Oficina fortalece diálogo entre pesquisadores Indígenas e Fiocruz
Por Bruna Abinara
“Parte-se do reconhecimento de que os Povos Indígenas não são apenas sujeitos de pesquisa, mas produtores legítimos de saberes, cujas epistemologias, práticas e experiências tensionam e ampliam os limites da ciência ocidental moderna”, destacou a coordenadora da atividade.
A criação de espaços seguros para o compartilhamento de experiências e a construção de consensos entre pesquisadores Indígenas na relação com a Fiocruz: esse foi o objetivo da “Oficina de Indígenas Pesquisadores em diálogo com a Fiocruz”. A atividade, realizada nos dias 27 e 28 de abril, foi um espaço para troca de experiências entre pesquisadores e pesquisadoras Indígenas cocoordenadores e colaboradores de projetos do Programa Inova - Saúde Indígena da Fiocruz, que visa o fortalecimento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS). Segundo a coordenadora do evento, a pesquisadora da ENSP/Fiocruz Diádiney Helena de Almeida, do Povo Pataxó, “a oficina buscou constituir um espaço de escuta qualificada, acolhimento e diálogo intercultural, valorizando trajetórias, narrativas e práticas de pesquisa situadas, ao mesmo tempo em que buscou problematizar as assimetrias de poder historicamente presentes na produção científica”.
Para a pesquisadora, no centro da iniciativa está o reconhecimento do protagonismo dos Povos Indígenas enquanto produtores legítimos de conhecimento. Diádiney explicou que o documento “Demarcando e Reflorestando a Fiocruz - Carta política dos povos indígenas presentes no Seminário Avanços e Desafios da Saúde Indígena no Brasil”, de 2023, foi retomado na oficina como base para o debate sobre o aprimoramento de relações simétricas, éticas e antirracistas no contexto da Fiocruz com os projetos Inova - Saúde Indígena.
Como desafios persistentes, os participantes apontaram a violência do racismo institucional, a falta de reconhecimento e representatividade nas instituições e fragilidades no retorno para as comunidades e territórios dos projetos desenvolvidos. Ainda citaram a desconfiança das comunidades Indígenas com a pesquisa, os entraves burocráticos e a necessidade de um debate sobre ética em pesquisa específica para projetos desenvolvidos pela Fiocruz. O fortalecimento da Governança Indígena através do diálogo e da parceria das instituições públicas com as organizações Indígenas também foi destacado, assim como a necessidade de maior transparência e comunicação dos mecanismos de financiamento.
"Nesse sentido, a carta política de 2023 é vista como um mecanismo de reivindicação ainda pertinente. A importância da articulação coletiva de Indígenas pesquisadores foi apontada como um caminho para fortalecer um diálogo construtivo com as instituições de ensino e de pesquisa e com a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), buscando garantir comunicação e coesão com as demandas advindas dos territórios Indígenas, considerando metodologias e produção de resultados que estejam comprometidos com as demandas e o bem-estar dessas comunidades", declarou a coordenadora da oficina.
*Fotos: Ray Baniwa, comunicador Indígena, e Ana Pontes, pesquisadora da ENSP



