Doutoranda da ENSP conquista segundo lugar no Prêmio Ciência ao Vivo da Fiocruz
Por Bruna Abinara
A doutoranda Ana Lívia Carvalho da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), conquistou o segundo lugar no Prêmio Ciência ao Vivo da Fiocruz. Em sua primeira edição, a premiação foi organizada pelo Centro de Apoio ao Discente (CAD), da Vice-Presidência de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC), em parceria com a Associação de Pós-Graduandos do Rio de Janeiro (APG-RJ), como parte da Semana da Educação na Fiocruz 2026, realizada entre 14 e 16 de outubro. A iniciativa busca estimular a divulgação científica e reconhecer estudantes que apresentam seus trabalhos de forma criativa, com potencial para mobilizar e informar tanto o público especializado quanto pessoas de fora da área.
Fotos: Peter Illicciev
Ana Lívia apresentou o "Manual do Ouvido Biônico", um monólogo curto e performático que utiliza a arte e o humor para abordar a experiência de adultos que adquiriram surdez ao longo da vida e utilizam implante coclear. A performance é derivada de sua tese, intitulada “Entre a promessa tecnológica e a integralidade do cuidado: implante coclear no SUS e desafios ético-políticos de reconhecimento e autodeterminação”, orientada pelos professores Maria Helena de Oliveira Barros e Armando Guimarães Nembri, do Departamento de Direitos Humanos e Saúde da ENSP.
"A ciência pode e deve romper os muros da academia para dialogar com a sociedade de forma acessível, sem perder o rigor", defendeu a doutoranda. "Recebi o resultado com muita alegria. Para mim, ele consolida esta perspectiva de fazer ciência a partir da arte. Esse reconhecimento fortalece a minha convicção de que o papel de uma cientista não pode se confinar ao produtivismo acadêmico de publicar artigos em revistas de alto impacto. Nosso compromisso histórico é fazer o conhecimento circular como ferramenta de emancipação social para combater as desigualdades estruturais. Afinal, produzir ciência é um ato político, e a arte é a nossa trincheira para denunciar violações de direitos."
Implante coclear e os desafios do cuidado no SUS
"O SUS consegue garantir não apenas o acesso à cirurgia e ao aparelho, mas também a continuidade do cuidado necessária para que essas pessoas exerçam sua autonomia e participem plenamente da sociedade?". Essa é a pergunta central da pesquisa de Ana Lívia. O trabalho busca compreender como o SUS acolhe e acompanha as pessoas com perda auditiva severa ou profunda que utilizam o implante coclear, conhecido popularmente como “ouvido biônico”. A doutoranda ressalta que a tecnologia, por si só, não basta: "o cuidado real exige, por exemplo, acompanhamento fonoaudiológico contínuo, manutenção do dispositivo e a eliminação de barreiras sociais na educação e no trabalho".
Segundo a estudante, os dados e a literatura científica mostram um descompasso: enquanto o SUS avança na realização das cirurgias de implante coclear, ainda há grandes desigualdades territoriais na oferta de serviços especializados e dificuldades estruturais para assegurar a manutenção dos implantes e o acompanhamento fonoaudiológico contínuo. "O implante coclear não é uma solução mágica. Embora amplie o acesso aos sons, a tecnologia por si só não garante inclusão se a pessoa ainda enfrentar barreiras de comunicação no cotidiano. Minha investigação joga luz sobre a necessidade urgente de articular os avanços da medicina com políticas concretas de suporte social e reabilitação de longo prazo", explicou.
Fotos: Peter Illicciev
A pesquisa considera que o cuidado não se limita à ausência de doença ou ao sucesso de uma cirurgia de alta complexidade, mas envolve justiça social e cidadania. Nessa perspectiva, a surdez não é compreendida apenas como uma condição clínica, mas também como uma experiência que atravessa as relações humanas e a construção da identidade.
A expectativa de que a tecnologia seja capaz de “curar” a surdez e eliminar as diferenças não impede que persistam barreiras de comunicação, estigmas e práticas capacitistas após o procedimento. Por isso, discutir identidade e reconhecimento contribui para ampliar o conceito de cuidado, considerando a autonomia das pessoas surdas e seu direito de viver a própria experiência sem a obrigação de se adequar a um padrão de “normalidade”. Para a doutoranda, é necessário questionar por que a sociedade ainda espera que pessoas que utilizam implantes cocleares correspondam às expectativas de uma pessoa ouvinte, em vez de reconhecer e acolher diferentes formas de existência.
O Manual do Ouvido Biônico: ciência e arte
No "Manual do Ouvido Biônico", Ana Lívia interpreta uma pesquisadora que apresenta um suposto "manual de instruções" do implante coclear. "A ironia é que o manual explica a parte técnica, mas deixa de fora o mais difícil: como lidar com as expectativas dos outros, com as frustrações e com os desafios de interação social. Uso a performance para tensionar a distância entre a promessa da tecnologia e a realidade concreta dessas pessoas", contou.
Por meio da performance, a doutoranda expõe que a estrutura social majoritariamente ouvintista cobra que a pessoa surda se adapte ao impossível em vez de criar as condições, os recursos e a acessibilidade necessários para acolhê-la. "A arte me permitiu questionar: se esse padrão ouvinte é inalcançável para quem usa a tecnologia, por que o esforço para a inclusão recai sobre o indivíduo e não sobre a sociedade?"
Para Ana Lívia, ter o trabalho reconhecido pelo prêmio demonstra o poder do teatro e do humor para aproximar debates complexos sobre saúde pública, deficiência e tecnologia das pessoas. "A divulgação científica por meio da linguagem artística consegue despertar consciência crítica e gerar um desconforto necessário ao escancarar que a estrutura social é excludente e precisa mudar. Assim, a arte gera novas perguntas no público e provoca reflexões que um relatório técnico de muitas páginas dificilmente alcançaria sozinho", reforçou.
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