ENSP articula pesquisas e propõe novas frentes de investigação sobre saúde, ambiente e território
Por Danielle Monteiro
A ENSP deu novos passos para aproximar pesquisadores, ampliar parcerias e construir uma agenda de trabalho integrada. Em sua segunda edição, o Colegiado de Pesquisa Itinerante reuniu representantes de departamentos e centros da Escola, no dia 14 de outubro, em torno do tema “Saúde, Ambiente e Território: Diálogos Itinerantes para a Pesquisa e Resposta Integrada”. Durante o encontro, foram apresentados estudos relacionados ao tema, que permitiram identificar pontos de convergência e possibilidades de cooperação.
Entre as propostas sugeridas pelos participantes, está o desenvolvimento de novas frentes de pesquisa sobre mudanças climáticas, desigualdades sociais, violência de gênero, exploração econômica, biossegurança e saúde de professores. Também foi ressaltada a importância de garantir a participação de moradores, jovens e comunidades tradicionais nas investigações, com atenção aos aspectos éticos, além de mapear os estudos realizados nos territórios do Rio de Janeiro. A necessidade de dar visibilidade a problemas como a violência armada e a expulsão de comunidades religiosas de matriz africana também foi destacada, assim como a divulgação dos resultados científicos em linguagem acessível à população.
Como encaminhamentos, foram apontados o estímulo à formação de parcerias entre pesquisadores e a aproximação das pesquisas com as necessidades dos territórios, incluindo a articulação com movimentos sociais e organizações locais. Também foi proposto tomar como referência o Plano Diretor das Ciências Sociais e Humanas em Saúde e fortalecer a participação social e a divulgação científica. Foi apontada ainda a necessidade de explicitar a relevância social das pesquisas nos projetos submetidos a editais de fomento e ampliar a divulgação dessas oportunidades entre os pesquisadores da ENSP.
Os participantes manifestaram preocupação com os desafios que atravessam a saúde pública e o funcionamento do SUS na atual conjuntura, incluindo questões relacionadas à democracia e à garantia de direitos. As reflexões ressaltaram a importância do diálogo, da atuação coletiva e da construção de estratégias para enfrentar os desafios identificados, considerando seus possíveis impactos sobre as políticas públicas de saúde e a sociedade.
“A Vice-Direção de Pesquisa e Inovação (VDPI) enviará aos participantes uma síntese do debate, acompanhada das apresentações e de questões norteadoras, como o impacto das pesquisas e sua interlocução com populações em situação de vulnerabilidade, para estimular a reflexão e orientar novas articulações”, informou a vice-diretora de Pesquisa, Andréa Sobral.
Abertura destaca integração da pesquisa e justiça socioambiental
Ao abrir o encontro, Andréa Sobral reforçou que o Colegiado Itinerante de Pesquisa é uma oportunidade de transformar a troca de experiências em uma agenda de trabalho conjunto: “Essa atividade é o marco de uma agenda integrada, colaborativa e comprometida com a justiça socioambiental, principalmente, e com o direito à saúde de todas e todos”. Ela lembrou ainda que a relação entre saúde e ambiente foi um dos eixos das contribuições da Escola para o desenvolvimento do novo Programa de Desenvolvimento Institucional.
O vice-presidente adjunto da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz) parabenizou a ENSP pela realização do Colegiado de Pesquisa Itinerante e reafirmou o compromisso da instância com a iniciativa. Alessandro Jatobá destacou ainda que os temas de saúde, território e desenvolvimento social estão entre os pilares do Plano de Desenvolvimento Institucional da Pesquisa, elaborado pela Vice-Presidência em conjunto com as unidades da Fundação. “Essa atividade mostra que, mais uma vez, a ENSP está no caminho correto”, complementou.
