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‘É preciso indigenizar a produção de conhecimento’: ENSP recebe 1ª pesquisadora Indígena da Fiocruz

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Publicado em:17/04/2026

Por Bruna Abinara

 

A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) recebeu a primeira pesquisadora Indígena concursada da Fundação Oswaldo Cruz, Diádiney Helena de Almeida. Indígena mulher Pataxó, ela é historiadora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre e doutora em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Durante o doutorado, também se dedicou ao campo de Direitos Humanos, Políticas da Vida e Saúde Global, na Universidade de Coimbra. Agora, torna-se pesquisadora em Saúde Pública na ENSP/Fiocruz, no departamento de Endemias Samuel Pessoa (DENSP), e marca uma conquista histórica ao ser a primeira Indígena a integrar a instituição de saúde nessa posição. 

 

“Chegar à Fiocruz, em 2026, como primeira pesquisadora Indígena demonstra os desafios que a instituição ainda precisa encarar para enfrentar um longo histórico de exclusão e de ausências. Não é mérito ser a primeira ou a única, mas significa um caminho de reparação histórica de uma produção de ciência marcada pela ausência. Estou chegando, pisando devagar, mas não estou sozinha, carrego comigo esperanças e reivindicações que partem de estudantes e pesquisadores dos mais diversos Povos Indígenas do país”, declarou. 

 

Diádiney, desde 2019, tem uma trajetória de parceria com pesquisadores da ENSP, particularmente no projeto Vozes Indígenas na Produção do Conhecimento. “Não há romantismo, conheço as dificuldades do diálogo intercultural e da superação da subalternização e tutela nos espaços de produção de conhecimento. Uno minha coragem às de Indígenas pesquisadores que estão tensionando as relações de poder coloniais nos processos de ensino e de pesquisa”, afirmou. 

 

Reparação de uma história de ausências

 

Diádiney recorda que, durante sua formação, não teve professores Indígenas nem encontrou referências Indígenas na bibliografia dos cursos: “As nossas narrativas, vozes e corpos estavam totalmente ausentes”. Ela destaca, por exemplo, a falta de uma disciplina voltada para as histórias dos Povos Indígenas no curso de História. “Lembro que a primeira vez que fiz o vestibular e não fui aprovada, voltei para casa chorando e meu pai disse que a universidade pública não era um lugar para pessoas como nós. Não me conformei e tentei novamente, mas a universidade era um mundo onde as minhas experiências e trajetória de vida pareciam não ter lugar”, contou. 

 

A historiadora atribui sua construção enquanto educadora antirracista aos anos em que atuou como professora na educação básica: “Foi a ausência das histórias dos Povos Indígenas somada à constante reprodução de estereótipos e de práticas racistas que moldaram a minha trajetória profissional. Era urgente honrar a minha ancestralidade Pataxó. Fui superando o apagamento, movendo meu corpo e minhas ideias na afirmação de direitos no enfrentamento das desigualdades raciais na educação. Essa força ancestral me levou a sonhar e a acreditar que a universidade precisava, sim, ser espaço de atuação política crítica”.

 

Para Diádiney, a sala de aula é um espaço de afeto e de resistência política. “Ensinar é mobilizar nossos sonhos ancestrais e nossa potência, é a possibilidade de mover referências, fazendo desaguar os rios de conhecimentos Indígenas. Porém, há grandes desafios. Os espaços de formação ainda são marcados por mecanismos de exclusão e racismo, seja no acesso e na permanência de estudantes Indígenas, seja no conservadorismo e na inércia institucional em se comprometer com a promoção da equidade e o enfrentamento de assimetrias históricas. Por isso, uno minha voz à de outras Indígenas pesquisadoras para indigenizar os espaços de produção de conhecimento”. 

 

O poder do coletivo e do ancestral

 

“Antes de ser historiadora, sou filha de Ajoildes e Nilda e mãe de Helena. A minha família foi quem sempre amparou os meus sonhos e, por isso, cheguei até aqui”, enfatizou. Diádiney ainda reforçou a importância da trajetória compartilhada e da amizade: “Compartilhar angústias e dificuldades, mas também o sonho de ser professora, pesquisadora e autora de livros que pudessem provocar mudanças nos modos de se pensar e fazer ciência, bem como transformar esse cenário marcado por ausências e pelo não reconhecimento das referências intelectuais Indígenas”.