão da importância de um olhar amplo para a COVID Longa, que pode demandar cuidados em diferentes níveis de atenção, por múltiplos especialistas. Além dos cuidados ao problema que cabem à Atenção Primária em Saúde, é fundamental a participação dos serviços especializados e serviços de reabilitação.


Que fatores explicam a forte invisibilidade da Covid longa nos serviços de saúde? 


Margareth: Primeiramente, há a sobrecarga nos serviços, que lidam com múltiplos problemas de saúde e, frequentemente, com populações muito vulnerabilizadas por condições clínicas e socioeconômicas desfavoráveis. Uma parte da nossa população apresenta muitas comorbidades e “envelhece” muito cedo. Em segundo lugar, sublinha-se a inespecificidade dos sintomas de COVID Longa, também frequentes em outras condições nessa população vulnerabilizada. O diagnóstico de COVID Longa é estabelecido muito mais por exclusão de outras causas do que propriamente por um conjunto de critérios facilmente mensuráveis. Em terceiro lugar, há ainda muita ambiguidade e pouca orientação em relação ao diagnóstico da COVID Longa, aos cuidados adequados e às vias de encaminhamento disponíveis na rede de serviços de saúde. De qualquer forma, a doença se soma às demandas de cuidados e esbarra nas fragilidades da rede de serviços de saúde. 


+ Confira mais entrevistas com coordenadores de projetos selecionados pelo Edital de Pesquisa 2021




Nenhum comentário para: Margareth Portela: "Análises preliminares do nosso estudo apontam para baixo reconhecimento e dificuldades na atenção à Covid longa”