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Pesquisadoras negras da ENSP compartilham seus estudos em contribuição à saúde coletiva

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Publicado em:26/11/2024

Contribuições de cientistas negras para a saúde coletiva foram destaque na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) nesta sexta-feira (22/11). No âmbito do Novembro Negro, série de atividades em referência ao Dia da Consciência Negra, a ENSP realizou a mesa “A saúde da população negra na pós-graduação”. O encontro teve transmissão ao vivo no canal da Escola no YouTube, onde já está disponível na íntegra. O evento reuniu quatro mulheres negras formadas no Stricto Sensu da Escola: Michele Gonçalves da Costa, Lidiane Bravo da Silva, Ana Cláudia Barbosa e Monique Rodrigues de Oliveira Silva, além da pesquisadora Roberta Gondim, que fez a mediação da mesa. 

Gondim destacou que o objetivo do encontro foi o compartilhamento de achados que ajudam a compreender as desigualdades brasileiras a partir de suas bases, “numa perspectiva interseccional de raça, classe, gênero, origem e suas repercussões na saúde”. A pesquisadora sublinhou que a história de pessoas negras é “propositalmente silenciada e invisibilizada”. De acordo com ela, os estudos conduzidos por mulheres negras foram compartilhados no evento com base nessa premissa, vivência e motivação. “A reparação epistêmica se baseia na constatação de que a pluralidade do pensamento, de experiências e análise de negras e negros foram desperdiçados nos últimos séculos. Modos de produzir a ciência foram ignorados, silenciados, marginalizados, desqualificados ou simplesmente eliminados do cenário intelectual brasileiro”, disse a professora ao explicar o fenômeno identificado por Sueli Carneiro como epistemicídio. 

O diretor da ENSP, Marco Menezes, prestigiou o evento. Ele refletiu sobre o alinhamento do evento ao tema “Reparação histórica, desigualdades e a construção do comum”, que foi mote da celebração dos recém completados 70 anos da Escola. “Aqui temos um bom exemplo de como precisamos aprofundar esse assunto dentro da academia, dentro da ciência, com mais espaço e mais eventos como este”, afirmou o diretor. Marco Menezes ressaltou que, para além do Novembro Negro, a ENSP tem se dedicado a uma série de outras atividades ao lado de movimentos sociais como, por exemplo, em prol da plena efetivação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), com a implementação do Observatório de Saúde da População Negra, que ficará hospedado na Escola

Michele da Costa apresentou o estudo que culminou em sua dissertação de mestrado. Sua pesquisa trata das expressões do racismo na pandemia de Covid-19 e abordou mortalidade e expectativa de vida da população negra no município do Rio de Janeiro, cuja queda foi maior entre pessoas negras. “Nascer mulher e preta reduz em oito anos a expectativa de vida em relação às brancas. Já homens pretos têm essa expectativa nove anos menos que a dos brancos”. Estimativas como essas e outros dados compartilhados por Michele têm sido usados pelo Comitê Técnico de Saúde da População Negra no município do Rio de Janeiro para fortalecer o Programa Municipal de Saúde da População Negra. “A ideia é justamente essa: produzir informação para subsidiar as políticas”. 


A emergência sanitária da Covid-19 também foi pauta na apresentação de Lidiane Bravo, que focou nas violações dos direitos humanos das pessoas em situação de rua naquele contexto. Ela salientou que há uma carência de estudos que racializem a condição de rua no Brasil. Em sua pesquisa, Lidiane fez um levantamento de atos normativos da Prefeitura do Rio para identificar medidas pensadas para esse grupo populacional. De 891 atos, apenas 34 foram direcionados ou em alguma medida contemplavam as questões dessa população. “A população de situação de rua entra na agenda pública, mas as medidas são escassas e insuficientes para segurar seus direitos. O quantitativo de vagas disponibilizadas para abrigamento dessa população, por exemplo, é de 400 vagas. O número é ínfimo”, explicou. “Eu identifico ser urgente o enfrentamento assa política de morte sob a qual corpos negros estão inscritos”, declarou Lidiane. 

Doutora em Saúde Pública pela ENSP, Ana Barbosa apresentou um trabalho com abordagem interseccional e decolonial, oriundo do seu doutorado, sobre o Cuidado em Saúde na Atenção Primária, no qual mergulhou numa área programática da cidade do Rio. Em sua escrevivência, a autora fez um exercício de “razão e também de afetos” sobre as Nanás (mulheres-negras-periféricas-idosas) e os Profissionais de Saúde. O estudo foi realizado no período pós-pandemia de covid-19 nas Clínicas da Família da AP 5.1 do Rio de Janeiro. “Uma certeza é que a experiência das mulheres negras pôde ser valorizada através, por exemplo, do artigo sobre as Nanás, sobre os Agentes Comunitários de Saúde que, em sua maioria, são mulheres negras. Trazer esse conhecimento para dentro da academia em forma de artigo é importante e fundamental. Mas, o trabalho me trouxe a agonia de observar que ainda nos serviços de saúde os profissionais ainda possam repetir que não sabem para quê serve o requisito raça/cor somos todos iguais. Por isso, é preciso fazer a desconstrução”. 

Por fim, Monique Silva analisou o cenário da saúde da população negra no município, destacando limites e possibilidades frente ao racismo institucional. Em sua pesquisa, ela concluiu que o município do Rio esteve na vanguarda da implantação da Política de Saúde da População Negra local mas que, ainda que a Prefeitura tenha impetrado uma série de movimentos técnico-políticos ao longo do período estudado, as medidas não tiveram efetividade ou sustentabilidade. “O racismo institucional evidenciou-se como o principal entrave à operacionalização da PNSIPN. Falta interesse político para a inclusão da pauta da saúde da população negra na agenda de governo (em Planos Municipais de Saúde, Planos Plurianuais e orçamentários). A implementação do Plano Municipal, com a instituição de uma área técnica da SPN, garantirá a efetividade das ações voltadas para a esta população, não percebida ao longo dos últimos anos, apesar da retórica governamental”, explicou a pesquisadora.

Os estudos de Michele, Lidiane e Monique se tornaram capítulos que compõe o livro “Desafios Contemporâneos do Campo da Saúde Coletiva: Contribuições da Pós-graduação”. A publicação foi lançada oficialmente no 5º Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão da Saúde (5º PPGS), da Abrasco, realizado neste mês de novembro de Fortaleza. Confira

Assista ao evento na íntegra: 




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