Residência Multiprofissional em Saúde da Família da ENSP/Fiocruz: 20 anos formando profissionais para fortalecer o SUS
Em entrevista, as coordenadoras Ana Laura Brandão e Karla Meneses Rodrigues fazem um balanço das duas décadas do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família da ENSP/Fiocruz, destacando a formação de cerca de 600 profissionais, a integração ensino-serviço, a produção crítica dos residentes e os desafios futuros da Atenção Primária à Saúde no Brasil. O Programa celebra seus 20 anos de trajetória, reafirmando o compromisso institucional com a formação de profissionais capazes de fortalecer a Atenção Primária à Saúde e qualificar o cuidado no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Criado com o propósito de integrar de forma estreita o processo de formação profissional ao processo de trabalho em saúde, o Programa desenvolve atributos essenciais às equipes multiprofissionais da Atenção Primária, envolvendo enfermeiros, cirurgiões-dentistas, farmacêuticos, profissionais de educação física, assistentes sociais, nutricionistas e psicólogos. Sua proposta curricular foi construída de maneira coletiva, em diálogo com profissionais da Estratégia Saúde da Família do município do Rio de Janeiro, por meio de oficinas que identificaram as categorias profissionais mais adequadas às necessidades regionais e as competências requeridas para o exercício qualificado na área.
Ao longo desses 20 anos, o Programa tem se orientado por três áreas de competência que estruturam sua formação — Organização do Processo de Trabalho; Cuidado à Saúde nos âmbitos individual, familiar e coletivo; e Educação e Formação em Saúde — realizando atividades que articulam capacidades e desempenhos observáveis, entendidos como elementos fundamentais para a prática profissional. A concepção pedagógica adotada baseia-se na relação docente-assistencial entre a instituição formadora e os serviços de saúde e utiliza a problematização como metodologia orientadora, estimulando a identificação de problemas reais e a construção de soluções adequadas aos contextos de atuação.
Na quinta-feira, 18 de dezembro, um evento comemorativo marcará as duas décadas da RMSF. Saiba mais sobre a atividade.
Confira, abaixo, a entrevista com as coordenadoras da Residência Multiprofissional em Saúde da Família da ENSP/Fiocruz.
Informe ENSP: Quantos profissionais foram formados pelo Programa ao longo desses 20 anos?
Informe ENSP: Quais mudanças foram observadas no perfil dos residentes ao longo das duas últimas décadas?
Ana Laura Brandão e Karla Meneses Rodrigues: Ao longo das duas últimas décadas, o perfil dos residentes mudou pouco, mas sempre refletindo as demandas crescentes do SUS e as transformações sociais. Ainda predominam profissionais recém-formados, mas que de alguma maneira estão dispostos a mergulhar na prática da multiprofissionalidade. A partir de 2016, foram incorporados residentes de farmácia e educação física, ampliando a diversidade de saberes e promovendo equilíbrio nas equipes.
Informe ENSP: E na produção deles em termos de temas e abordagens nos trabalhos de conclusão? Houve mudanças e novas tendências nesses anos?
Ana Laura Brandão e Karla Meneses Rodrigues: Sim, houve uma evolução marcante nos Trabalhos de Conclusão de Residência (TCR), que são coletivos e multiprofissionais, expressando competências em organização do cuidado, processo de trabalho e educação em saúde. Nos anos iniciais (2005-2010), os temas eram mais descritivos, focados em diagnósticos situacionais territoriais, história da ESF, abordagem familiar (com ferramentas como familiograma e ecomapa) e desafios urbanos, como violência em favelas, com abordagens reflexivas baseadas na problematização freireana e educação popular.
A partir de 2012, com a ampliação do antigo Núcleo de apoio ao Saúde da família (NASF) e da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), surgiram tendências de realização de projetos de intervenção, com temas de matriciamento, promoção da saúde e atenção biopsicossociais, com maior integração interprofissional e "borramento" das categorias profissionais. Durante a pandemia de Covid 19 (2020-2022), todos os TCRs incorporaram temas emergentes diante do cenário tão complexo vivido no cotidiano da sociedade e dos processos de trabalho as unidades básicas de saúde (com temas como a insegurança alimentar, saúde mental dos trabalhadores, combate a fake news, teleatendimentos e reorganização de fluxos na APS, com abordagens ágeis, intersetoriais e uso de tecnologias leves, incluindo narrativas reflexivas).
