*Por Isabelle Ferreira
“O feminismo decolonial propõe o rompimento com a ideia de um ponto de partida universal e abstrato para o feminismo”. A afirmação consta em artigo publicado por Susana Castro, professora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/PPGF). Segundo ela, “não é possível falar em nome da mulher em abstrato, como propõe o feminismo tradicional, já que as experiências de vida e de história das mulheres são culturalmente diferenciadas”. Nesse sentido, a pesquisadora defende que é insuficiente promover mobilidade social para determinados grupos de mulheres se, na base da sociedade, persistem situações de exploração, baixos salários, falta de acesso à saúde e diferentes formas de violência.
Diante desse cenário, o Informe ENSP produziu uma série especial voltada a pesquisas coordenadas por mulheres do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP). A iniciativa busca ampliar a visibilidade sobre a diversidade de estudos desenvolvidos na instituição acerca das múltiplas dimensões de gênero e seus impactos na saúde pública.
Em entrevista ao ‘Informe ENSP’, a pesquisadora do Claves/ENSP Valéria Castro — também associada ao Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) e integrante do Grupo de Pesquisa Latinas da ENSP — fala sobre o desenvolvimento da pesquisa “Mulheres, interseccionalidade e feminismos na América Latina e Caribe: a organização de mulheres em busca da saúde e do enfrentamento às violências” e analisa os efeitos da colonialidade no agravamento das violências de gênero.
+Leia a entrevista na íntegra:
Informe ENSP: O que é e como é desenvolvida a pesquisa “Mulheres, interseccionalidade e feminismos na América Latina e Caribe: a organização de mulheres em busca da saúde e do enfrentamento às violências”?
Valéria Castro: Desde abril de 2025, participo da coordenação de um Grupo de Estudos (GE) no Brasil sobre Feminismos Decoloniais, Racismos e Saúde, vinculado ao Programa de Saúde Internacional e Soberania Sanitária. O grupo reúne pesquisadores com formação e experiência alinhadas ao pensamento crítico no Brasil e, em articulação com pesquisadoras de outros países da América Latina e do Caribe, desenvolve um estudo multicêntrico.
Meu interesse na pesquisa surgiu da possibilidade de ampliar os estudos desenvolvidos na minha tese de doutorado em Serviço Social pela UFRJ, concluída em 2021, que aborda a institucionalidade da agenda feminista no Conselho Nacional de Saúde (CNS) durante a pandemia de Covid-19.
O Grupo de Estudos também representa uma oportunidade de aprofundar análises sobre os efeitos do conservadorismo, que tem ameaçado direitos das mulheres em diferentes países, além de destacar a importância da organização feminista na garantia do direito à saúde.
Embora o estudo ainda esteja em andamento, já é possível identificar a reprodução de uma visão de sexo binário e a influência de pautas internacionais nos debates sobre gênero na produção da saúde coletiva brasileira.
Atualmente, desenvolvemos uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório sobre a colonialidade de gênero na produção acadêmica em saúde coletiva. Este trabalho conta com a pesquisadora Odeth Santos Madrigal, da Universidade Nacional Autónoma de México (UNAM), que compõe a equipe de coordenação regional do programa, que tem na coordenação geral o pesquisador Gonzalo Basile, da Argentina.
Informe ENSP: Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) indicam que ao menos 3.897 mulheres foram vítimas de feminicídio em 27 países da região em 2023. Como fortalecer o desenvolvimento de pesquisas diante do agravamento da violência de gênero?
Valéria Castro: É fundamental incentivar pesquisas baseadas na práxis, que articulem teoria, vivência e ação. Não podemos dissociar a produção de conhecimento das realidades concretas. Apesar dos desafios impostos pela violência armada em diversos territórios, que muitas vezes dificultam a realização de estudos e a implementação de políticas públicas, é essencial fortalecer metodologias participativas, baseadas na construção coletiva do conhecimento, na horizontalidade das relações e no engajamento crítico dos sujeitos.
A violência de gênero está profundamente relacionada a estruturas históricas como o patriarcado, o racismo e outras formas de opressão. Nesse contexto, a colonialidade se impõe como modus operandi de uma sociedade desigual e violenta.
Essas marcas também se manifestam na saúde, por meio da violência obstétrica, do racismo institucional, da exclusão de pessoas em situação de rua, da falta de acessibilidade para pessoas com deficiência e da desvalorização de saberes indígenas, entre outros fatores.
