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“Na pornografia, a violência contra mulheres é apresentada como prazer e consentimento”: palestra aborda efeitos da exposição precoce

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Publicado em:02/06/2026
Por Danielle Monteiro

O acesso à pornografia entre crianças e adolescentes acontece hoje cada vez mais cedo, muitas vezes antes da primeira experiência sexual, e tem sido associado à reprodução de comportamentos agressivos, à objetificação de mulheres e à naturalização da violência sexual. O alerta foi feito pela psicóloga clínica e pesquisadora Ana J. Bridges, professora da Universidade de Arkansas (EUA), durante palestra realizada em 25 de maio na ENSP. No evento, a especialista, considerada referência internacional no tema, apresentou estudos, principalmente conduzidos nos Estados Unidos, que revelam a forte presença de violência e desigualdade de gênero nos materiais pornográficos mais consumidos, nos quais agressões físicas e verbais aparecem frequentemente associadas ao prazer e ao consentimento feminino. 


Moderadora da palestra, a pesquisadora Ana Sousa, do Departamento de Ciências Sociais da ENSP, contou que a ideia de trazer a especialista para a Escola surgiu a partir de relatos cada vez mais frequentes de adolescentes, estudantes, familiares e professores sobre os impactos do consumo de pornografia na saúde mental, nos relacionamentos e na percepção sobre sexualidade. Segundo a pesquisadora, que também é professora de adolescentes, o tema passou a aparecer de forma recorrente tanto no ambiente escolar quanto nas experiências de pessoas próximas no seu entorno e até nos depoimentos de celebridades. Isso levou a pesquisadora a perceber que essa poderia ser uma questão de ordem coletiva, que merecia ser investigada. 


Diante desse cenário, Ana, incentivada pela sua chefe, a médica de saúde pública, Elyne Engstrom, decidiu investigar o tema, inicialmente com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Logo depois, contou que descobriu o programa de especialistas da Fulbright, que propõe aproximar especialistas norte-americanos para fortalecer a capacidade institucional e desenvolver cooperações científicas que fortaleçam o desenvolvimento de pesquisa conjunta em áreas de interesse mútuo. “Eu havia identificado que os Estados Unidos tinham uma tradição de mais de quatro décadas de produção de evidências sobre esse assunto envolvendo diferentes campos de conhecimento”, contou. O projeto foi aprovado em um processo seletivo muito competitivo e resultou na escolha de Ana J. Bridges que, além de se destacar pela excelência acadêmica, era também familiarizada com a realidade latino-americana, por ser de origem argentina radicada nos EUA. 

Brasil entre os líderes mundiais em buscas por pornografia

Ao iniciar sua apresentação, Ana J Bridges enfatizou que o avanço das pesquisas sobre pornografia deve ser tratado como uma questão de saúde pública, especialmente em países como o Brasil, onde os índices de violência de gênero e violência infantil seguem elevados. Ela lembrou que as taxas de feminicídio no país têm aumentado e os principais acusados são homens, assim como os casos de violência contra crianças, que também cresceram na última década, atingindo principalmente meninas entre 10 e 14 anos e meninos entre 4 e 8 anos. 


Ana ressaltou ainda que a pornografia ocupa atualmente uma dimensão massiva na internet, representando cerca de 4% de todo o conteúdo online, 13% das buscas realizadas em computadores e 20% das pesquisas feitas em celulares no mundo, o equivalente a uma em cada cinco buscas móveis. De acordo com a pesquisadora, a indústria movimenta mais de 100 bilhões de dólares anuais. 

A especialista também chamou atenção para o fato de o Brasil ocupar o quarto lugar mundial em pesquisas por pornografia na internet, cenário que, segundo ela, reforça a necessidade de ampliar estudos, debates e estratégias de prevenção voltadas aos impactos desse consumo sobre adolescentes, relações de gênero e violência sexual no país.


Cada vez mais cedo, cada vez mais acessível

O contato de adolescentes com a pornografia ocorre cada vez mais cedo e, em muitos casos, antes mesmo do início da vida sexual. Conforme relatou a pesquisadora, estudos com participantes dos EUA mostram que quase todos os homens jovens de até 24 anos e mais de 80% das mulheres nessa mesma idade já foram expostos a esse tipo de conteúdo. Entre menores de 10 anos, cerca de 8% dos meninos e 6% das meninas já tiveram acesso à pornografia. Na faixa entre 10 e 12 anos, mais da metade dos meninos relatou contato com esse material e, entre 13 e 15 anos, o índice também ultrapassa 50% entre as meninas. "Na Inglaterra, muitos jovens entre 15 e 16 anos consumem pornografia várias vezes ao mês ou até com maior frequência”, afirmou Ana.

A pesquisadora alertou que, no Brasil, a primeira experiência sexual costuma ocorrer por volta dos 16 anos para os meninos e dos 18 anos para as meninas, indicando que o consumo de pornografia frequentemente antecede as experiências sexuais presenciais. “Em resumo, a maioria dos jovens têm sido expostos à pornografia antes da puberdade, às vezes de forma acidental e sem dúvida antes de iniciar uma vida sexual. A internet e os telefones móveis têm facilitado o acesso com menos controle e menos restrições do que antes. 


Ana explicou que a primeira exposição costuma ocorrer de maneira acidental, durante buscas comuns na internet ou por meio de conteúdos mostrados por amigos, despertando sentimentos variados, como curiosidade, medo, excitação e até nojo. Segundo ela, com o avanço tecnológico, fatores como baixo custo, anonimato e facilidade de acesso impulsionaram o aumento do consumo, o que permitiu que crianças e adolescentes também passassem a acessar pornografia diretamente pelo celular, sem grandes barreiras ou restrições.

