Por Manoelli Santos
A Atenção Primária à Saúde (APS) como base do Sistema Único de Saúde (SUS) ganha novo impulso quando estratégias de gestão são desenvolvidas e implementadas, articulando políticas e práticas no cotidiano dos serviços. Essas iniciativas promovem mudanças na forma de ofertar o cuidado, ao organizar redes, qualificar processos de trabalho e orientar o uso de recursos, informações e pessoas. Experiências desenvolvidas em diferentes territórios do país demonstram que transformar o cuidado passa pela reconfiguração dos modelos de gestão e pela integração de atores em torno de objetivos comuns.
Experiências em diferentes territórios demonstram que transformar a APS implica reconfigurar modos de gestão aproximando-os do cotidiano e integrar diferentes atores. Nesse contexto, a relação entre gestão e cuidado se mostra indissociável, sendo influenciada tanto pelas práticas cotidianas das equipes quanto pelas estratégias desencadeadas nos diferentes espaços de gestão formuladas nos diversos níveis do sistema.
Segundo Eduardo Melo, vice-diretor da Escola de Governo em Saúde da ENSP/Fiocruz e coordenador-geral da Rede ColaboraAPS, a organização dos serviços de saúde resulta dessa interação entre a política, a gestão, o processo de trabalho e a realidade do local. Decisões tomadas em níveis municipal, estadual e federal impactam diretamente o cotidiano das Unidades Básicas de Saúde (UBS), ao mesmo tempo em que precisam estar abertas a processos mais dialógicos e sensíveis às realidades territoriais.

Crédito: Qualifica-APS: formação que transforma territórios e cuida onde é preciso, no Espírito Santo
Gestão em movimento transforma a APS em Itabuna (BA)
No município de Itabuna, no sul da Bahia, a implementação do programa “APS em Movimento: Gestão Peripatética na Atenção Primária à Saúde” tem promovido uma transformação significativa no modelo de cuidado. Criada em 2024, a iniciativa surge como resposta a desafios históricos, como a desmotivação das equipes e a predominância de um modelo hospitalocêntrico.
Inspirado na lógica da “gestão em movimento”, o programa aproxima gestores, trabalhadores e comunidade, promovendo uma construção coletiva baseada na escuta qualificada e nas demandas do território. A proposta rompe com práticas engessadas e aposta na corresponsabilização entre os atores do sistema.
O projeto se materializa por meio de um fluxo contínuo entre gestão e serviços: demandas identificadas nos territórios são analisadas, transformadas em estratégias e devolvidas às equipes em um processo cíclico e permanente.
Integração entre vigilância e cuidado avança em São Paulo
Na cidade de São Paulo, a criação dos Núcleos de Vigilância em Saúde na Atenção Básica (NUVIS-AB) representa um avanço estratégico na integração entre vigilância e assistência. A proposta insere a vigilância no cotidiano das UBS, promovendo um cuidado mais territorializado, resolutivo e orientado por dados.
Os núcleos reorganizam processos de trabalho, definem fluxos de notificação e estimulam o uso sistemático de indicadores de saúde. Com isso, as equipes passam a atuar de forma mais proativa, identificando riscos precocemente e planejando intervenções mais eficazes.
Com mais de 5 mil profissionais envolvidos e centenas de núcleos implantados, a iniciativa já apresenta resultados qualitativos importantes, como melhor organização do trabalho, redução de retrabalho e maior integração entre equipes. Embora os impactos quantitativos ainda estejam em consolidação, a estratégia fortalece a cultura do uso da informação na gestão e amplia a capacidade de resposta do sistema.
Ceará: integração e planejamento regional
No Ceará, o projeto “De Braços Abertos” se destaca como uma estratégia estadual de fortalecimento da APS por meio da macrogestão. A iniciativa articula diferentes níveis de atenção e aposta na integração entre gestão, território e cuidado para enfrentar desafios como a fragmentação da rede e o aumento das condições crônicas.

Crédito: IntegraEPS: Educação permanente como potência transformadora na qualificação dos saberes e práticas na Atenção Primária à Saúde
Estruturado em três eixos: educação permanente, planificação da atenção e pesquisa de implementação, o projeto promove uma governança mais coordenada e baseada em evidências. A planificação, em especial, tem contribuído para integrar a Atenção Primária, especializada e hospitalar, fortalecendo a lógica das redes regionalizadas.
Cultura avaliativa orienta gestão em Recife
Já em Recife, a iniciativa “Recife Monitora” reforça o papel da avaliação como ferramenta estratégica de gestão. As plataformas foram desenvolvidas para enfrentar fragilidades identificadas na rede, como a ausência de monitoramento sistemático e a baixa satisfação dos usuários.

Crédito: Gestão democrática da APS: a experiência do colegiado integrado gestor como dispositivo de participação e fortalecimento institucional
Com foco na gestão por resultados, a proposta estrutura fluxos contínuos de análise de dados, permitindo acompanhar o desempenho das equipes, comparar indicadores e reorientar práticas. A iniciativa contribui para consolidar uma cultura avaliativa na Atenção Básica, qualificando a tomada de decisão em diferentes níveis da gestão.
A Rede ColaboraAPS, iniciativa da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) em parceria com a Secretaria de Atenção Primária à Saúde, segue promovendo intercâmbios, sistematizando aprendizados e fortalecendo processos de aprendizagem colaborativa. Ao dar visibilidade a essas experiências, reafirma o papel estratégico da APS na construção de um cuidado em saúde mental mais acessível, integral e conectado à realidade dos territórios.