‘É preciso indigenizar a produção de conhecimento’: ENSP recebe 1ª pesquisadora Indígena da Fiocruz
Por Bruna Abinara
A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) recebeu a primeira pesquisadora Indígena concursada da Fundação Oswaldo Cruz, Diádiney Helena de Almeida. Indígena mulher Pataxó, ela é historiadora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre e doutora em História das Ciências e da Saúde pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). Durante o doutorado, também se dedicou ao campo de Direitos Humanos, Políticas da Vida e Saúde Global, na Universidade de Coimbra. Agora, torna-se pesquisadora em Saúde Pública na ENSP/Fiocruz, no departamento de Endemias Samuel Pessoa (DENSP), e marca uma conquista histórica ao ser a primeira Indígena a integrar a instituição de saúde nessa posição.
“Chegar à Fiocruz, em 2026, como primeira pesquisadora Indígena demonstra os desafios que a instituição ainda precisa encarar para enfrentar um longo histórico de exclusão e de ausências. Não é mérito ser a primeira ou a única, mas significa um caminho de reparação histórica de uma produção de ciência marcada pela ausência. Estou chegando, pisando devagar, mas não estou sozinha, carrego comigo esperanças e reivindicações que partem de estudantes e pesquisadores dos mais diversos Povos Indígenas do país”, declarou.
Diádiney, desde 2019, tem uma trajetória de parceria com pesquisadores da ENSP, particularmente no projeto Vozes Indígenas na Produção do Conhecimento. “Não há romantismo, conheço as dificuldades do diálogo intercultural e da superação da subalternização e tutela nos espaços de produção de conhecimento. Uno minha coragem às de Indígenas pesquisadores que estão tensionando as relações de poder coloniais nos processos de ensino e de pesquisa”, afirmou.
Reparação de uma história de ausências
Diádiney recorda que, durante sua formação, não teve professores Indígenas nem encontrou referências Indígenas na bibliografia dos cursos: “As nossas narrativas, vozes e corpos estavam totalmente ausentes”. Ela destaca, por exemplo, a falta de uma disciplina voltada para as histórias dos Povos Indígenas no curso de História. “Lembro que a primeira vez que fiz o vestibular e não fui aprovada, voltei para casa chorando e meu pai disse que a universidade pública não era um lugar para pessoas como nós. Não me conformei e tentei novamente, mas a universidade era um mundo onde as minhas experiências e trajetória de vida pareciam não ter lugar”, contou.
A historiadora atribui sua construção enquanto educadora antirracista aos anos em que atuou como professora na educação básica: “Foi a ausência das histórias dos Povos Indígenas somada à constante reprodução de estereótipos e de práticas racistas que moldaram a minha trajetória profissional. Era urgente honrar a minha ancestralidade Pataxó. Fui superando o apagamento, movendo meu corpo e minhas ideias na afirmação de direitos no enfrentamento das desigualdades raciais na educação. Essa força ancestral me levou a sonhar e a acreditar que a universidade precisava, sim, ser espaço de atuação política crítica”.
Para Diádiney, a sala de aula é um espaço de afeto e de resistência política. “Ensinar é mobilizar nossos sonhos ancestrais e nossa potência, é a possibilidade de mover referências, fazendo desaguar os rios de conhecimentos Indígenas. Porém, há grandes desafios. Os espaços de formação ainda são marcados por mecanismos de exclusão e racismo, seja no acesso e na permanência de estudantes Indígenas, seja no conservadorismo e na inércia institucional em se comprometer com a promoção da equidade e o enfrentamento de assimetrias históricas. Por isso, uno minha voz à de outras Indígenas pesquisadoras para indigenizar os espaços de produção de conhecimento”.
O poder do coletivo e do ancestral
“Antes de ser historiadora, sou filha de Ajoildes e Nilda e mãe de Helena. A minha família foi quem sempre amparou os meus sonhos e, por isso, cheguei até aqui”, enfatizou. Diádiney ainda reforçou a importância da trajetória compartilhada e da amizade: “Compartilhar angústias e dificuldades, mas também o sonho de ser professora, pesquisadora e autora de livros que pudessem provocar mudanças nos modos de se pensar e fazer ciência, bem como transformar esse cenário marcado por ausências e pelo não reconhecimento das referências intelectuais Indígenas”.