Idosos e atenção primária diante das ondas de calor
Como os serviços de saúde podem proteger idosos durante ondas de calor cada vez mais intensas? A pergunta motivou o projeto de iniciação científica desenvolvido pelo Departamento de Administração e Planejamento em Saúde (DAPS/ENSP), apresentado por Mariana Albuquerque. O estudo investiga como os serviços de atenção primária do Rio de Janeiro e de Viena, na Áustria, se organizam para proteger idosos em situação de vulnerabilidade durante ondas de calor. Segundo a pesquisadora, apesar de apresentarem sistemas de saúde e realidades diferentes, as duas cidades desenvolvem iniciativas pioneiras que podem ajudar a identificar estratégias aplicáveis a outros contextos. Já em andamento, a pesquisa pretende formular recomendações para gestores e profissionais de saúde, além de identificar barreiras, soluções e possibilidades de articulação entre saúde, assistência social e sociedade civil.
Outra iniciativa do DAPS envolve o ProQualis, programa institucional voltado à qualidade do cuidado e à segurança do paciente, que articula ações sobre os efeitos das mudanças climáticas nas unidades de saúde, incluindo a perspectiva de criar uma linha de pesquisa sobre clima, território, saúde do trabalhador e segurança do paciente, além de elaborar notas técnicas para orientar planos de contingência e oferecer formação sobre o tema.
Violência e desigualdades socioambientais nos territórios
Na apresentação das iniciativas do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde (Claves/ENSP), Cristiane Andrade citou pesquisas que investigam os impactos das crises ambientais e da violência sobre a saúde e as condições de vida da população. Entre elas, estão o desenvolvimento de um índice de vulnerabilidade institucional dos sistemas municipais de saúde e saneamento diante de desastres naturais e tecnológicos no Amazonas; o estudo sobre custos de doenças atribuíveis a fatores ambientais em 771 municípios da Amazônia Legal, que identificou as causas externas como responsáveis por 5,8% das internações, com aumento superior a 50% entre 1998 e 2013; e pesquisas sobre trabalho de cuidado, gênero e deslocamentos climáticos forçados, eventos climáticos extremos e violência, além de estudos sobre racismo ambiental e saúde.
A pesquisadora também apresentou iniciativas sobre os impactos da violência armada nos territórios, cujos resultados estão sendo organizados em um sumário executivo. Outro projeto investiga estratégias intersetoriais de cuidado e promoção da saúde mental de estudantes do ensino médio de escolas públicas em territórios marcados pela violência, por meio de oficinas, rodas de conversa e atividades artísticas. Completam o conjunto de pesquisas os estudos sobre a saúde de mulheres em situação de rua diante das emergências climáticas, a atuação de equipes de Saúde da Família em territórios afetados pelo racismo ambiental e a participação em iniciativas acadêmicas sobre feminismos decoloniais, racismo e saúde internacional.
Povos indígenas, justiça alimentar e saúde
A integração entre ambiente, saúde, direito, vigilância, formação e políticas públicas é o cerne das iniciativas do Departamento de Endemias Samuel Pessoa (DENSP/ENSP), apresentadas por Ana Laura Brandão. Entre elas, estão o grupo Ambientes, Diversidade e Saúde, que reúne 14 projetos sobre os impactos das alterações ambientais na saúde, com ênfase nos povos indígenas e na proteção dos territórios; e duas pesquisas sobre a população Xavante, que investigam a evolução de doenças crônicas, estado nutricional e saúde bucal, além dos efeitos da expansão do agronegócio, da redução dos territórios tradicionais e de outras transformações socioambientais sobre as condições de vida e saúde. A pesquisadora também apresentou o Grupo de Estudos de Sistemas Alimentares e Saúde Pública no Contexto da Mudança Global, formado por 95 pesquisadores de 12 países latino-americanos, que investiga as relações entre mudanças climáticas, sistemas alimentares e desigualdades. Entre os resultados, está um livro coletivo com diagnósticos sobre segurança alimentar e emergência climática em nove países, além de pesquisas sobre racismo ambiental e alimentar em municípios fluminenses.