Essa tendência reflete uma produção transformadora, alinhada às crises e dilemas do SUS, com ênfase em equidade e resiliência.
Informe ENSP: Como a proposta pedagógica, baseada na integração ensino-serviço e na problematização, se transformou ou se fortaleceu nesses 20 anos?
Ana Laura Brandão e Karla Meneses Rodrigues: A proposta pedagógica, ancorada na integração ensino-serviço e na problematização da realidade (inspirada em Paulo Freire), se fortaleceu ao longo dos 20 anos, evoluindo de uma estrutura inicial coletiva via oficinas com a SMS-Rio para um modelo maduro de cogestão. Iniciamos com Unidades de Aprendizagem (UA) encadeadas, Diários Reflexivos (DR) e ciclos de debates para construção compartilhada do conhecimento, integrando teoria e prática em cenários das Clínicas da Família.
Ao longo dos anos, incorporamos avaliação formativa por competências (cognitivas, motoras e atitudinais), o fortalecimento da COREMU e estágios, optativos e externos, tendo ainda a modalidade de estágios internacionais (ex.: Brasil-Cuba desde 2015 e o de região de fronteira Brasil/Uruguai em 2025), promovendo educação interprofissional.
Informe ENSP: De que forma o Programa tem acompanhado e respondido às mudanças nas políticas públicas de Saúde da Família e na organização da Atenção Primária no município e no país?
Ana Laura Brandão e Karla Meneses Rodrigues: O Programa tem acompanhado e respondido ativamente às mudanças nas políticas públicas de Saúde da Família e na organização da APS, por meio de parcerias institucionais e adaptações curriculares que integram o SUS como eixo central. Desde sua criação em 2005, em articulação com a SMS-Rio e o Ministério da Saúde, alinhamo-nos à expansão da ESF e a Política da Atenção Básica incorporando competências em matriciamento e vigilância em saúde. Assim como acompanhamos também as mudanças na APS no município do Rio de Janeiro e sua ampliação de cobertura.
Tudo isso em diálogo com os territórios dos cenários de prática, que em geral são territórios vulneráveis, promovendo ações intersetoriais.
Destacamos ainda a formação de preceptores realizada pelo programa anualmente.
Informe ENSP: Como os egressos do Programa têm contribuído para os serviços de saúde e para a formação de novos profissionais na Atenção Primária?
Ana Laura Brandão e Karla Meneses Rodrigues: Nossos egressos têm contribuído de forma transformadora para os serviços de saúde e para a formação em APS, com um percentual altíssimo de empregabilidade – próximo a 90% nos primeiros meses pós-formação – e atuação em diversos lugares do SUS, de unidades básicas a gestões municipais e federais. Eles ocupam funções estratégicas na assistência, no matriciamento em equipes ESF, e em gestão, promovendo resolutividade por onde passam.
Na formação de novos profissionais, atuam como preceptores e tutores em programas de residência, incluindo o nosso, e em educação permanente, fomentando multiprofissionalidade e problematização e atuando também na supervisão de núcleo profissional.
Informe ENSP: Quais são as principais perspectivas e desafios para o futuro da residência, especialmente diante das transformações no SUS e na formação em saúde?
Ana Laura Brandão e Karla Meneses Rodrigues: As perspectivas para o futuro da residência são promissoras, com ênfase na expansão da multiprofissionalidade e na inovação para o SUS, como a integração de tecnologias digitais e intersetorialidade para enfrentar desigualdades. Vislumbramos maior cooperação com SMS/RJ e o MS, assim como manutenção dos estágios internacionais para enriquecer a formação.
No entanto, os desafios são substanciais: o baixo orçamento do SUS e precarização de equipes; a formação em saúde ainda fragmentada e a necessidade de formação contínua de preceptores em contextos de alta rotatividade de profissionais. Seria ideal que os preceptores tivessem garantido um período dentro de seu processo de trabalho exclusivo para preceptoria dos residentes, com incentivos financeiros assegurados como forma de reconhecimento ao trabalho nessa importante função formadora.
Além disso, impactos de mudanças climáticas e sociais demandam adaptações ágeis, para superá-los, apostamos na formação no SUS e para o SUS.
Lutamos pela valorização da residência como um motor de transformação, garantindo uma formação crítica para o SUS desde a criação do Programa, hoje e no futuro.
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