Pesquisadora da ENSP/Fiocruz participa de evento internacional sobre sistemas de saúde na América Latina
Por Bruna Abinara
No dia 13 de outubro, será realizado o 'Enlazadas por los Sistemas de Salud y Salud Global', um encontro internacional que abordará os sistemas de saúde na América Latina à luz dos desafios da saúde global. O evento contará com a participação de especialistas de quatro países da região: Argentina, Brasil, Costa Rica e El Salvador. A pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), coeditora chefe dos Cadernos de Saúde Pública (CSP) e integrante do conselho editorial da Editora Fiocruz, Luciana Dias de Lima, será a representante brasileira.
'Enlazadas' é uma iniciativa da EULAC - Associação de Editoras Universitárias da América Latina e Caribe, organizado com parceria e mediação da ABEU – Associação Brasileira das Editoras Universitárias. O encontro será às 15h30, com transmissão pelo canal da ABEU no Youtube.
Para a pesquisadora da ENSP/Fiocruz, participar do 'Enlazadas' representa uma oportunidade de fortalecer o diálogo entre países latino-americanos que compartilham desafios históricos e estruturais semelhantes na construção de sistemas universais de saúde. Luciana Dias também considera o encontro como estratégico para reafirmar o papel das editoras universitárias na promoção do pensamento científico comprometido com a equidade, a justiça social e a defesa da saúde como direito humano fundamental.
Confira a entrevista completa:
O que significa participar de um encontro como o Enlazadas, que aborda os sistemas de saúde latino-americanos frente aos desafios da saúde global?
Participar do Enlazadas representa uma oportunidade de fortalecer o diálogo entre países latino-americanos que compartilham desafios históricos e estruturais semelhantes na construção de sistemas universais de saúde.
Como editora científica dos Cadernos de Saúde Pública e integrante do conselho editorial da Editora Fiocruz, considero o Enlazadas — iniciativa da EULAC, em parceria e mediação da ABEU — um fórum estratégico para reafirmar o papel das editoras universitárias na promoção do pensamento científico comprometido com a equidade, a justiça social e a defesa da saúde como direito humano fundamental.
Em um contexto de transformações globais, em que se destacam o avanço das desigualdades, as crises ambientais, as mudanças demográficas e epidemiológicas, e as tensões políticas e democráticas, encontros como estes reforçam a relevância de uma perspectiva latino-americana sobre a saúde global.
De que forma sua pesquisa dialoga com os temas que serão debatidos no evento?
Na minha apresentação abordarei a experiência do Sistema Único de Saúde (SUS) como um exemplo concreto de construção de um sistema público e universal em meio a condições históricas, políticas e econômicas complexas. Procurarei analisar os avanços e contradições que marcam a trajetória do SUS, evidenciando a importância das políticas de descentralização, da Atenção Primária à Saúde (APS) e da participação social na consolidação de uma política pública comprometida com a equidade.
Esse diálogo é particularmente relevante para o Enlazadas, na medida em que o evento busca compreender como os sistemas de saúde latino-americanos podem enfrentar desafios globais - como o subfinanciamento crônico, a privatização, a precarização do trabalho e a crise das democracias - sem perder de vista os princípios da justiça social e do direito à saúde. A experiência brasileira, com seus avanços e dificuldades, oferece elementos analíticos e inspiradores para pensar estratégias comuns de resistência e inovação na região.
Como a ENSP e a Fiocruz têm contribuído para o debate sobre saúde global a partir de uma perspectiva latino-americana?
A ENSP e a Fiocruz têm contribuído na produção de conhecimento crítico e na formação de quadros comprometidos com a saúde pública e com a integração latino-americana. A partir de uma perspectiva que reconhece a determinação social da saúde e a interdependência entre os países do Sul global, temos promovido reflexões sobre governança global, desigualdades em saúde, vigilância, respostas a emergências sanitárias e políticas de proteção social.
Além disso, a Fiocruz tem atuado na cooperação técnica internacional, em especial com países da América Latina e da África, contribuindo para o fortalecimento das capacidades locais e para a defesa da saúde como bem público global. A recente designação da ENSP como Centro Colaborador da OPAS/OMS em Formação e Desenvolvimento Estratégico para Sistemas de Saúde, com foco na Atenção Primária à Saúde, consolida esse papel da Fiocruz e amplia sua inserção internacional.
Quais temas ou desafios em saúde pública você acredita que mais se destacam hoje na América Latina? Há experiências ou políticas públicas na região que podem servir de exemplo para outros contextos globais?
Os desafios em saúde pública na América Latina são indissociáveis das características históricas e estruturais das sociedades da região. Em primeiro lugar, a persistência de profundas desigualdades socioeconômicas, cujas raízes remontam ao passado colonial, molda de forma duradoura as condições de vida e saúde das populações. A inserção periférica da região na economia mundial e os processos de modernização capitalista do século XX, marcados por crescimento econômico com escassa redistribuição social, resultaram em uma base produtiva desigual e em uma estrutura social altamente concentradora de renda, poder e oportunidades.
A essas desigualdades se somam os efeitos de longos períodos de regimes autoritários, que deixaram como herança a fragilidade institucional, a repressão à participação social e a descontinuidade de políticas públicas orientadas pelos princípios da equidade e da democracia. Essas experiências autoritárias contribuíram para limitar a construção de sistemas de proteção social universais e sustentáveis, restringindo direitos e aprofundando a exclusão de grupos historicamente vulnerabilizados.
Outro traço marcante da região é a trajetória segmentada da proteção social e da saúde, historicamente vinculada ao emprego formal e aos mercados de trabalho regulados. Em contextos de alta informalidade laboral, grande parte da população permaneceu à margem de sistemas contributivos, o que reforçou a dualidade entre quem tem acesso a serviços privados e quem depende de políticas públicas subfinanciadas. Essa segmentação continua a representar um obstáculo central para a efetivação do direito universal à saúde.
Nesse cenário, o SUS no Brasil constitui uma experiência emblemática na tentativa de superação da herança histórica de desigualdades e exclusão social na região. O SUS articula os princípios de universalidade, integralidade e participação social a um processo de descentralização que ampliou o acesso aos serviços e consolidou a Atenção Primária à Saúde como eixo estruturante do sistema.
Apesar de suas contradições e desafios persistentes, o SUS demonstrou ser possível construir um sistema público robusto, resiliente e orientado pelo direito à saúde, mesmo em contextos de restrições econômicas e instabilidade política. A trajetória latino-americana, nesse sentido, evidencia que a universalização da saúde transcende o campo técnico ou financeiro: representa, sobretudo, um projeto político e civilizatório, sustentado nos ideais de solidariedade, justiça social, democracia e soberania regional.
Convite 'Enlazadas. Reprodução redes sociais.



