Busca do site
menu

Estudo vai revelar barreiras e facilitadores de acesso à Atenção Primária: confira entrevista com pesquisadoras

ícone facebook
Publicado em:10/10/2025
Por Danielle Monteiro

A pesquisa 'Barreiras e Facilitadores do Acesso aos Serviços de APS do SUS no Brasil: Perspectivas Organizacionais e Demandas dos Usuários'’ deve trazer resultados relevantes em busca do avanço na Atenção Primária no Brasil. A iniciativa integra o ‘Projeto de Estudos Estratégicos em Atenção Primária à Saúde (EEAPS)’, fruto de parceria da ENSP com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde (SAPS/MS), coordenado pela Vice-Direção de Pesquisa e Inovação (VDPI/ENSP) e Vice-Direção de Escola de Governo em Saúde (VDEGS/ENSP).

Vera Lucia Luiza, Mirna Teixeira e Carla Pereira, respectivamente coordenadora, vice-coordenadora e pesquisadora convidada do estudo, explicam como ele está sendo desenvolvido e apontam os resultados esperados. Confira:

Quais são os objetivos da pesquisa, como ela será desenvolvida e quais são os principais resultados esperados?


Vera Luiza: Nosso principal objetivo com esse estudo é entender e analisar as principais barreiras e facilitadores do acesso à Atenção Primária no SUS, captando tanto a perspectiva do usuário quanto a do sistema. O acesso é essencialmente uma experiência vivenciada pelas pessoas. Por mais que o sistema promova iniciativas e desenvolva esforços, quem vai perceber se isso está ou não funcionando é o usuário, por isso, consideramos fundamental ouvi-lo. Queremos abordar tanto o usuário que está na Unidade de Saúde experimentando o serviço, quanto representantes de usuário nos conselhos municipais, estaduais e nacional, porque são as pessoas que fazem essa discussão.

Tendo em vista o escopo do projeto e a forma como conseguimos organizá-lo e partindo da ideia de entender os processos, optamos por uma pesquisa qualitativa na maioria das abordagens. 

Por outro lado, na perspectiva do sistema, pretendemos olhar e capturar as diferentes perspectivas: do gestor estadual, municipal e do gerente da unidade, além de diferentes profissionais, como o agente comunitário de saúde, médico, enfermeiro e dentista. 

O projeto permite a combinação de diferentes abordagens, iniciando por uma revisão de escopo para entendermos como o acesso à APS tem sido abordado na literatura nacional. O Brasil tem uma riqueza muito grande de bases secundárias que não estão ainda organizadas para essa questão do acesso, então, pretendemos capturar bases, tanto contínuas de informação continuada, quanto de inquéritos, que são bases periódicas. 

Os principais resultados esperados são um painel de indicadores e um painel informativo na linha do Sistema de Apoio à Gestão, com indicadores de acesso para orientar os gestores dos diferentes níveis; assim como a identificação de barreiras e facilitadores e, sobretudo, das estratégias que vêm sendo usadas na ponta, na realidade das unidades e dos municípios, para lidar com a forma com que esses locais têm enfrentado esses problemas de acesso.

Assista ao vídeo sobre a pesquisa:





De acordo com pesquisa integrante do programa ‘Mais Dados Mais Saúde’, divulgada esse ano, 62,3% dos brasileiros que precisam de atendimento médico na Atenção Primária não buscam ajuda profissional. Entre os motivos para essa decisão, foram citadas a superlotação e demora no atendimento, além da burocracia no encaminhamento. O que explica esses dados?  


Vera Luiza: Os achados são muito interessantes. Estamos em um momento muito rico de pesquisas em andamento. Torço para que o Ministério da Saúde coloque essas pesquisas para dialogar, potencializando seus achados e recomendações. Todo este esforço e conhecimento produzido precisa ser traduzido em ações e abranger os diferentes atores, incluindo o controle social.

Especificamente sobre esta mencionada, a ‘Mais Dados Mais Saúde’, chama a atenção que em um modelo de cuidado que é territorializado e no qual cada equipe e unidade tem sua população adstrita claramente definida, a superlotação siga como um problema real, assim como a demora no atendimento. E isso leva a questões diversas de como as equipes conseguem interagir nos diversos territórios do Brasil. Isso vai desde áreas com baixíssima densidade populacional, como na Região Amazônica, onde as equipes têm que se deslocar muito para dar conta da sua população, até em municípios com população rural, que gera grandes deslocamentos até as Unidades de Saúde. 

