Pesquisadores da ENSP participam de Sala de Situação sobre casos de intoxicação por metanol
Dois pesquisadores do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP) foram designados pela Fiocruz para compor a Sala de Situação criada pelo Ministério da Saúde em resposta aos casos de intoxicação por metanol associadas ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Thelma Pavesi e Sergio Rabello Alves, que atuam no Laboratório de Toxicologia do Cesteh, têm longa trajetória acadêmica no desenvolvimento e na aplicação de estratégias analíticas de diferentes substâncias de relevância toxicológica, incluindo o metanol. Eles também colaboram em estudos de avaliação e gerenciamento do risco químico, associados a essas exposições em seres humanos e compartimentos ambientais.
Confira abaixo a entrevista concedida pelos pesquisadores Thelma Pavesi e Sergio Rabello Alves ao Informe ENSP.
Informe ENSP: Qual é a utilidade recorrente do metanol?
Thelma Pavesi: O metanol é um álcool muito versátil, com aplicações práticas principalmente na indústria química, sendo matéria-prima essencial para a fabricação de formaldeído (usado em resinas e painéis de madeira), ácido acético (para plásticos como o PET) e biodiesel. Além de ser solvente industrial e anticongelante, o metanol está ganhando destaque como combustível alternativo, especialmente para o transporte marítimo (metanol verde) e na geração de eletricidade em células de combustível, devido ao seu potencial de queima mais limpa. Por outro lado, no etanol combustível não é esperada a adição de metanol. Trata-se de uma substância altamente tóxica, que exige manuseio cuidadoso.
Informe ENSP: O que os órgãos competentes dispõem sobre o uso do metanol em bebidas alcoólicas e alimentos?
Sergio Rabello Alves: O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), por meio da Instrução Normativa (IN) nº 13/2005, estabelece os limites restritivos de metanol em bebidas alcoólicas (20 mg de metanol para cada 100 mL de álcool anidro, o que equivale a 0,02% ou 0,2 partes por bilhão). Análises realizadas pela polícia científica de São Paulo, estado que concentra a maioria dos casos, dão conta de percentuais de metanol nas bebidas destiladas acima de 30%, ou seja, mais de 1,5 mil vezes o limite permitido pela legislação. Isso representa um grave risco à saúde individual e coletiva.
Portanto, a ingestão de metanol, mesmo em pequenas quantidades, pode causar danos graves e irreversíveis à saúde, incluindo cegueira e falência de órgãos, e até morte. Do ponto de vista epidemiológico, os surtos costumam estar associados ao consumo de bebidas alcoólicas falsificadas, sobretudo em territórios vulnerabilizados, com sistemas de diagnóstico, fiscalização e/ou controle sanitário frágeis. Nos últimos 27 anos, foram registrados mais de 40 mil casos de intoxicação por metanol no mundo, com cerca de 14 mil mortes.
Informe ENSP: Por que o metanol é tão tóxico?
Thelma Pavesi: No fígado, é produzida a álcool desidrogenase (ADH), a mesma enzima que metaboliza o álcool etílico. Essa enzima transforma o metanol em substâncias como o formaldeído, altamente reativo e tóxico, e o ácido fórmico, que prejudica o fígado, os rins e, principalmente, a visão. Os efeitos decorrentes das intoxicações agudas observados ocorrem devido ao acúmulo desses subprodutos, especialmente o ácido fórmico, que pode causar cegueira permanente e acidose metabólica.
Thelma Pavesi, Rita Mattos e Sergio Rabello Alves no Cesteh/ENSP
Informe ENSP: Qual é a dose letal do metanol em seres humanos? Quais são os principais sintomas associados a esses casos?
Sergio Rabello Alves: Estudos científicos indicam que, para uma pessoa de 70 kg, uma dose em torno de 56 gramas de metanol pode ser letal, o que equivale a uma concentração aproximada de 0,63 grama por litro de sangue. Na prática, cerca de 50 mL de metanol puro (100%) podem ser suficientes para causar a morte, enquanto aproximadamente 10 mL já podem provocar cegueira permanente, mesmo com tratamento médico.
Tais gradações nos efeitos clínicos e respectivos desfechos observados são proporcionais e estão associadas aos percentuais de pureza ou grau de diluição do metanol na bebida, ao número de doses ingeridas, se o estômago estava repleto ou vazio, bem como a variáveis individuais relacionadas às funções hepáticas e renais.
A intoxicação por metanol é uma emergência médica grave cujos sintomas iniciais, como dor de cabeça, tonturas, náuseas e dor abdominal, podem ser confundidos com uma forte embriaguez ou ressaca ocasionada pelo álcool etílico de uso recreacional, o que pode atrasar a busca de atendimento. O ácido fórmico é extremamente tóxico e causa danos graves aos órgãos e ao sistema nervoso central, com efeitos devastadores sobre o nervo óptico e o cérebro. Os sinais mais característicos e mais alarmantes são alterações visuais, que vão desde visão turva e sensibilidade à luz até cegueira permanente, frequentemente descrita como uma "tempestade de neve". A progressão da intoxicação leva a dificuldades respiratórias, comprometimento hepático e renal, convulsões e coma, devido à intensa acidez no sangue.
