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Vacinas ajudam a prevenir 'covid longa', diz pesquisador da Fiocruz, Julio Croda

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Publicado em:17/02/2022

Com a pandemia da Covid-19 perto de completar dois anos, a vacinação é essencial para prevenir mortes e internações, constata o infectologista da Fiocruz, Julio Croda. Em entrevista à Ana Cláudia Peres e Luiz Felipe Stevanim, da Radis, ele analisou as expectativas para o ano de 2022 em relação à pandemia e acrescentou que a imunização também ajuda a prevenir casos da chamada “covid longa”, quando as pessoas permanecem com sintomas ou sequelas decorrentes da doença mesmo depois de passado o período da infecção — devido a desdobramentos do vírus no organismo humano que ainda desafiam a ciência.


Confira a reportagem!         

                                   
Em 17 de janeiro de 2022, uma segunda-feira de verão, o Brasil completou um ano desde que a enfermeira Mônica Calazans recebeu a primeira dose da vacina contra a covid-19, dando a largada na imunização. No final do dia seguinte, uma terça-feira (18), o país registrou o recorde de novos casos conhecidos em 24 horas desde o início da pandemia, na onda desencadeada pela variante ômicron, com cerca de 132 mil novos registros — nesse dia, a média móvel chegou à marca de 83.630 novos casos, superando o pico de junho de 2021, quando foi contabilizada a média de pouco mais de 77 mil infecções. Novos recordes de casos seriam batidos nos dias seguintes, entre o fim de janeiro e o início de fevereiro — em 3 de fevereiro, foram mais de 286 mil diagnósticos positivos em 24 horas.


Contudo, mesmo com a explosão de casos da variante ômicron em janeiro, mortes e internações não acompanharam proporcionalmente o número de infecções. Na linha de frente do combate à covid-19 desde a primeira hora, e um dos cientistas brasileiros com maior projeção nesse cenário, o infectologista da Fiocruz, Julio Croda, não tem dúvidas em apontar o papel da vacinação na prevenção de mortes e internações decorrentes da doença. “As vacinas protegem muito bem para hospitalizações e mortes, mas para infecções leves nem tanto. Existem pessoas que já tiveram doença prévia, outras que já tomaram vacina, e mesmo assim adquirem a doença, numa forma mais leve, graças à elevada cobertura vacinal”, constata.


Um ano após o início da imunização, o Brasil chega ao começo de fevereiro com 70,7% da população totalmente vacinada, com duas doses ou dose única, e 23% já com a dose de reforço. Porém, a resistência de uma parcela da população em se vacinar pode comprometer a expansão da cobertura de agora em diante. Mesmo com a enxurrada de desinformação sobre as vacinas — que, em seu capítulo mais recente, tem sido um obstáculo à imunização das crianças entre 5 e 11 anos —, a constatação é clara: vacinas salvam vidas e evitam casos graves da doença, que podem resultar em internações e mortes.


Em entrevista exclusiva à Radis, Julio Croda analisou as expectativas para o ano de 2022 em relação à pandemia e acrescentou que a imunização também ajuda a prevenir casos da chamada “covid longa”, quando as pessoas permanecem com sintomas ou sequelas decorrentes da doença mesmo depois de passado o período da infecção — devido a desdobramentos do vírus no organismo humano que ainda desafiam a ciência.


Nascido em Salvador e formado em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Julio Croda é pesquisador da Fiocruz Mato Grosso do Sul e assumiu, em novembro de 2021, a presidência da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT). Na conversa com a Radis, no final de janeiro, ele destacou que um dos grandes desafios para 2022 é ampliar a vacinação em regiões mais pobres do planeta, como em alguns países da África — pois “quanto maior e mais homogênea a cobertura vacinal, menor a chance de surgirem novas variantes”. A desigualdade nas coberturas vacinais é também um obstáculo interno a ser enfrentado no Brasil, onde as cidades mais pobres têm menor parcela da população vacinada. “É preciso levar a vacina onde a população reside”, pontua.


Depois de dois anos de experiência com o Sars-CoV-2, o vírus causador da covid-19, e suas diferentes variantes, Julio é bastante cauteloso em falar sobre um possível “fim da pandemia”. Ele considera que “em algum momento, a doença vai se tornar endêmica, vai respeitar um período sazonal”, mas para isso é preciso expandir as coberturas vacinais e torná-las menos desiguais. “Garantir cobertura vacinal para todo mundo, pelo menos com duas doses, é prioridade número um. A segunda prioridade é garantir doses de reforço para a população mais vulnerável, como idosos, pessoas imunossuprimidas, que têm maior risco de hospitalização”, explica.


“Hospitalizações e mortes serão os grandes marcadores do fim da pandemia”, aponta. E a esperança dos cientistas é que isso aconteça — “devido às vacinas, mesmo com o surgimento de novas variantes, que cada vez seja menor o impacto em termos de mortes e internações”. Com a constatação emblemática de que o coronavírus foi “um evento que marcou a humanidade”, Julio acredita que o vírus vai continuar circulando, ainda que tenha, no futuro, menor impacto. “Isso também não significa que a gente vai voltar à nossa vida habitual do passado, porque esse vírus vai ser incorporado no nosso dia a dia”, resume.