Outra iniciativa é o projeto Povo Cuidando do Povo, desenvolvido no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio, que articula SUS, agroecologia e justiça alimentar, com protagonismo de mulheres e jovens. A iniciativa produziu um minidocumentário, um e-book de receitas agroecológicas e um protocolo de vigilância da segurança alimentar e nutricional para uma Clínica da Família. Ana Laura também destacou um projeto do Centro Brasileiro de Justiça Climática sobre população negra e agenda climática em espaços multilaterais, voltado à sistematização de dados e à ampliação do acesso à informação por movimentos sociais e organizações negras. Integram ainda a lista de iniciativas os estudos liderados pelo grupo Saúde nas Prisões, que investiga como as condições ambientais e de encarceramento influenciam o adoecimento e a mortalidade, abordando temas como tuberculose, saúde materno-infantil, arquitetura prisional, Covid-19 e mortes evitáveis.
Saúde do trabalhador, contaminação ambiental e soluções construídas com comunidades
Os estudos da ENSP sobre saúde, ambiente e território também abrangem a saúde do trabalhador, com pesquisas que investigam os efeitos da exposição a substâncias tóxicas, das mudanças climáticas e das condições de trabalho sobre a saúde. Na apresentação das iniciativas do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesth/ENSP), a coordenadora de pesquisa, Liliane Teixeira, destacou o monitoramento da qualidade da água para consumo humano, que recebe cerca de 3 mil amostras por ano de diferentes regiões do país; estudos sobre a exposição ao amianto, incluindo uma pesquisa que já avaliou mais de 2 mil trabalhadores com exposição ao material e condições pós-Covid; e investigações sobre os efeitos dos agrotóxicos em guardas de endemias e trabalhadores rurais. Nesse último caso, a análise de 100 declarações de óbito identificou mortalidade precoce entre os guardas de endemias, em torno dos 50 anos. A pesquisa, desenvolvida em parceria com sindicatos, contribuiu para a realização de cerca de mil exames periódicos e para a elaboração de um laudo coletivo que ajudou a impulsionar medidas do Ministério da Saúde em favor desses profissionais. O Cesth também desenvolve iniciativas sobre exposição ao benzeno, doenças infecciosas relacionadas ao trabalho, saúde mental de professores universitários e condições de trabalho de camelôs, além de pesquisas sobre contaminação ambiental em territórios.
Entre os estudos sobre impactos ambientais de longo prazo, Liliane destacou a pesquisa sobre as consequências do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), que reúne uma rede de pesquisadores na bacia do Rio Doce. Outra iniciativa envolve investigações sobre racismo ambiental e climático, a exposição a temperaturas extremas e a contaminação por resíduos industriais. Outro destaque foi o projeto Quebradeiras de Coco, que, a partir das demandas das próprias trabalhadoras, desenvolveu e patenteou uma mesa para facilitar a quebra do coco, promoveu ações para reduzir dores e melhorar as condições de trabalho e incentivou a produção de alimentos para comercialização, como cocadas e bolos. O projeto contribuiu para ampliar a renda das participantes e para a inclusão da farinha extraída do mesocarpo do babaçu na merenda escolar de municípios do sul do Maranhão.
Cuidados paliativos, redes de apoio e protagonismo comunitário
A ampliação do acesso aos cuidados paliativos em territórios vulnerabilizados é o objetivo da pesquisa desenvolvida no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria (CSEGSF/ENSP), apresentada pela pesquisadora Ana Paula. O projeto propõe implantar uma comunidade compassiva em Manguinhos, na Zona Norte do Rio, articulando moradores que já realizam ações de cuidado a serviços de saúde, assistência social, instituições de ensino e movimentos locais. A estratégia prevê a formação de moradores e profissionais, a integração das redes de apoio e o acompanhamento de pessoas com doenças graves, especialmente aquelas próximas do fim da vida.
