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Desnaturalização de desastres: pesquisadora da ENSP fala sobre o caso de Petrópolis

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Publicado em:10/03/2022

Crédito foto: Agência Brasil

O cenário de catástrofe e destruição na cidade de Petrópolis se repetiu no início de 2022, pouco mais de uma década depois do último desastre climático na Região Serrana fluminense. A catástrofe poderia ter sido evitada, mais uma vez, como explica a pesquisadora da ENSP, Simone Oliveira, com investimentos para redução de problemas históricos que são negligenciados.

Segundo ela, a cidade de Petrópolis é vítima da combinação de vulnerabilidades institucionais do poder público e socioambientais, relativas aos modos de ocupação dos territórios. Para a pesquisadora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da ENSP, as cidades serranas necessitam urgentemente de investimentos para resolução de problemas. Para isso, é fundamental envolvimento ativo, deliberativo e democrático da população.

Em entrevista ao 'Informe ENSP', Simone Oliveira, fala sobre o desastre na cidade de Petrópolis - destacando como é possível minimizar danos - e sobre o Programa Cidades Resilientes para Redução de Desastres, além de explicar como a ENSP/Fiocruz está se mobilizando nas ações de apoio à cidade. 

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra:

Informe ENSP: Porque esse tipo de desastre acontece com frequência na cidade de Petrópolis?


Simone Oliveira: Os nexos sócio históricos são sempre mais determinantes que as ameaças naturais. Quando falamos de mudanças climáticas e do aumento desses eventos, as vulnerabilidades sociais e territoriais são decisivas para as consequências. Nesta perspectiva apontamos a importância da desnaturalização da concepção dos desastres. 

A materialização do desenvolvimento humano em um território é o que determina a extensão, a violência de danos, e de perdas de vidas, e também sua frequência. Esse é o caso das cidades serranas, que submetidas às condições do seu terreno não se preparam e nem buscam mitigar de maneira eficiente o que a população conhece tão bem: o regime de chuvas intenso na região, que aponta acirramento devido às mudanças climáticas induzidas pelo desenvolvimento humano. 

A cidade de Petrópolis, dessa forma, é vítima de uma combinação de vulnerabilidades institucionais do poder público - sendo o pode público o maior responsável - e socioambientais, relativas ao modo de ocupação dos territórios. Nesse sentido, as cidades serranas necessitam urgentemente de investimentos para mitigação de problemas históricos negligenciados, buscando mudar seus modos de vida para enfrentar os próximos desafios. Isso significa envolvimento ativo, deliberativo e democrático de toda a população.


Informe ENSP: Como é possível minimizar os danos?


Simone Oliveira: Nesse momento precisamos enfrentar os problemas que se dobram uns sobre os outros e que provocam vulnerabilidade ampliada. Porém, a médio e longo prazo, é preciso ir além das ações de infraestrutura e planejamento, contando intensamente com forte participação social. 

É necessário que segurança e sustentabilidade socioambiental sejam incorporadas nos modos de construção e de governança da cidade. Isso inclui amplo processo de educação que começa nas escolas, com crianças e jovens. A cultura da prevenção cidadã deve pertencer às cidades. Para isso, é preciso enfrentar as vulnerabilidades institucionais, com ação intersetorial e reconhecendo os diferentes níveis de complexidade. Além disso, é fundamental fortalecer os coletivos de trabalhadores das emergências e desastres em diálogo com a população.

Informe ENSP: Como o Programa Cidades Resilientes para Redução de Desastres pode ajudar a solucionar a questão?


Simone Oliveira: O Programa Cidades Resilientes organiza as ações necessárias para atingir a cultura de prevenção cidadã. No entanto, esse processo não é perseguido apenas em uma via. É preciso transformar os indicadores. Agir, não apenas assinar o programa pelo desejo de querer ser uma cidade resiliente e apenas ostentar o título. 

O programa estava próximo de chegar a 500 cidades brasileiras inscritas. Porém, desejar não é, de forma alguma, ser. Uma cidade só se torna resiliente se a sua população está envolvida ativamente. O selo cidade resiliente não pode ser oco e deve promover o desenvolvimento de demandas e necessidades sociais, tendo como horizonte que as mudanças climáticas em curso.

Informe ENSP: Diante do cenário do desastre muitas pessoas estão sendo levadas para abrigos. No contexto da pandemia, como alertar sobre as medidas de prevenção da Covid-19?


Simone Oliveira: Nos 19 abrigos públicos criados em Petrópolis – que estão sendo acompanhados pelo Ministério Público, Defensorias e Sociedade Civil organizada – está se realizando o monitoramento da infecção e casos positivos estão sendo destinados a dois abrigos específicos.  No entanto, sabemos que o risco do aumento dos níveis de infecção é grande e exige atenção. É preciso estar atento a outras doenças associadas a estes eventos também, como a leptospirose, ligada a contaminação pela circulação de ratos, e já denunciada por algumas comunidades que vivem infestação. 

Informe ENSP: Como a ENSP/Fiocruz, através dos grupos de pesquisas e projetos, está atuando nesse momento para ajudar a cidade de Petrópolis?


Simone Oliveira: O grupo está se mobilizando em diversos níveis, participando de discussões para conformação de protocolos mínimos de apoio às ações de recuperação. Estamos acompanhando e subsidiando o Ministério Público em Petrópolis, para registro das ações, no intuito de elaborar uma memória que consolide as principais estratégias. Além de participar de encontros públicos com associações de representantes de atingidos no Centro de Defesa de Direitos Humanos (CDDH). 

Estamos organizando, também, um encontro virtual com esses diversos atores. O seminário “Como a desnaturalização de Desastres explica Petrópolis”, acontece nesta quinta-feira, 10 de março, às 18h30. Na ocasião do seminário será lançada a Revista Ciência & Trópico. A publicação traz o dossiê do encontro realizado em outubro de 2021, que teve como foco debater o caso de Petrópolis com a saúde, defesa civil, organizações comunitárias e pesquisadores.

Confira, abaixo, a programação completa do seminário.




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