Observatório do SUS debate envelhecimento, violências e saúde mental em Seminário sobre desafios sanitários
Por Thathiana Gurgel
O Observatório do SUS, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), realizou, na última segunda-feira (27), no auditório da ENSP (Rio de Janeiro), o Seminário “Desafios contemporâneos da saúde no Brasil: envelhecimento e condições crônicas; acidentes e violências; saúde mental”. O evento marcou a abertura de um ciclo de debates que pretende contribuir com a agenda da saúde no contexto das eleições de 2026.
Na abertura, o vice-diretor da Escola de Governo em Saúde e coordenador do Observatório do SUS (ENSP/Fiocruz), Eduardo Melo, destacou a importância da temática do primeiro encontro do ciclo de seminários. Segundo ele, o objetivo é aproximar o SUS das necessidades reais da população: “A proposta deste seminário é tomar problemas centrais do cenário epidemiológico e social como ponto de partida para discutir os desafios que eles colocam para o SUS e para a agenda da saúde no Brasil”.
O seminário contou com três mesas temáticas, que reuniram gestores e pesquisadores da saúde pública para debater questões centrais do contexto sanitário contemporâneo brasileiro. As discussões tiveram como foco o envelhecimento e as condições crônicas, os acidentes e violências e a saúde mental, considerando seus impactos sobre a população e sobre o SUS, em diálogo com os desafios políticos e institucionais que se colocam no presente e no futuro próximo.
Envelhecimento e condições crônicas: transição demográfica e pressão sobre o sistema de saúde

Envelhecimento e condições crônicas: transição demográfica e pressão sobre o sistema de saúde
A primeira mesa discutiu o envelhecimento populacional e a elevada prevalência de condições crônicas no Brasil, com atenção aos desafios que esses processos colocam para o SUS nos próximos anos. O debate abordou os alcances e limites das respostas já existentes, bem como caminhos possíveis para qualificar o cuidado, reorganizar serviços e enfrentar as consequências sociais e sanitárias associadas a esse cenário.
A diretora do Departamento de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis do Ministério da Saúde, Letícia de Oliveira Cardoso, apresentou um panorama epidemiológico do país, com foco no cenário atual e nas tendências relacionadas às doenças crônicas não transmissíveis. A partir de dados sobre a magnitude do problema, ela destacou que a carga dessas condições se torna ainda mais expressiva entre pessoas idosas. “Pelo menos metade da população brasileira já vive com alguma doença crônica não transmissível. Quando a gente olha para a população com 60 anos ou mais, isso se torna ainda mais expressivo e traz desafios importantes para o sistema de saúde. A gente não quer atuar só sobre o óbito, mas prevenir fatores de risco e a morbidade”, afirmou.
A professora Sandhi Barreto, da UFMG, trouxe a perspectiva do curso de vida, destacando que o envelhecimento é atravessado por desigualdades sociais acumuladas ao longo do tempo: “As diferenças no envelhecimento não são aleatórias. Elas refletem desigualdades de renda, escolaridade, raça e condições de vida que se acumulam desde a infância”. A pesquisadora apresentou como políticas públicas que promovem educação, transferência de renda e acesso à saúde são fundamentais para garantir um envelhecimento mais saudável e equitativo.
A mesa foi moderada por Eduardo Melo (ENSP/Fiocruz), que conduziu o debate ressaltando a importância de articular o panorama epidemiológico com os desafios do SUS diante do envelhecimento populacional.
Acidentes e violências: um problema estrutural e persistente