Informe ENSP: Que exames toxicológicos são os mais indicados para fins assistenciais? Qual é o material biológico mais apropriado?
Thelma Pavesi: O exame padrão-ouro para identificação e quantificação dos níveis de metanol é a cromatografia gasosa (CG) acoplada a um detector de ionização em chama (DIC), utilizando uma técnica de extração em espaço confinado. Também é possível obter maior seletividade substituindo o DIC por um detector de espectrometria de massas.
Independentemente da estratégia, a velocidade analítica e a rapidez da emissão do resultado são cruciais para o diagnóstico diferencial, manejo terapêutico e confirmação do caso sob o olhar epidemiológico. O sangue (soro ou plasma) é o material biológico ideal para as boas práticas de diagnóstico e manejo do paciente intoxicado por metanol.
Sergio Rabello Alves: Podemos contribuir de forma técnica e científica sobre a revisão dos fluxos de diagnóstico analítico laboratorial, sob o olhar da toxicologia aplicada aos aspectos conceituais e basilares das análises toxicológicas de emergência. A ideia é aperfeiçoar a caracterização dos quadros de saúde dos pacientes expostos ao metanol, objetivo central deste importante fórum do Ministério da Saúde.
Informe ENSP: O que foi realizado até o momento? Qual é a frequência dos encontros na Sala de Situação?
Thelma Pavesi: A Sala tem monitorado e analisado os casos. O relatório epidemiológico mais recente, de 17 de outubro, aponta para dez mortes confirmadas, sendo oito no estado de São Paulo e duas em Pernambuco. Até o momento, há 46 casos de intoxicação por metanol confirmados, com 82,6% localizados em São Paulo e o restante distribuído por Paraná (8,7%), Pernambuco (6,5%) e Rio Grande do Sul (2,2%). Estão sendo investigados 87 casos e oito óbitos suspeitos em vários estados.
A Sala de Situação realizou um excelente trabalho na elaboração de um fluxograma de diagnóstico, monitoramento e manejo do paciente intoxicado, voltado para as unidades de emergência e urgência do SUS. Tal esforço, em tempo recorde, contou com a colaboração de experts de diferentes associações e sociedades científicas, bem como de profissionais do SUS e dos próprios profissionais qualificados do MS.
Acabamos de revisar o Plano de Ação da Sala de Situação, sobre o qual pontuamos aspectos técnicos associados à utilização de amostra padrão-ouro para fins de efetivo diagnóstico, manejo do paciente e otimização do registro epidemiológico. Está em discussão neste colegiado a atualização de uma nota técnica que trata dos aspectos operacionais associados à tríade diagnóstico-tratamento-epidemiologia dos casos.
Em relação à frequência, neste momento estamos em uma transição de três para duas reuniões semanais, a fim de manter a atualização dos casos e o assessoramento operacional junto às secretarias estaduais de saúde impactadas. Temos contado com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Polícia Federal, bem como as respectivas polícias científicas estaduais, o MAPA e os diversos setores e estruturas organizacionais do próprio MS. Aliado a todo o esforço do governo federal, é importante a adoção de comportamento de consumo cauteloso por parte da população, que contribuirá para minimizar o risco de intoxicação evitável.
Informe ENSP: Qual é a perspectiva? Do ponto de vista da precaução, o que recomenda?
Sergio Rabello Alves: Com as ações repressivas por parte das polícias judiciárias federal e das polícias civis das unidades federativas impactadas, do MAPA e do próprio Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, a tendência é que os casos diminuam. Como medidas de precaução, recomendo que a população adquira produtos apenas em estabelecimentos confiáveis e autorizados, que seja realizada verificação criteriosa da embalagem e do lacre, em busca de sinais de violação, que se desconfie de preços muito abaixo do mercado, que se evite o consumo de bebidas artesanais ou caseiras sem controle de qualidade e que se denuncie às autoridades competentes qualquer suspeita de adulteração, contribuindo assim para a segurança coletiva.
Como aprendizado, entendo que urge a necessidade de fortalecimento das instâncias de diagnóstico laboratorial/assistencial, principalmente de uma rede de centros de intoxicação (com laboratórios de análises toxicológicas de emergência operacionais), atuando efetivamente em cada estado, sem prejuízo do fortalecimento das estruturas de diagnóstico dos Laboratórios de Referência (LACENs). Além disso, é necessário intensificar as ações de fiscalização sanitária e de vigilância epidemiológica, com atenção especial ao fluxograma de registros nos Sistemas de Informação em Saúde (SISs). Tais desafios corroboram para que o Estado brasileiro, nas três esferas, possa garantir o direito à saúde. Nesse sentido, reitero aqui a necessidade de reconstrução e fortalecimento das ações diagnósticas e de regulação do SUS, como pilar fundamental ao real enfrentamento não só desta, mas de futuras demandas de intoxicações e exposições químicas diversas.
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