Em relação às mulheres, especialmente negras e indígenas, essas opressões históricas permanecem presentes na maioria dos países do chamado Sul Global.
A colonialidade também atravessa a produção de conhecimento, com implicações ético-políticas no campo da saúde. O pensamento decolonial, construído por mulheres indígenas, camponesas e negras, aponta para a necessidade de novas formas de compreender e transformar essas realidades.
No Brasil, o feminismo negro tem desempenhado papel fundamental ao denunciar as múltiplas formas de opressão. Autoras como Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Carla Akotirene e Djamila Ribeiro contribuem para o fortalecimento da interseccionalidade como ferramenta analítica e política.
O feminicídio, nesse contexto, pode ser compreendido como a expressão máxima de uma violência cotidiana, sustentada por relações de poder que historicamente privilegiam determinados grupos.
Na contemporaneidade, a velocidade de circulação de informações nas redes sociais contribui para a reprodução dessas dinâmicas. Por isso, as pesquisas precisam ir além dos dados estatísticos e considerar aspectos subjetivos e contextuais, incluindo a subnotificação e as limitações dos registros oficiais.
É fundamental fortalecer estudos que promovam o engajamento social, a comunicação e a reflexão crítica sobre os fatores que perpetuam a colonialidade de gênero e o racismo.
Informe ENSP: A complementaridade, a solidariedade, a cooperação e a justiça são fundamentais para fortalecer a organização das mulheres?
Valéria Castro: Sim. A luta das mulheres, em suas diversas expressões, deve considerar esses aspectos. Embora avanços importantes tenham sido conquistados, ainda vivemos em sociedades marcadas por profundas desigualdades. Essas diferenças também se refletem no campo acadêmico e na produção de conhecimento.
Na minha tese, trabalhei com quatro categorias de análise: mobilização, resistência, organização e representatividade. Elas ajudam a compreender o feminismo como um movimento dinâmico e potente no enfrentamento às violências.
Hoje, vemos mulheres ocupando espaços historicamente masculinos. No entanto, ainda enfrentam desafios para permanecer nesses locais, especialmente em áreas como ciência e tecnologia.
A análise interseccional e decolonial é fundamental para compreender e enfrentar essas desigualdades.
Informe ENSP: Como a pesquisa contribui para os debates sobre a Agenda 2030 e a equidade de gênero?
Valéria Castro: A pesquisa contribui ao fortalecer articulações entre mulheres de diferentes países da América Latina, promovendo o enfrentamento conjunto das opressões.
Na saúde coletiva, também permite refletir sobre como a produção científica pode reproduzir desigualdades ou contribuir para transformações sociais.
A Agenda 2030 impulsiona debates importantes, mas também exige reflexão crítica sobre o papel dos organismos internacionais e sobre a necessidade de considerar as demandas reais das populações.
O idioma ainda é uma barreira importante. Por isso, o uso de tecnologias e o incentivo ao aprendizado de línguas são fundamentais para ampliar a troca de conhecimentos entre países.
Informe ENSP: Como o Claves atua diante dos impactos de fatores como raça, território e classe social na garantia de direitos das mulheres?
Valéria Castro: O Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES) é um departamento dedicado aos estudos sobre violência e saúde e tem contribuído significativamente para esse campo.
A equipe reúne, majoritariamente, mulheres com trajetória consolidada, desenvolvendo pesquisas que articulam abordagens qualitativas e quantitativas.
Também participo de iniciativas como seminários nacionais e pesquisas sobre mulheres em situação de rua e mulheres migrantes, que evidenciam as múltiplas formas de violência e as estratégias de resistência.
Além disso, estamos desenvolvendo um curso sobre Participação Social e Gestão em Saúde, voltado a movimentos sociais, com foco em gênero.
A contribuição de referências como Cecília Minayo também é fundamental para o fortalecimento da pesquisa qualitativa em saúde e dos estudos sobre violência.
*Referência
DE CASTRO, Susana. Feminismo Decolonial. Princípios: Revista de Filosofia (UFRN), v. 27, n. 52, p. 213–220, 2020. DOI: 10.21680/1983-2109.2020v27n52ID19785.
*Estagiária, sob supervisão da equipe de Jornalismo do Informe ENSP.