'Queremos ser ouvidos'
Descaso, impunidade, irresponsabilidade, exclusão, corrupção. Essas foram algumas palavras que marcaram o ato em memória aos mortos e desaparecidos no desastre da Região Serrana do Rio de Janeiro em 2011. A mobilização, que encerrou o seminário internacional Desnaturalização dos desastres e mobilização comunitária: novo regime de produção do saber, ocorreu em frente ao Castelo Mourisco da Fiocruz, e reuniu afetados, parentes e pesquisadores da instituição. Entre os discursos, uma certeza: o clamor por justiça, dignidade e atenção dos governantes.


“Somos sobreviventes, mas, mesmo assim, vivemos um luto diário. A sensação é que morremos pouco a pouco com o descaso das autoridades. Queremos dignidade, queremos ser ouvidos! Apesar da sensação de luto, não desistiremos”, disse Laura Fermiano, uma das afetadas no município de Teresópolis e voluntária da Associação das vítimas das chuvas em Teresópolis (AVIT).
Sergio Portella, coordenador do seminário internacional junto com a pesquisadora Simone Oliveira, afirmou que a ideia de promover o ato em memória aos mortos e desaparecidos buscou dar voz aos movimentos, além de fazê-los expor suas tensões e emoções. “Essas pessoas não conseguiam se expressar em um ambiente considerado cientifico. Então, no primeiro instante, há essa catarse, esse momento de liberação das emoções. Na ocasião seguinte, buscamos criar um ambiente que seja capaz de produzir saber. Essa produção deve concentrar todas as forças: a gestão, os aspectos científicos e os conhecimentos populares daqueles que estão diretamente no território” almejou.
A coalizão desses poderes deu a Edilson Alves de Moura, afetado em Nova Friburgo, novo ânimo para recomeçar e lutar por seus direitos: “Minha casa foi soterrada por 2,5 metros de barro. Fiquei em choque nos primeiros dias. Não havia luz, telefone, não tinha como contatar nossos familiares. Entrei em depressão, me afastei do movimento, mas recuperei a confiança. Todo o sofrimento da tragédia foi transformado em luta, em vontade de vencer e fazer valer o direito das pessoas! Minha resiliência perpassa por essa luta do direito de cada cidadão”.
Lucineia da Silva, diretora da AVIT, confessou que relembrar a tragédia ainda provoca tristeza. “Meu sentimento é de tristeza. Quase cinco anos se passaram, mas só temos o descaso das autoridades locais. Famílias estão retornando para suas casas interditadas, muitas outras ainda não receberam o aluguel social, mas é preciso lutar pelos nossos direitos. Se desistirmos, será pior”, desabafou.
No encerramento da atividade, o público presente escreveu, em pequenas casas de papelão, palavras associadas aos seus desejos para o futuro.

Fotos: Peter Ilicciev

Fotos: Peter Ilicciev
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