ENSP participa de 2º Abril Indígena da Fiocruz com ações de produção de conhecimento e saberes tradicionais
Por Danielle Monteiro
Da mobilização social à comunicação e à divulgação científica. Os projetos da ENSP selecionados para participar do 2º Abril Indígena da Fiocruz reúnem diferentes temas, mas compartilham um objetivo comum: fortalecer o protagonismo dos povos indígenas na produção de conhecimento em saúde, articulando ciência, saberes tradicionais e participação social. O edital, apoiado pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), integra o projeto ‘Desenvolvimento de ações para o aprimoramento do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS)’, firmado entre a Fundação e a Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai/MS). Das 17 iniciativas contempladas, três são da ENSP.
A vice-diretora de Pesquisa da Escola, Andréa Sobral, celebra a aprovação das propostas consolidadas nos três diferentes eixos da 2ª Chamada Abril Indígena da Fiocruz: “Ter uma iniciativa contemplada em cada eixo, seja no fortalecimento da formação e inserção de pesquisadores indígenas, na ampliação do acesso à produção científica de autoria indígena ou na mobilização social e defesa territorial, demonstra a capilaridade e o compromisso institucional com uma pesquisa em saúde verdadeiramente inclusiva e comprometida com os povos indígenas. Fico particularmente feliz em ver que conseguimos, enquanto instituição, dialogar com toda a complexidade que a chamada propôs, reafirmando o lugar da nossa Escola como referência na construção de práticas científicas mais equânimes e sensíveis à diversidade do nosso país”.
Entre os projetos selecionados está a oficina de troca de experiências entre pesquisadoras e pesquisadores indígenas participantes do programa Inova Saúde Indígena, que será realizada na ENSP. A iniciativa, proposta pela pesquisadora do Departamento de Endemias Samuel Pessoa da ENSP (DENSP), Diádiney Helena de Almeida, prevê dois dias de rodas de conversa sobre trajetórias, desafios e contribuições desses pesquisadores, além de debates sobre participação, autonomia e protagonismo na produção científica. A programação inclui ainda a sistematização de recomendações para o fortalecimento da inserção indígena na pesquisa e uma visita institucional ao campus da Fiocruz. A proposta parte do reconhecimento dos povos indígenas como produtores de conhecimento e busca promover um espaço de escuta, diálogo intercultural e reflexão sobre aspectos éticos, políticos e epistemológicos da pesquisa em saúde indígena, contribuindo para práticas científicas mais inclusivas e comprometidas com a equidade.
Outra iniciativa contemplada é a atividade ‘Protagonismo Indígena na Produção do Conhecimento’, que será realizada em 30 de abril. A ação prevê a divulgação e distribuição de materiais relacionados ao Repositório de Saúde dos Povos Indígenas, que reúne milhares de itens de autorias indígenas, e também referentes às coletâneas Vozes Indígenas na Produção do Conhecimento. Tem como objetivo fortalecer a disseminação do conhecimento e o protagonismo indígena na área da saúde, promovendo e ampliando o acesso a produtos desenvolvidos por autores dessa população, especialmente entre trabalhadores do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) e estudantes de Licenciaturas Indígenas, considerando as limitações atuais de acesso a esse tipo de produção. A atividade foi proposta pela pesquisadora do DENSP/ENSP e coordenadora de projetos do programa Inova Saúde Indígena, Ana Lucia de Moura Pontes.
A participação da ENSP no edital também inclui o reconhecimento do papel central das populações indígenas da região amazônica. Em 29 de abril, será realizada a atividade ‘Um grito em defesa do Tapajós: o protagonismo dos povos indígenas da Amazônia’, proposta por Paulo Cesar Basta, pesquisador do DENSP/ENSP e coordenador do grupo de pesquisa ‘Ambiente, Diversidade e Saúde’. A iniciativa trará reflexões sobre a mobilização dessas populações frente ao Decreto 12.600/25, que prevê a construção de uma hidrovia, e seus impactos socioambientais. A programação inclui uma roda de debate com lideranças indígenas, além das apresentações do coletivo Ciência e Poesia e do grupo musical Suruaras do Tapajós, vinculadas ao lançamento dos álbuns Amazônia Sem Garimpo – Volumes 1 e 2 e do livro Cancioneiro Amazônia Sem Garimpo, produzidos no âmbito do projeto de pesquisa ‘Impacto do Mercúrio em Áreas Protegidas e Povos da Floresta na Amazônia: Uma Abordagem Integrada Saúde-Ambiente’, coordenado pelo grupo de estudo ‘Ambiente, Diversidade e Saúde’. A equipe produz evidências científicas sobre os efeitos da contaminação por mercúrio em povos indígenas e no ecossistema amazônico, além de realizar devolutivas às comunidades, ações de advocacy e comunicação e a criação de canções em parceria com lideranças indígenas, reunidas no Cancioneiro Amazônia Sem Garimpo.
A vice-diretora de Pesquisa da ENSP reafirma que as três propostas contempladas pelo edital refletem diferentes estratégias de articulação entre ciência, saberes tradicionais e participação social. Segundo ela, a oficina de troca de experiências entre pesquisadoras e pesquisadores indígenas do programa Inova Saúde Indígena merece especial destaque: “Essa iniciativa coloca no centro do debate as trajetórias, os desafios e as contribuições de cientistas indígenas, promovendo um espaço de escuta, diálogo intercultural e reflexão ética e epistemológica. As demais atividades, voltadas à divulgação do Repositório de Saúde dos Povos Indígenas e à defesa do território Tapajós junto a lideranças da região, complementam esse esforço ao ampliar o acesso ao conhecimento produzido por autores indígenas e fortalecer a mobilização social”.
2º Abril Indígena da Fiocruz
O 2º Abril Indígena da Fiocruz tem como objetivo fomentar ações de saúde indígena que serão realizadas nas unidades e escritórios da Fiocruz, voltadas à divulgação científica, comunicação e mobilização social de projetos relacionados ao tema. A chamada contemplou propostas de unidades sediadas na Bahia, Brasília, Ceará, Manaus, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Piauí, Rio de Janeiro e Rondônia.
A primeira edição do Abril Indígena Fiocruz aconteceu em 2025 e apoiou dez iniciativas. A programação envolveu rodas de conversa, oficinas, exposições, mostras audiovisuais e apresentações culturais, abordando temas como saúde, território, racismo ambiental, plantas medicinais e cosmologias indígenas.
O edital faz parte das comemorações do Dia dos Povos Indígenas, celebrado anualmente em 19 de abril. Após o êxito da primeira edição, o Abril Indígena Fiocruz passou a compor o calendário institucional como uma iniciativa permanente.



