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Curso Inédito da ENSP/Fiocruz capacita profissionais para manejo e vigilância das micobactérias não tuberculosas

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Publicado em:05/05/2026


*Por Tatiane Vargas

O Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), realiza, entre os dias 4 e 6 de maio, um curso inédito no Brasil voltado ao manejo clínico e à vigilância das micobactérias não tuberculosas (MNT). Reconhecidas como doenças emergentes no país, essas infecções representam um desafio crescente para o Sistema Único de Saúde (SUS), tanto pela complexidade do diagnóstico quanto pelo tratamento prolongado e de difícil condução.

Formação estratégica para o SUS

Com carga horária de 30 horas e modalidade presencial, o curso foi estruturado para qualificar médicos e outros profissionais envolvidos na assistência e vigilância das MNT, abordando desde aspectos laboratoriais até condutas clínicas e organização dos serviços de saúde.

De acordo com o pesquisador do CRPHF e coordenador do curso, Paulo Victor Viana, a proposta surge a partir de uma demanda concreta dos serviços de saúde. “O curso foi pensado diante de uma necessidade real do SUS, com o surgimento emergente de casos de MNT, que dificultam o manejo clínico, especialmente o diagnóstico. A ideia é formar e capacitar uma rede de profissionais que consiga reconhecer, manejar e acompanhar esses casos, que são complexos e de difícil condução”, explicou.

Segundo ele, a expectativa é que os participantes levem conhecimentos aplicáveis ao cotidiano. “Esses profissionais vão poder atuar nos seus territórios e unidades de saúde com mais segurança, contribuindo para o diagnóstico correto e para reduzir o sofrimento dos pacientes, que enfrentam tratamentos longos e desafiadores.”

Curso inédito e abordagem ampliada

Idealizadora e coordenadora do curso, a infectologista Evelyn Rubin destacou o caráter inovador da iniciativa. “Ele é inédito porque, pela primeira vez, reúne tanto a abordagem da doença pulmonar, que é a mais clássica, quanto da doença extrapulmonar. Isso responde ao aumento de casos no Brasil e no mundo.”

A programação contempla desde diagnóstico e tratamento até estratégias de controle, incluindo intervenções cirúrgicas nos casos mais complexos. A especialista também ressaltou os desafios no manejo clínico dessas infecções.

“O tratamento é individualizado e bastante complexo. Envolve múltiplos antibióticos por longos períodos e precisa considerar as condições de cada paciente, como idade, comorbidades e uso de outros medicamentos. Encontrar o melhor equilíbrio terapêutico é um grande desafio.”


Jorge Rocha, Evelyn Rubin e Paulo Victor Viana, do Centro de Referência Professor Hélio Fraga, da ENSP/Fiocruz.

Papel institucional e relevância estratégica

Durante a abertura, o coordenador do CRPHF, Jorge Rocha, destacou a importância da iniciativa no contexto da saúde pública. “O Centro de Referência Professor Hélio Fraga é referência assistencial para o estado do Rio de Janeiro e também referência técnica para o Ministério da Saúde. Isso reforça a importância de iniciativas como este curso. 

Ele também enfatizou a conexão com a missão da ENSP/Fiocruz. “Nossa missão está diretamente ligada à formação qualificada de profissionais para o SUS. Recebemos aqui participantes de todo o Brasil que precisam dessa capacitação em um tema ainda pouco disseminado nos serviços de saúde.”



Segundo Rocha, o caráter inédito da formação está diretamente relacionado à relevância crescente das MNT. “As micobactérias não tuberculosas são consideradas emergentes e vêm apresentando aumento de casos, tanto pulmonares quanto extrapulmonares. Por isso, o curso tem um papel estratégico na disseminação do conhecimento e no fortalecimento do manejo.”

Desafios no diagnóstico e na vigilância

A médica infectologista Gisela Unis, da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, destacou os principais entraves no enfrentamento dessas infecções. “O principal desafio no diagnóstico é pensar nas MNT, especialmente nas formas pulmonares, que muitas vezes são confundidas com a tuberculose. Se o profissional não considera essa possibilidade, o diagnóstico não acontece.”

Ela também apontou dificuldades relacionadas ao tratamento. “É um tratamento longo, que envolve várias medicações e nem sempre está amplamente disponível, o que pode levar à interrupção terapêutica.”



Gisela ressaltou ainda os avanços na organização da vigilância. “Hoje já contamos com uma ficha de notificação para acompanhamento dos casos no sistema do Ministério da Saúde, e estamos ampliando esse monitoramento para incluir também as infecções pós-procedimento, com previsão de disponibilização de medicamentos.”

Estado da arte e alerta à sociedade

Referência nacional no tema, a pneumologista e pesquisadora Margareth Dalcolmo destacou que as micobactérias não tuberculosas foram reconhecidas como doenças emergentes pelo Ministério da Saúde a partir de 2019, refletindo um cenário epidemiológico já observado em outras partes do mundo.

Segundo ela, essas infecções se dividem em dois grandes grupos de preocupação: as formas pulmonares, de diagnóstico e tratamento complexos, e aquelas associadas a procedimentos invasivos.

“São as chamadas micobactérias de tecidos moles ou de partes moles, muitas vezes relacionadas a procedimentos estéticos ou ao uso de próteses e ortéses, são, em grande parte, evitáveis e decorrem da chamada má prática clínica, podendo levar a surtos e epidemias.”

Dalcolmo fez um alerta direto à sociedade e aos profissionais de saúde. “É fundamental que as pessoas saibam onde e com quem realizam procedimentos. São doenças graves, muitas vezes de difícil cura e que podem deixar sequelas importantes.”



Troca de saberes e impacto na prática

Para Dalcolmo, a diversidade de profissionais presentes no curso - entre médicos, pneumologistas, infectologistas, cirurgiões e dermatologistas - é um dos pontos fortes da iniciativa. “Essa diversidade proporciona uma construção coletiva do conhecimento e amplia a consciência crítica sobre a necessidade do diagnóstico e do manejo adequado dessas doenças.”

Curso reforça da abordagem qualificada no SUS

Ao longo dos três dias, o curso promove a integração entre assistência e vigilância em saúde, reforçando a importância de uma abordagem qualificada diante de doenças complexas e ainda pouco reconhecidas nos serviços.

Para Jorge Rocha, coordenador do Centro de Referência, "a realização do curso reafirma o papel do CRPHF/ENSP/Fiocruz na formação de profissionais e no fortalecimento do Sistema Único de Saúde, ao mesmo tempo em que amplia o debate sobre um problema emergente e de crescente impacto na saúde pública".



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