Assim como os demais problemas, a burocracia no atendimento e a crença de que o problema não era grave, já está bem demonstrado nos trabalhos pioneiros. A percepção da gravidade do estado de saúde é muito determinada pelos determinantes sociais da saúde, como o nível socioeconômico, ocupação e grau de vulnerabilidade dos indivíduos. A autopercepção de necessidade em saúde tem muito a ver com a reprodução da força de trabalho e a prática de automedicação, que foi outro problema encontrado pela pesquisa. E certamente tem muito a ver com outras questões: o usuário opta por expressar o seu problema como não grave e, com isso, faz a automedicação, o que, consequentemente, gera novos problemas que o sistema de saúde precisa abordar. 

Este estudo sobre o qual conversamos foi essencialmente quantitativo. No nosso caso, estamos apostando na metodologia qualitativa, que conversa muito bem com essas abordagens mais quanti, que se predispõem a tentar entender o que esses números escondem. No nosso caso, a abordagem quanti se dá com o uso de bases secundárias, buscando potencializar o uso de informações já disponíveis. É justamente nesses pontos que a nossa pesquisa pretende contribuir. 

Quais são os principais desafios no acesso aos serviços de Atenção Primária no SUS que tornam esse cenário tão preocupante? 


Mirna: São muitos desafios que a literatura e outras pesquisas já mostram, como, por exemplo, a questão do horário de atendimento: muitas unidades não ficam abertas à noite, nem nos finais de semana. Outra questão são justamente as filas de espera para consultas especializadas e ambulatórios. Existem também alguns gargalos específicos em algumas especialidades, os quais representam uma barreira de acesso.

Além disso, o Brasil, por ter uma dimensão territorial enorme, tem diferentes territórios com configurações muito distintas. Conseguir um acesso, por exemplo, no Amazonas, onde há uma população ribeirinha que precisa de quatro horas para conseguir acessar as Unidades Básicas de Saúde, representa uma barreira. É uma dimensão territorial bem diferente, por exemplo, de uma Unidade de Saúde no Rio de Janeiro, onde existem outros desafios, como, por exemplo, a violência urbana. Em grandes capitais, existe um número excessivo de usuários por equipe de saúde da família, o que gera uma barreira de acesso também: muitas vezes o usuário não consegue ser atendido no momento em que precisa, gerando espera. Além disso, tem uma escassez de médicos e formação específica em medicina de família e comunidade, somados à alta rotatividade médica. 

Também há na APS a priorização de certas doenças. Com isso, as pessoas que não se enquadram neles ficam de fora do atendimento na hora em que precisam. É sempre relevante mencionar o subfinanciamento no SUS, que também gera um entrave na Atenção Primária.

A partir desses desafios, nossa pesquisa quer identificar, com base nas boas experiências de municípios com bons indicadores na Atenção Primária, como eles estão fazendo para ampliar o acesso aos usuários. É por isso que escolhemos, inclusive, trabalhar com a pesquisa de campo, justamente para vermos o que esses municípios estão fazendo de diferente, inclusive, em relação ao modelo de acolhimento, aos horários e à configuração de equipe, e às formas de regulação para os outros níveis de atenção.

Quais são os recentes avanços no acesso aos serviços de Atenção Primária do SUS?


Vera Luiza: Eu tive a oportunidade de participar do Congresso do Conasems este ano. Vivenciar as discussões dá uma perspectiva completar, porém, mais rica, do que apenas a leitura de documentos. Assim, ficou muito evidente a aposta na telemedicina, o crescimento de equipes em protocolos de cuidado e a ampliação de ferramentas, como a promoção da marcação de consultas por mídias como o WhatsApp e e-mail, para tentar garantir o acesso da população. Observamos também um investimento em acesso avançado e mudanças no financiamento, que visam induzir qualidade no atendimento por meio do mecanismo financeiro.

O Programa Mais Médicos para o Brasil evidencia de forma muito rica a importância da multidisciplinariedade. Também não se pode esquecer do investimento em políticas intersetoriais, como as da questão da renda e saúde, além de políticas de equidade e saneamento básico. 