Acidentes e violências: um problema estrutural e persistente
Na segunda mesa, o foco foi a magnitude e os determinantes das violências no Brasil, seus efeitos sobre a vida social e sobre a rede de atenção à saúde, além dos desafios colocados para sua prevenção e enfrentamento no âmbito do SUS. A pesquisadora Maria Cecília Minayo (ENSP/Fiocruz) ressaltou que o fenômeno deve ser compreendido como parte da estrutura social: “A violência é o uso intencional da força ou do poder, que pode resultar em lesão, morte ou sofrimento. É, antes de tudo, um problema social”, afirmou. Ela também destacou que os padrões de violência revelam desigualdades profundas: “O perfil de quem mata é muito semelhante ao de quem morre”.
A pesquisadora do Hospital das Clínicas/UFG Marta Maria Silva enfatizou o papel dos determinantes sociais e das ausências do Estado na produção das violências: “Pensar a violência exige reconhecer os vazios do Estado. Não existe solução única, precisamos de políticas públicas integradas e de longo prazo”. Ela destacou ainda a importância de iniciativas voltadas à juventude em territórios vulnerabilizados: “Quando jovens passam a acessar oportunidades, como educação e inserção produtiva, a perspectiva de futuro muda, e isso também é prevenção da violência”.
A mesa foi mediada por Claudia Moraes (IMS/UERJ), que destacou a centralidade das violências como tema de saúde pública e a necessidade de abordagens intersetoriais e reforçou que acidentes e violências impactam diretamente o SUS, sobrecarregando serviços de urgência.
Saúde mental: aumento do sofrimento e desafios no cuidado

Saúde mental: aumento do sofrimento e desafios no cuidado
Encerrando o seminário, a terceira mesa discutiu os desafios da saúde mental no Brasil, marcada pelo aumento do sofrimento psíquico e por lacunas na rede de atenção. A pesquisadora Rachel de Boni (ICICT/Fiocruz) destacou a necessidade de qualificar o debate sobre o tema: “Existe um risco de banalização dos diagnósticos. Nem todo sofrimento é um transtorno mental, mas também não podemos deixar de cuidar de quem precisa”. Ela também ressaltou a importância de enfrentar o estigma: “Reduzir o estigma em saúde mental é uma prioridade, isso envolve a sociedade e, também, os profissionais de saúde”.
Rachel também destacou o papel dos determinantes sociais da saúde mental e da necessidade de uma articulação multisetorial para o seu enfrentamento: “As pessoas estão morrendo por transtornos mentais. Existe uma relação direta: transtornos levam à pobreza e a pobreza agrava os transtornos. Precisamos avançar em dados, governança, estrutura e financiamento.”
O pesquisador Leon Garcia, da USP, destacou a relação entre saúde mental e desigualdades sociais: “A desesperança, especialmente entre jovens que não estudam nem trabalham, é um fator importante no sofrimento mental. Desigualdade e pobreza estão diretamente ligadas a esses quadros”. O debate também abordou a necessidade de fortalecer a rede de atenção psicossocial, garantir financiamento adequado e proteger os princípios da reforma psiquiátrica, com ênfase no cuidado territorial e na defesa dos direitos dos usuários.
Leon também enfatizou o papel das políticas sociais: “A redução do suicídio entre beneficiários do Bolsa Família mostra que a desigualdade é um fator central de sofrimento social.” Ele também chamou atenção para o subfinanciamento da área: “O orçamento da saúde mental não acompanhou o crescimento da demanda, o que limita a capacidade de resposta do sistema.”
A mesa foi moderada por Ana Paula Guljor (LAPES/ENSP/Fiocruz), que conduziu a discussão enfatizando os desafios atuais da rede de atenção psicossocial e a defesa dos princípios da reforma psiquiátrica.
Um debate estratégico para o futuro do SUS
Ao reunir diferentes atores e perspectivas, o seminário evidenciou que envelhecimento, violências e saúde mental são desafios atravessados por desigualdades sociais e que exigem respostas estruturais. As discussões apontaram para a necessidade de fortalecer o SUS, ampliar políticas de prevenção e promover maior integração entre setores.
O evento foi transmitido ao vivo pelo canal da ENSP no YouTube e integra um conjunto de atividades do Observatório do SUS que seguirá ao longo de 2026, com o objetivo de contribuir para o debate público e para a formulação de propostas para a saúde no país.
Confira a mesa da manhã: https://www.youtube.com/watch?v=KcpK4JXy6Xc
E da tarde: https://www.youtube.com/watch?v=qQ4pHXO973c
E da tarde: https://www.youtube.com/watch?v=qQ4pHXO973c
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