Passados dois anos da descoberta do novo coronavírus, em Wuhan, e depois de tudo o que atravessamos até aqui, que cenários se desenham para a pandemia nos próximos meses? Estamos mais próximos do fim?


A gente tem que ter muito cuidado ao falar sobre o fim da pandemia. Em algum momento, a doença vai se tornar endêmica, vai respeitar um período sazonal, que acontece, no Brasil, com a região Norte agora [no início do ano], no inverno amazônico, e na região Sul, no inverno do meio do ano; e para as outras regiões, é entre o inverno do Sul e o inverno amazônico. Eventualmente vão surgir variantes com escape de resposta imune e vamos ter que atualizar as nossas vacinas para continuar garantindo boa proteção, além de vacinar a população periodicamente. O fim da pandemia está condicionado à maior cobertura vacinal. Na América Latina, a gente tem uma cobertura que está, de alguma forma, avançando, mas temos a África em que as coberturas vacinais estão em torno de 10%, temos uma parte do Sul Asiático que também tem baixas coberturas. Quando temos alta transmissão, como neste momento em que batemos recordes de casos, a chance de surgirem novas variantes é importante. E eventualmente, pode surgir uma variante com escape de resposta imune suficiente para diminuir a eficácia das vacinas, principalmente em relação a hospitalizações e mortes. A gente não tem como prever quando isso vai acontecer. A tendência é que quanto maior e mais homogênea a cobertura vacinal, menor a chance de surgirem novas variantes.


Nas ondas anteriores, o Brasil não acompanhou a tendência de outros países, pois tivemos um “platô” com número elevado de casos e mortes que se estendeu por muito tempo, e não uma curva rápida descendente. Com a ômicron vai ser diferente?


No passado, tivemos um platô da variante original. Depois tivemos a nossa variante, a gama, que foi uma variante muito da América Latina, com disseminação menor para os Estados Unidos e para a Europa, porque logo em seguida veio a variante delta, que se tornou predominante lá. Aqui a gente viveu uma onda muito característica da variante gama, nessa mesma época do ano, em 2021. Foi no mesmo momento em que a gente iniciou a vacinação no Brasil. A gente teve um pico em abril relacionado à gama, que chegou a 4 mil óbitos. Quando a delta chegou no país, com a situação intensa que já tinha ocorrido da gama, mais uma cobertura vacinal maior, tivemos pouco impacto da delta. A América Latina está fazendo, no que diz respeito à vacinação, um trabalho muito legal. Nós estamos puxando a cobertura vacinal no mundo.


Então, a pergunta que todos querem saber: o que esperar da ômicron?


Em relação à ômicron propriamente dita, ela tem uma transmissibilidade muito mais elevada que as outras variantes. Ela é de 3 a 4 vezes mais transmissível que a variante original e de 2 a 3 vezes mais transmissível que a gama. Além disso, ela possui um escape de resposta imune muito importante. Quem já foi infectado previamente não está totalmente protegido. Tem pacientes que reportam três infecções: tiveram da variante original, quando a gama chegou e agora com a ômicron. Aquela imunidade coletiva através da infecção não será atingida diante do surgimento de novas variantes com escape de resposta imune, que é o caso da ômicron.


Qual é a importância das vacinas nesse cenário?


As vacinas protegem muito bem para hospitalizações e mortes, mas para infecções leves nem tanto. Existem pessoas que já tiveram doença prévia, outras que já tomaram vacina, e mesmo assim adquirem a doença, numa forma mais leve, graças à elevada cobertura vacinal. O padrão do Brasil não vai ser diferente de outros países. Não vai ser diferente da África do Sul, que tem cobertura de 30%, ou do Reino Unido, que chega a 70%. É um padrão de crescimento muito rápido, que dura de quatro a seis semanas, uma explosão de número de casos nunca vista em outras variantes, batendo recordes, independente do que circulou previamente e da cobertura vacinal na região. Se para as outras variantes a gente precisava de um grau de medidas restritivas para achatar a curva, para a ômicron é quase impossível. Seria necessário um lockdown muito severo para ter algum impacto no que diz respeito à transmissão. No contexto da ômicron, nenhum país adotou medidas restritivas severas que fossem capazes de achatar a curva. A curva é bem íngreme, tem um pico bem marcante e uma queda bem marcante, em termos de número de casos. O que a gente observa é, proporcionalmente, um número menor de hospitalizações e mortes.


Graças à vacina


Os números falam por si. Com 2,8 vezes mais casos registrados em janeiro de 2022 em comparação com o mesmo mês de 2021, o estado do Rio de Janeiro teve 11,5 vezes menos mortes no primeiro mês de 2022 em comparação com janeiro passado, quando ainda não havia vacina disponível. Quanto às internações, o número de janeiro de 2021 foi cerca de 4,7 vezes maior do que o do mesmo mês em 2022. Confira os dados: