Busca do site
menu

Fiocruz e Oxford lançam parceria por bioética de soberania para o Sul Global

ícone facebook
Publicado em:19/05/2026
Por Rhyan de Meira (AFN, estágio supervisionado por Raquel Aguiar)

A Fiocruz promoveu na terça-feira (12/5) um debate estratégico sobre a bioética como instrumento de autonomia para nações do Sul Global. O evento, realizado em conjunto com a Global Health Bioethics Network (GHBN), vinculada à Universidade de Oxford, teve como foco central a superação de processos burocráticos em prol de pesquisas científicas robustas e éticas, fundamentadas nas realidades sociais da América Latina, África e Ásia. O encontro marca o lançamento da participação da Fiocruz na GHBN, consolidando a inserção da América Latina em redes globais de bioética. Além de apresentações institucionais, a iniciativa visa intensificar a colaboração científica e integrar a rede internacional aos desafios e perspectivas da realidade latino-americana.


Para a vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Cruz, o objetivo não é deixar de olhar para a relação com o Norte, mas sim fortalecer a mobilidade, o investimento e a formação voltados para as necessidades do Sul (Foto: Peter Ilicciev)

A vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Marly Cruz, destacou o papel da instituição na vanguarda da cooperação científica que não se curva a lógicas meramente comerciais. Para Marly, a entrada na rede GHBN consolida um projeto que prioriza a inclusão e o fortalecimento de nações em desenvolvimento, garantindo que a ciência seja uma ferramenta de justiça social.

"Quando falamos em internacionalização solidária significa que estamos dando ênfase ao Sul Global. O objetivo não é deixar de olhar para a relação com o Norte, mas sim fortalecer a mobilidade, o investimento e a formação voltados para as necessidades do Sul. Acredito que esta rede se fortalece justamente nesse propósito".

O coordenador-geral do Programa de Pós-Graduação em Bioética (PPGBIOS) da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Sergio Rego, defendeu uma ruptura com a aplicação acrítica de teorias importadas do Norte Global. Segundo o pesquisador, a realidade brasileira exige uma bioética que reconheça o Estado como protetor de direitos e que não aceite passivamente as desigualdades estruturais impostas pelo mercado.

"Defendemos uma bioética 'desobediente' e militante. Ser desobediente não significa ignorar regras, mas recusar-se a aceitar a injustiça como algo natural. Ela desobedece ao imperativo do mercado e à tecnocracia que ignora a voz das comunidades. A ética na saúde coletiva é um exercício de cidadania".

A cooperação global só é legítima “quando há respeito mútuo e transparência no compartilhamento de benefícios científicos”. É o que explica o pesquisador e um dos organizadores da parceria, Gustavo Matta, ao relembrar durante o evento como a experiência do Brasil com a epidemia de zika serviu para amadurecer a posição ética da Fiocruz frente a grandes financiadores internacionais. 

"Enfrentamos desafios críticos, como a pressão pelo compartilhamento de dados sem contrapartidas claras. Naquele momento, tivemos uma posição muito firme e ética: decidimos que não compartilharíamos dados se não houvesse acordos claros. Esse posicionamento colocou a Fiocruz em um patamar de igualdade e soberania".

Com um olhar provocativo sobre a utilidade prática da bioética, o diretor do Ethox Centre de Oxford e coordenador da rede global, Michael Parker, destacou que o objetivo da GHBN é fugir da visão "estática" do tema, ajudando cientistas e governantes a tomarem decisões complexas em contextos onde muitas vezes não existe uma resposta pronta ou única.

"Muitas pessoas pensam que a ética é apenas um processo burocrático ou que se resume a treinar pesquisadores, mas não é o que a GHBN significa. Estamos interessados nas discussões profundas: o que significa 'fazer a coisa certa' e ser ético em contextos específicos. A ética é construída por meio da política global e da ajuda mútua".

Durante a sua fala, a pesquisadora sênior no Kemri-Wellcome Trust, no Quênia, Dorcas Kamuya, trouxe a perspectiva dos territórios da África sobre a gestão de crises sanitárias. Ela alertou que diretrizes internacionais frias não dão conta das heterogeneidades locais e que a bioética deve ser capaz de ouvir as comunidades para ser efetiva e politicamente consciente.

"A pesquisa no continente africano teve que lidar com protocolos que surgiram em meio a uma forte politização da saúde. Nosso interesse é compreender como fortalecer os sistemas de ética no momento atual, garantindo que a resposta científica seja sensível às desigualdades estruturais".

O respeito cultural e a soberania das comunidades locais sobre suas próprias informações não podem ser atropelados pela busca pela transparência científica, conforme defendeu Phaik Yeong Cheah. À frente da Unidade de Pesquisa em Medicina Tropical da Tailândia (Moru), ela concentrou suas reflexões nos dilemas éticos que surgem ao lidar com dados em contextos de vulnerabilidade.

"O compartilhamento de dados abertos é um desafio maior em países de média e baixa renda, pois o processo de consentimento é mais complexo. Desenvolvemos políticas de governança de dados adaptadas a esses locais, garantindo que possamos compartilhar informações de maneira ética e segura".

Consolidada com a entrada da Fundação na rede, em 2024, por meio do Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva e do Núcleo Interdisciplinar em Emergências em Saúde em Saúde Publica (Niesp), a cooperação tem como foco o fortalecimento de pesquisas lideradas por países de baixa e média renda e o enfrentamento de dilemas éticos em saúde global.

Seções Relacionadas:
ENSP Internacional Parcerias

Nenhum comentário para: Fiocruz e Oxford lançam parceria por bioética de soberania para o Sul Global