Entre lacunas educativas e crenças falsas sobre sexo

Outro aspecto da discussão destacado pela especialista foi a forma como adolescentes e jovens aprendem sobre sexualidade a partir de modelos culturais e midiáticos, especialmente diante da ausência de espaços qualificados de educação sexual, em casa ou na escola. Segundo Ana, estudos clássicos da psicologia demonstram que comportamentos podem ser aprendidos por observação e imitação, inclusive os violentos. “Nós aprendemos como nos comportar sexualmente com base em informações e modelos, e existem poucos espaços saudáveis para esse aprendizado”, lamentou. 

A pesquisadora criticou o modelo de educação sexual predominante nos Estados Unidos, centrado na abstinência, e argumentou que essa abordagem só reforça que adolescentes recorram à pornografia como principal fonte de informação sobre sexo. 


De acordo com a especialista, o consumo também está associado à reprodução de crenças falsas, como a ideia de que o sexo anal é naturalmente prazeroso na primeira experiência, de que homens estão sempre prontos para o sexo ou de que a chamada “ejaculação feminina” seria um fenômeno comum e espontâneo. 

Conforme pontuou Ana, enquanto estudos clássicos da psicologia tendem a se concentrar nos efeitos individuais do consumo de pornografia, a saúde pública aborda o tema a partir de fatores socioambientais mais amplos, como contexto familiar, cultura, meios de comunicação, desigualdades sociais e normas de gênero. Nesse contexto, ela defendeu que a pornografia deve ser compreendida como parte da chamada cultura do estupro, que naturaliza diferentes formas de violência e desigualdades de gênero. 

Violência “consentida”: o padrão dominante na pornografia

Com base em estudos que fazem uma análise de comparação entre 2010 e 2020 sobre vídeos pornográficos heterossexuais mais populares na Adult Video News (noticias de vídeos adultos), revista especializada na indústria pornográfica, a pesquisadora relatou que as cenas costumam envolver de duas a cinco pessoas, geralmente mulheres brancas e muito jovens, enquanto os homens que aparecem costumam ser mais velhos e experientes. O sexo oral da mulher no homem e a penetração vaginal predominam. O sexo anal aparece em cerca de 40% dos vídeos e o uso de preservativos é praticamente inexistente. 

Foi observada ainda uma alta incidência de violência nesses conteúdos analisados ao longo da década. Segundo os estudos apresentados, agressões verbais aparecem em cerca de 50% das cenas pornográficas. No mesmo período, cenas com palmadas aumentaram de 75% para 84%; imagens de mulheres amordaçadas passaram de 54% para 84%;  tapas no rosto cresceram de 41% para 59%; e cenas de estrangulamento subiram de 28% para 41%. “Existe uma diferença de gênero muito clara quando falamos de agressão. Cerca de 70% dos atos agressivos são praticados por homens e menos de 30% por mulheres. Porém, mais de 90% desses atos são dirigidos às mulheres”, observou Ana. 

Segundo a pesquisadora, essas agressões quase sempre são apresentadas como consentidas ou neutras, já que em menos de 5% das cenas a vítima pede para parar ou demonstra dor. Soma-se a isso a ocorrência de edições que suprimem as demonstrações de desconforto no resultado final. Em sua avaliação, isso contribui para normalizar a violência contra mulheres. 

“Em resumo, a pornografia heterossexual e popular costuma mostrar mulheres jovens com homens mais velhos. Os atos de violência são frequentes e apresentados com consentimento e como sendo agradáveis. O consentimento costuma ser passivo e implícito. O prazer e a violência são associados à questão de gênero. Aqueles que perpetuam ou agridem tendem a ser homens, os que são resistentes ou vítimas são mulheres”, reforçou a pesquisadora.

A especialista destacou que estudos conduzidos em diferentes países identificam associações entre o consumo frequente de pornografia degradante e comportamentos agressivos nas relações sexuais. Segundo ela, levantamentos realizados por sua equipe de pesquisa com jovens mostraram que participantes com maior consumo de pornografia relataram maior ocorrência de práticas agressivas, como estrangulamento, puxões de cabelo e palmadas, tanto como vítimas quanto como autores. Os homens apareceram com maior probabilidade de exercer comportamentos agressivos, enquanto mulheres relataram com mais frequência serem alvo dessas práticas. 


Outro ponto ressaltado foi a influência da percepção de realismo da pornografia: quanto mais os jovens acreditam que os conteúdos pornográficos representam o sexo “real”, maior tende a ser a associação com atitudes sexistas, objetificação da parceira e maior tolerância à agressão sexual. 

“Em resumo, encontramos associações em experimentos e em pesquisas em diversos países. Alguns desses estudos foram feitos antes da chegada da internet e do celular móvel. E, apesar disso, os resultados são muito parecidos com os que realizamos hoje. O que mudou é que os jovens têm mais acesso à pornografia hoje em dia do que há 20 anos”, concluiu. 

Governo, escolas e famílias no enfrentamento ao consumo precoce

Ao discutir possíveis soluções para enfrentar os impactos do consumo precoce de pornografia, a pesquisadora defendeu uma abordagem integrada envolvendo governo, famílias e escolas. Segundo ela, governos podem adotar medidas como verificação de idade para acesso a conteúdos pornográficos, regulamentação de sites e campanhas públicas de conscientização sobre pornografia, violência de gênero e cultura do estupro. Já as escolas teriam papel central na educação midiática e sexual, com debates sobre consentimento, relacionamentos saudáveis e apoio a jovens que enfrentam problemas relacionados ao tema. Para as famílias, Ana destacou a importância do diálogo contínuo com crianças e adolescentes, da supervisão do uso de celulares, jogos e redes sociais e do adiamento do acesso individual a dispositivos móveis. 

Fotos: André Pinnola e Isabelle Ferreira 

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