Mirna: Ainda em relação às políticas para grupos específicos, há vários grupos na política de equidade com dificuldades específicas de acesso, como, por exemplo, as populações de situação de rua, negra e indígena. O Ministério da Saúde elaborou políticas específicas voltadas a esses grupos, criando, inclusive, algumas equipes, como a de saúde prisional, de consultório na rua e de saúde indígena. Isso traz uma reorganização do serviço para atender essas pessoas com demandas específicas diferentes da população em geral.

Quais devem ser as contribuições da pesquisa para a sociedade e como a iniciativa pode contribuir para o enfrentamento dos desafios no acesso aos serviços de Atenção Primária do SUS?


Vera Lucia: Estamos apostando muito na tradução desse conhecimento em estreita parceria com SAPS/MS. Pretendemos viabilizar a interlocução com outros atores relevantes no país. Como ferramentas para essa tradução, queremos construir um painel de indicadores focado no acesso, além de documentos de orientação para a política. Vamos elaborar cartilhas e guias práticos que possam interagir com diferentes públicos-alvo, sobretudo no nível mais local, e utilizar mídias, como podcasts e, talvez, pequenos vídeos, buscando, com isso, ampliar e traduzir esse resultado da pesquisa para diferentes públicos-alvo. 

Mirna: Como escolhemos municípios com bons indicadores, a pesquisa de campo nos ajudará a enxergar quais estratégias eles estão utilizando para ampliar o acesso. Por isso, precisaremos ir a campo, pois os indicadores mostram uma coisa, mas não dizem o que está acontecendo nessas regiões que pode estar de fato ampliando o acesso.

Isso vai nos ajudar a entender quais são essas estratégias que estão facilitando e aumentando o acesso aos usuários. E aí, sim, poderemos recomendá-las, inclusive, enquanto política pública. Pensamos em produzir uma cartilha ou um guia, que sistematize essas boas estratégias, para que elas possam ser replicadas em outros contextos.

Conte sobre a sua atuação e o trabalho que você vem desenvolvendo na pesquisa e na ENSP.


Carla: O trabalho que venho desenvolvendo na pesquisa tem sido uma experiência de intenso aprendizado no campo da Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil, especialmente no que diz respeito ao acesso nesse nível de atenção à saúde pública. Minha atuação envolve apoio e contribuição em todas as etapas do projeto, desde a elaboração dos instrumentos para o trabalho de campo, tanto na abordagem quanti como na qualitativa, até o processo de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da ENSP. Também participo das reuniões semanais de alinhamento da equipe, da revisão de escopo sobre o tema e de outras atividades relacionadas ao desenvolvimento da pesquisa.

Por se tratar de um estudo de abrangência nacional, a ser realizado nas cinco regiões do país, os desafios são significativos. Além da complexa logística envolvida, o principal obstáculo está na realização das entrevistas e na aplicação dos questionários junto aos diversos atores da APS. Essa diversidade exigiu a construção de múltiplos instrumentos de coleta de dados e a elaboração detalhada de um Manual de Campo, que está em fase de produção. Cada etapa prevista é essencial para a análise das barreiras e dos facilitadores do acesso à APS no Brasil.

As expectativas em relação ao projeto são de que ele consiga, ao menos em parte, retratar um panorama do acesso à APS no país. Espera-se que os resultados possam orientar tanto o Ministério da Saúde quanto as demais esferas do SUS em relação aos aspectos que precisam ser fortalecidos e aqueles que devem ser repensados, sobretudo considerando as especificidades regionais.

Paralelamente à pesquisa, também atuo em atividades de ensino e no Observatório do SUS da ENSP. No ensino, ministrei aula sobre metodologias qualitativas de pesquisa na Pós-Graduação em Saúde Pública, e participei de bancas de defesa de dissertações. Também cooriento uma aluna do Mestrado Profissional em Participação e Controle Social em Saúde. No Observatório, tenho colaborado e participado de diversas atividades, como congressos, seminários e seleções, além da elaboração de relatorias e na construção de análises sobre a APS, com foco na composição das equipes.

Espero que todo esse trabalho, tanto na pesquisa quanto nas demais atividades desenvolvidas na ENSP, possa contribuir de forma significativa para o fortalecimento da APS no Brasil.

+ Confira o portfólio de apresentação do estudo




Nenhum comentário para: Estudo vai revelar barreiras e facilitadores de acesso à Atenção Primária: confira entrevista com pesquisadoras