A proposta também inclui suporte às famílias e ao luto, respeito aos saberes locais e participação da própria comunidade na gestão e continuidade das ações. Ainda em fase inicial, o projeto prevê atividades formativas em parceria com diferentes departamentos da ENSP e cursos da área da saúde e do direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
Vigilância ambiental e soluções sustentáveis nos territórios
A apresentação de Antônio Teva, do Departamento de Ciências Biológicas (DCB/ENSP), reuniu iniciativas dos cinco laboratórios do departamento em áreas como saúde pública, meio ambiente, vigilância ambiental, microbiologia, parasitologia, toxicologia e ecologia. As pesquisas abrangem o desenvolvimento de alternativas sustentáveis para o controle da esquistossomose, a investigação de microrganismos e agentes associados a doenças, a avaliação da qualidade da água e a análise dos efeitos de contaminantes ambientais sobre a saúde. Teva também apresentou estudos sobre saúde materno-infantil, doenças infecciosas e emergentes, além de ações de formação de estudantes e profissionais.
Entre as iniciativas, está um projeto integrado que reúne os laboratórios do DCB para investigar as relações entre saúde humana, animais e ambiente, com foco na qualidade da água, na vigilância de parasitas e microrganismos e nos riscos ambientais em municípios do estado do Rio de Janeiro. A proposta também prevê ações de educação em saúde e meio ambiente, recuperação de nascentes e produção de alimentos por meio de sistemas agroflorestais.
Impactos da poluição e de riscos ambientais na saúde
As pesquisas do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental (DSSA/ENSP) investigam como as condições ambientais, a urbanização e as mudanças climáticas afetam a saúde da população. Entre os estudos apresentados por Marcos Denício, chefe do departamento, estão o monitoramento de microplásticos na região costeira da Zona Sul do Rio de Janeiro; a análise da poluição da água em áreas de banho da Baía de Guanabara, da Zona Sul e da Barra da Tijuca; e a investigação dos efeitos das ilhas de calor, com pesquisas sobre o uso de telhados verdes para reduzir o estresse térmico em edificações. O departamento também desenvolve estudos sobre a presença de mercúrio no ambiente e a avaliação de riscos à saúde humana associados à contaminação na região do Rio Doce.
Outra frente reúne pesquisas sobre a qualidade da água para consumo, o saneamento e a vigilância ambiental em territórios tradicionais, incluindo comunidades quilombolas e indígenas da Serra da Bocaina. Os projetos também abordam a emissão de gases de efeito estufa em ambientes aquáticos, a contaminação por fármacos, a poluição costeira e o monitoramento de vetores de doenças, como os transmissores da dengue. As iniciativas incluem ainda o desenvolvimento de tecnologias sociais de saneamento, a modelagem computacional para prever a vazão de rios considerando dados de precipitação e mudanças climáticas, e estudos sobre a relação entre microplásticos e tuberculose.
Direitos humanos, mudanças climáticas e desigualdades socioambientais
Já as pesquisas do Departamento de Direitos Humanos e Saúde (Dihs/ENSP) investigam como as mudanças climáticas afetam grupos em situação de vulnerabilidade e de que forma as políticas públicas podem garantir direitos e reduzir desigualdades. Entre os estudos apresentados pelo coordenador de pesquisa, Henrique Rabelo, está uma investigação que analisou documentos oficiais das Nações Unidas sobre mudanças climáticas. A análise identificou uma diferença expressiva: enquanto a palavra “gênero” aparece mais de mil vezes em um documento do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os termos “orientação sexual” e “população LGBTQIA+” são raros. Segundo Henrique, o resultado aponta para a pouca visibilidade da diversidade sexual e de gênero nos debates internacionais sobre clima e reforça a necessidade de considerar essas dimensões na formulação de políticas públicas e como determinantes sociais da saúde.
Outras iniciativas do departamento abordam os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde da população em situação de rua e a acessibilidade de estudantes com deficiência em escolas do município do Rio de Janeiro, com foco na comunidade da Maré. O departamento também desenvolve estudos sobre os impactos ambientais e na saúde relacionados à instalação de centros de dados e ao uso da inteligência artificial, incluindo questões como a poluição sonora e a necessidade de regulamentação específica.
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