Violência contra mulheres que vivem em contextos rurais exige políticas específicas e maior visibilidade nos dados
Série especial do 'Informe ENSP' destaca pesquisa do Claves/ENSP que evidencia como isolamento, desigualdades e invisibilidade ampliam vulnerabilidades em contextos rurais.
As violências contra mulheres que vivem em áreas rurais seguem pouco visibilizadas na produção científica e nas políticas públicas brasileiras. Uma revisão integrativa conduzida por pesquisadoras do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP) evidencia que essas mulheres enfrentam múltiplas formas de violência, frequentemente sobrepostas e naturalizadas, em contextos marcados por isolamento geográfico, desigualdades socioeconômicas e acesso limitado a serviços.
Em entrevista ao ‘Informe ENSP’, as pesquisadoras Liana Wernersbach Pinto e Luciane Stochero, analisam os principais achados do estudo e apontam caminhos para o fortalecimento de políticas públicas e estratégias de enfrentamento. O trabalho integra um conjunto mais amplo de investigações desenvolvidas há seis anos sobre o tema, que buscam romper a invisibilidade das violências vividas por mulheres do campo, da floresta e das águas.
Informe ENSP: O que motivou a realização desta revisão integrativa sobre violência contra mulheres que vivem em contextos rurais?
Liana Wernersbach Pinto e Luciane Stochero: O interesse por essa temática surgiu a partir do ingresso da pesquisadora Luciane Stochero no doutorado, cujo foco foi a violência contra mulheres que vivem em contextos rurais. Durante o desenvolvimento da tese, tornou-se evidente a escassez de estudos dedicados a essa problemática no contexto brasileiro, o que motivou a realização da revisão.
Embora a violência de gênero seja amplamente reconhecida como um grave problema de saúde pública e de direitos humanos, as experiências de mulheres em contextos rurais ainda recebem atenção limitada. Suas vivências frequentemente permanecem invisibilizadas, tanto na produção científica quanto nas políticas públicas.
Nesse sentido, o estudo buscou reunir e analisar a produção científica brasileira sobre o tema, identificando os diferentes tipos de violência e discutindo como as especificidades desses territórios influenciam essas situações. Características como isolamento geográfico, distância dos serviços e desigualdades de gênero podem ampliar a vulnerabilidade e dificultar o enfrentamento da violência.
Informe ENSP: Quais foram os principais tipos de violência identificados e o que mais chamou atenção nos resultados?
Liana Wernersbach Pinto e Luciane Stochero: A revisão identificou uma multiplicidade de violências, entre elas a violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial, frequentemente praticadas por parceiros íntimos ou no âmbito doméstico. Também surgem formas menos visíveis, como a desvalorização do trabalho feminino, a dependência financeira, o controle da liberdade e a sobrecarga de trabalho.
Em alguns estudos, foram relatados casos extremos, como feminicídio. Um aspecto que chama atenção é que essas violências frequentemente se sobrepõem e fazem parte do cotidiano das mulheres, sendo muitas vezes naturalizadas ou percebidas apenas quando deixam marcas físicas.
Isso revela o quanto a violência está profundamente enraizada nas relações sociais e de gênero presentes nesses territórios.
Informe ENSP: Como fatores como isolamento geográfico e desigualdades socioeconômicas influenciam essa realidade?
Liana Wernersbach Pinto e Luciane Stochero: Esses fatores têm um papel central na vulnerabilidade das mulheres em áreas rurais. A distância dos serviços de saúde, assistência social, segurança pública e justiça pode dificultar ou até impedir a busca por ajuda.
Além disso, a precariedade de transporte, a limitação de acesso à comunicação e a distância entre redes de apoio reduzem as possibilidades de proteção. Somam-se a isso desigualdades importantes, como menor acesso à renda, à terra e ao trabalho, o que pode gerar dependência financeira.
Esse conjunto contribui para que muitas mulheres permaneçam em situações de violência ou levem mais tempo para romper com elas.
Informe ENSP: Por que é importante diferenciar os contextos rural e urbano nos dados e pesquisas sobre violência?
Liana Wernersbach Pinto e Luciane Stochero: Essa distinção é fundamental porque as condições de vida, as relações sociais e o acesso a serviços são bastante distintos nesses territórios. Quando essa diferenciação não é feita, as especificidades da violência no meio rural acabam invisibilizadas.
Isso dificulta a compreensão do problema e a formulação de políticas públicas adequadas. Sem dados específicos, torna-se mais difícil dimensionar o fenômeno e planejar ações que considerem aspectos como distâncias geográficas e organização comunitária.
Melhorar a qualidade e o detalhamento das informações é, portanto, essencial para orientar estratégias mais efetivas.
Informe ENSP: Quais caminhos o estudo aponta para fortalecer o enfrentamento da violência contra mulheres em áreas rurais?
Liana Wernersbach Pinto e Luciane Stochero: É fundamental fortalecer políticas públicas que considerem as especificidades do meio rural, ampliando o acesso aos serviços de saúde, assistência social, segurança e justiça, especialmente em territórios mais distantes.
Também é importante investir em estratégias de informação e apoio nas próprias comunidades, fortalecendo redes locais de proteção. Além disso, políticas voltadas à autonomia das mulheres — como acesso à renda, à terra, à educação e a financiamentos — podem reduzir a dependência econômica.
O enfrentamento da violência precisa ser compreendido como um tema transversal, que articula políticas públicas, ações econômicas, processos formativos e transformação das relações sociais e de gênero. A forma como compreendemos essas violências determina diretamente as estratégias de enfrentamento.
Pesquisa contínua e articulação nacional
As pesquisadoras destacam que os estudos sobre violência contra mulheres em contextos rurais vêm sendo desenvolvidos há seis anos, articulando abordagens quantitativas e qualitativas. Entre as iniciativas, estão pesquisas com dados nacionais, estudos qualitativos com mulheres rurais e investigações sobre os impactos da pandemia de Covid-19 nessas populações.
O grupo também participou, a convite, do 1º Seminário do Fórum Nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres do Campo, da Floresta e das Águas, realizado em Brasília, contribuindo para o debate sobre diretrizes nacionais de enfrentamento e para a articulação em torno da agenda do feminicídio zero.
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