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Integração entre serviços e cuidado contínuo são centrais no enfrentamento da tuberculose, destacam especialistas

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Publicado em:13/04/2026

Atividade reuniu profissionais, gestores e pesquisadores e evidenciou que articulação entre Atenção Primária e serviços de referência é decisiva para adesão ao tratamento e melhores desfechos.

Como parte das mobilizações pelo Dia Mundial de Combate à Tuberculose, celebrado em 24 de março, o Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF/ENSP/Fiocruz) promoveu, nesta quinta-feira (9/4), o Simpósio comemorativo ao Dia Mundial de Combate à Tuberculose. Com o tema "A integração estratégica entre Referência e Atenção Primária para o cuidado integral em Tuberculose", o encontro reuniu profissionais da assistência, pesquisadores e gestores em torno de um desafio comum: como garantir que o cuidado chegue, permaneça e faça sentido na vida dos pacientes.

Realizado em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, o Simpósio evidenciou que, apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, a tuberculose segue profundamente marcada por desigualdades sociais - e que seu enfrentamento depende, cada vez mais, da capacidade de articulação entre serviços e da construção de vínculos no cuidado.

Representando a Presidência da Fiocruz, Patrícia Canto destacou o papel da instituição na sustentação do SUS e na produção de conhecimento comprometido com a realidade do país. “A resposta à tuberculose exige ciência, mas também articulação e compromisso com o sistema público de saúde”, afirmou. Pela direção da ENSP, Fátima Rocha reforçou o papel da formação profissional: “Estamos falando de preparar trabalhadores capazes de atuar em contextos complexos, com sensibilidade para o território e para as necessidades reais dos usuários”.


Fundadora do Centro de Referência, Margareth Dalcolmo trouxe a dimensão histórica do enfrentamento da doença. “A tuberculose nunca foi apenas um problema biomédico. Ela revela desigualdades, exige políticas contínuas e uma atuação persistente do Estado”, destacou. Na mesma direção, Carlos Basília, do Observatório Brasil TB, enfatizou o papel da informação qualificada: “Sem dados consistentes e monitoramento permanente, não conseguimos dimensionar o problema nem orientar as respostas”.

Já Márcia Mesquita, da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, sintetizou um dos principais desafios atuais. “Precisamos garantir que o cuidado não se fragmente. A integração entre os pontos da rede é o que sustenta o tratamento até o fim”.

Tuberculose drogarresistente expõe limites da fragmentação do cuidado

Abrindo a programação, o chefe do CRPHF, Jorge Rocha, e a pesquisadora do Centro de Referência, Marcela Bhering, abordaram a tuberculose drogarresistente (TBDR) como um dos principais desafios contemporâneos. “São tratamentos mais longos, mais complexos e com maior risco de abandono. Se a rede não estiver organizada, a chance de desfechos desfavoráveis aumenta significativamente”, alertou Jorge Rocha.



Marcela Bhering reforçou que o enfrentamento da TBDR exige mais do que protocolos clínicos. “Estamos falando de pessoas que muitas vezes enfrentam vulnerabilidades sociais importantes. O cuidado precisa ser contínuo, próximo e articulado entre os serviços”.


A discussão foi aprofundada por Márcia Mesquita, ao tratar dos fluxos de referência e contrarreferência. Para ela, ainda há fragilidades que impactam diretamente a continuidade do tratamento. “Quando o paciente se perde no caminho, não é uma falha individual — é uma falha do sistema. Precisamos revisar fluxos, fortalecer a comunicação e assumir a corresponsabilidade pelo cuidado”.


Diagnóstico oportuno e integração com laboratório são estratégicos

A chefe do Laboratório Nacional em Bacteriologia da TB/MNT do CRPHF, Fátima Fandinho, destacou os avanços nas tecnologias de diagnóstico rápido da resistência. “Hoje conseguimos identificar precocemente perfis de resistência, o que muda completamente a condução do caso. Mas isso só se traduz em benefício real quando há integração entre laboratório e assistência”, explicou.


Segundo ela, o desafio não é apenas tecnológico, mas organizacional. “Não adianta termos respostas rápidas se elas não chegam ao profissional que está na ponta no tempo certo para tomada de decisão”.

Sem vínculo, não há adesão: o cuidado que passa pela escuta

A dimensão do cuidado como relação foi um dos pontos altos da programação da manhã. A enfermeira Danyella Kessea Meirelles trouxe para o debate a centralidade do vínculo. “A adesão ao tratamento não se constrói só com prescrição. Ela se constrói com escuta, com respeito e com a capacidade de compreender o contexto de vida do paciente”, afirmou.


Na mesma linha, Ana Paula Ferreira Barbosa abordou o Tratamento Diretamente Observado (TDO) como estratégia que vai além do controle da medicação. “O TDO é um espaço de encontro. É ali que conseguimos identificar dificuldades, apoiar o paciente e fortalecer o compromisso com o tratamento”.


Território e vulnerabilidade desafiam modelos tradicionais de cuidado

No período da tarde, as apresentações trouxeram a realidade dos territórios para o centro do debate, evidenciando os limites de abordagens padronizadas diante de contextos complexos.
Ao falar sobre matriciamento, Vandna Deschamps destacou o papel do apoio técnico às equipes da Atenção Primária. “Não se trata de transferir o cuidado, mas de compartilhá-lo. O matriciamento fortalece a capacidade da equipe de lidar com casos mais complexos no território”.

Gabriella Sena trouxe a experiência do Consultório na Rua, destacando os desafios no cuidado de pessoas em situação de rua com TBDR. “Estamos falando de pessoas que, muitas vezes, não têm onde dormir ou se alimentar. O cuidado precisa ser flexível, acessível e adaptado a essa realidade”, afirmou.


A enfermeira Janaína Leung abordou casos que envolvem saúde mental e uso de drogas, ressaltando a necessidade de integração entre diferentes áreas. “Não há como tratar tuberculose isoladamente nesses contextos. É preciso construir um cuidado em rede, com múltiplos olhares”.


Transição do cuidado e continuidade do tratamento seguem como desafios

A pesquisadora Denise Medeiros discutiu os critérios e desafios da hospitalização, chamando atenção para a necessidade de planejamento da alta. “A saída do hospital não pode significar descontinuidade. É preciso garantir que esse paciente seja acolhido na rede e siga em tratamento”.


Encerrando as apresentações, a farmacêutica Suellen Sabrina Batista dos Santos destacou a importância da gestão de medicamentos nesse processo. “A continuidade do tratamento também depende de organização logística, comunicação entre serviços e segurança na dispensação”.


Encerramento reforça compromisso coletivo e papel da rede

Na fala de encerramento, o chefe do CRPHF/ENSP/Fiocruz, Jorge Rocha, retomou os principais pontos discutidos ao longo do dia e reforçou a ideia de corresponsabilidade. “O que vimos aqui hoje é que o cuidado em tuberculose não se sustenta de forma isolada. Ele depende de articulação, de diálogo entre serviços e, principalmente, de compromisso com o paciente”, afirmou.

Para ele, o grande desafio é garantir que essa integração aconteça de forma concreta no cotidiano dos serviços. “Não basta reconhecer a importância da rede, é preciso fazê-la funcionar, para que o cuidado seja contínuo e efetivo”. 

"Esse evento foi marcado por intensa troca de experiências, escuta qualificada e forte envolvimento dos participantes, reafirmando o papel do CRPHF/ENSP/Fiocruz como espaço de referência na articulação entre assistência, pesquisa e formação, e como ator estratégico no enfrentamento da tuberculose no Brasil", conclui Jorge Rocha.


Assista às apresentações completas do simpósio:


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