Entrevista com Autores de CSP debate trajetória histórica e impactos sociais da Pós-graduação em Saúde Coletiva
Por Clara Rosa Guimarães, jornalista de CSP
A pós-graduação em Saúde Coletiva no Brasil chegou a 101 programas ativos em 2025, distribuídos por todo o país. Para debater essa conquista, seus significados e os desafios que ainda se impõem, o programa Entrevista com Autores, do periódico Cadernos de Saúde Pública (CSP), reuniu alguns dos coautores do artigo de Perspectiva "Pós-graduação em Saúde Coletiva no Brasil: trajetórias, avaliação e desafios". Participaram da conversa, mediada pela coeditora-chefe Marilia Sá Carvalho: Rômulo Paes Sousa, Aylene Bousquat e Bernardo Horta.
Para Rômulo Paes Sousa, pesquisador da Fiocruz Minas Gerais e presidente da Abrasco, o surgimento da Saúde Coletiva no Brasil, nos anos 1970, não foi um fenômeno acadêmico isolado; foi "uma espécie de fato social total". O campo nasceu em plena ditadura militar, com uma agenda que articulava dimensões políticas, sociais e científicas, comprometida com a construção de um sistema de saúde e com a redução das desigualdades.
Nesse sentido, a pós-graduação não surgiu apenas como estratégia de formação de recursos humanos, mas também como parte de um projeto de país. "A Saúde Coletiva faz parte desse grande impulso que o Brasil tem para a democracia, a inclusão e o combate às desigualdades", afirmou Rômulo. A própria escolha de Cadernos de Saúde Pública como veículo do artigo não foi por acaso, fundada em 1985, a revista é parte integrante da história de construção desse campo.
101 programas: pouco ou muito?
A pergunta foi lançada como provocação pela coeditora de CSP Marilia Sá Carvalho, para compreender um pouco mais sobre o expressivo número de programas. Para Aylene Bousquat, docente da USP e atual coordenadora adjunta da área de Saúde Coletiva da CAPES, a resposta exige contexto. Ela lembrou que a política de pós-graduação brasileira, como um todo, partiu de 167 programas em apenas 23 municípios em 1970 e, hoje, abrange mais de 4.500 programas em mais de 350 municípios, resultado de décadas de investimento público.
Ainda assim, o Brasil permanece abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no número de mestres e doutores. "Não tem nenhum país do mundo que tenha se desenvolvido ou combatido a miséria sem investimento em ciência e tecnologia e com uma formação maciça de mestres e doutores", afirmou Aylene. Na Saúde Coletiva, há um diferencial importante: "Nossos mestres e doutores estão trabalhando e construindo o nosso sistema de saúde e nossa educação", um perfil distinto do observado em outras áreas do conhecimento.
Bernardo Horta, professor da UFPel e atual coordenador da área de Saúde Coletiva da CAPES, apresentou um exemplo concreto do alcance transformador da área. Pouco antes da gravação, ele estava em Tabatinga, no Amazonas, na defesa dos primeiros alunos de uma turma de mestrado em Saúde Coletiva voltada a profissionais indígenas. "Todos os alunos que estão concluindo já estão empregados em diferentes segmentos do Sistema Único de Saúde", relatou.
Segundo Rômulo Paes Sousa, a expansão da pós-graduação acompanha as sucessivas ondas de crescimento do SUS e a necessidade urgente de redistribuir competências para além das capitais e do litoral. "A Saúde Coletiva está fazendo a parte dela ou, pelo menos, se esforçando muito", afirmou.
O produtivismo em xeque: por uma avaliação que valorize o que importa
Um dos temas centrais do debate foi a transição em curso na avaliação dos programas, do modelo baseado na contagem de artigos para critérios mais qualitativos. Bernardo Horta foi direto ao ponto: "A nossa área salta, no início dos anos 2000, de uma média de 2 artigos por docente permanente por ano para 5,1 artigos por docente permanente por ano."
Para ele, esse crescimento quantitativo não se traduz automaticamente em qualidade e a publicação em revistas predatórias é um dos sintomas do problema. Ao citar um célebre Editorial de CSP sobre “Mais do mesmo”, Horta indicou que é preciso mudar a mentalidade: "Quando eu vou sentar para escrever um artigo, não 'vou escrever mais um artigo', vou tentar trazer algo novo, algo que contribua, e vou querer contar isso para a sociedade depois."
O Perspectivas pode ser lido na íntegra no site de CSP. E o programa está disponível em áudio no CSPCast e no YouTube da ENSP.
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