Em 2023, durante o Seminário “Avanços e Desafios da Saúde Indígena no Brasil”, realizado pela VPAAPS/Fiocruz, o grupo de Indígenas pesquisadores, líderanças e estudantes redigiram e entregaram a Carta “Demarcando e reflorestando a Fiocruz” com uma série de reivindicações à presidência da instituição. Entre elas, estava a demanda por ações afirmativas para Povos Indígenas nos concursos públicos da Fundação. Para Diádiney, o grupo de participantes Indígenas em projetos desenvolvidos pela Fiocruz, apontou a necessidade de avanços no fortalecimento do protagonismo e governança Indígenas, particularmente, em projetos em torno da saúde dessa população. “São urgentes políticas institucionais estratégicas voltadas para Povos Indígenas e irei me dedicar a esta agenda. Continuamos sonhando e reivindicando ações que promovam condições reais de ingresso e permanência para formação de Indígenas pesquisadores. Isso significa repensar modelos de seleção, de comunicação e de organização didático-pedagógica, mas, principalmente, significa admitir que o fazer ciência só será transformado quando as pessoas Indígenas também ocuparem e tomarem as decisões nesse espaço”, defendeu.
Foi na ENSP que Diádiney vivenciou o encontro com outros Indígenas pesquisadores no debate sobre produção intelectual. “Pensar os efeitos da colonização na produção científica, mas também semear a demarcação da ciência e do campo da Saúde Coletiva com as vozes Indígenas ganhou corpo junto às parentas de diferentes regiões do país com o projeto Vozes Indígenas na Produção de Conhecimento. Partilhar as experiências, debater estratégias e somar forças tem sido um processo de aprendizado coletivo, um propósito de vida e um caminho de rio feito coletivamente e em favor do fortalecimento e do reconhecimento da intelectualidade Indígena”, compartilhou.
É preciso indigenizar a produção de conhecimento
Diádiney ressaltou a importância de valorizar e respeitar a produção de conhecimento dos Povos Indígenas . Durante a pós-graduação, sua pesquisa esteve voltada para a compreensão das práticas de curandeiros, rezadeiras e outros curadores. “Pensar a saúde a partir das ciências Indígenas é considerar as tradições dos 395 povos originários do Brasil. Inclusive, é admitir as tecnologias de sobrevivência e de cuidados do corpo e do espírito mobilizados por povos que estiveram por muito tempo à margem não apenas das narrativas históricas, mas também das políticas públicas de saúde”. A pesquisadora contextualizou que, no Brasil, o projeto colonial utilizou o aparato do Estado com o objetivo de levar à morte e ao apagamento cultural desses povos.
“Por isso, é importante reconhecer as ciências Indígenas bem como o diálogo simétrico com os cientistas advindos dos diversos Povos Indígena. Romper com a lógica colonial que sempre extraiu e nunca reconheceu os saberes advindos dos territórios Indígenas é mais que urgente. Cientistas e instituições científicas precisam reconhecer os danos produzidos por práticas de pesquisa que historicamente trataram os Povos Indígenas como objetos de estudo, desrespeitaram suas culturas, violaram seus direitos e os representaram a partir de perspectivas que inferiorizaram, deslegitimaram e saquearam seus saberes”, argumentou.
Para a historiadora, a proteção da medicina Indígena depende diretamente da demarcação dos Territórios Indígenas: “As lutas estão conectadas. Portanto, minha atuação se orienta pelo compromisso com a saúde dos Povos Indígenas, compreendendo-a como uma agenda política estratégica, atravessada por traumas históricos e contemporâneos da colonização, cujas marcas ainda permanecem amplamente desconhecidas. Nesse sentido, quero atuar fomentando reflexões e práticas que promovam processos formativos inclusivos e anti-racistas, baseados no respeito, na escuta e na construção de relações simétricas, fortalecendo a liderança das pesquisadoras e pesquisadores Indígenas”.
Fotos: Arquivo Pessoal Diádiney Helena de Almeida



