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Fórum Oswaldo Cruz inicia nova etapa para elaboração do Plano de Pesquisa da Fiocruz

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Publicado em:09/03/2026

A nova etapa do Fórum Oswaldo Cruz começou na quarta-feira (4/3), com a realização do seminário Determinação social do processo saúde-doença numa perspectiva interseccional. O evento reuniu pesquisadores e especialistas das diferentes unidades da Fundação e marcou o ponto de partida para a troca de experiências entre os grupos responsáveis pela formulação do documento estratégico.

Plano de Desenvolvimento Institucional da Pesquisa permitirá à Fundação enfrentar desafios sanitários nacionais e globais Foto: Peter Ilicciev).

"Pesquisa e educação andam juntas. Coordenar ações na área de pesquisa por meio do Plano de Desenvolvimento Institucional da Pesquisa da Fiocruz (2026-2030) resultará numa iniciativa inédita", afirmou a vice-presidente de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz), Alda Maria da Cruz, apontando o horizonte de trabalho dos próximos meses. Além de Alda Cruz, participaram da abertura o presidente Mario Moreira e a vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação (Vpeic/Fiocruz), Marly Cruz.

Marly destacou a experiência com o Plano de Desenvolvimento Institucional da Educação da Fiocruz, construído por um grupo técnico da Vpeic, com contribuições da Subcâmara Técnica de Ensino. A iniciativa foi concebida para fortalecer a formação necessária para atender às necessidades da saúde pública e ampliar as capacidades do SUS. Segundo ela, essa experiência ajuda a orientar o movimento que agora inicia na área de pesquisa da Fundação. “O Plano para a pesquisa busca fortalecer o SUS e mobilizar a comunidade científica”, destacou. 

Ela também anunciou as novas iniciativas vinculadas ao Fórum. Entre elas está o lançamento de uma enquete na plataforma RedCap, já disponível para participação de trabalhadores e estudantes da Fiocruz e pensada para integrar as ações de construção coletiva do Plano. Também foram anunciados o Guia de orientação para os grupos de formulação do Plano; a constituição dos embaixadores do Fórum, especialistas responsáveis pelas atividades de pesquisas nas unidades e que atuarão na organização dos grupos de formulação; e a plataforma Quem somos na Fiocruz, voltada para mapear pesquisadores e suas produções científicas e tecnológicas.

A vice-presidente Marly Cruz destacou que o Plano para a pesquisa busca fortalecer o SUS (Foto: Peter Ilicciev).

Ao iniciar sua participação, Mario Moreira lembrou que cerca de 2 mil pessoas atuam direta ou indiretamente na área de pesquisa da Fundação. A instituição conta atualmente com 48 programas de pós-graduação, responsáveis por formar quadros estratégicos para o SUS. “Com os pés fincados na tradição e os olhos voltados para o futuro, nos tornamos uma instituição modelo no mundo, uma instituição pasteuriana”, afirmou ao evocar a tradição do Instituto Pasteur, na França, para destacar o caráter plural e diverso da Fiocruz. 

Para o presidente, o Plano de Desenvolvimento Institucional da Pesquisa permitirá à Fundação enfrentar desafios sanitários nacionais e globais em um cenário internacional marcado pelo questionamento do multilateralismo, pela desqualificação de organismos como a OMS, além das pressões geradas pelas migrações e pelas mudanças climáticas. “São necessários novos mecanismos para que o mundo não fique vulnerável a pandemias, e a Fiocruz precisa se organizar para isso. O Fórum é o espaço para discutir os desafios atuais e futuros", sublinhou.

Ainda na parte da manhã, pelo canal de transmissão do seminário, também foi divulgada a página do Fórum Oswaldo Cruz, que reúne as informações sobre todo o processo e funciona como espaço de disponibilização dos novos documentos de trabalho e memória dos seminários promovidos.

O presidente Mario Moreira afirmou que "são necessários novos mecanismos para que o mundo não fique vulnerável a pandemias" (Foto: Peter Ilicciev)

A questão da determinação social e da interseccionalidade

A primeira mesa-redonda que atribui título ao seminário, Determinação social do processo saúde-doença numa perspectiva interseccional, reuniu especialistas para discutir os limites e as possibilidades de algumas abordagens na compreensão das desigualdades em saúde. O debate foi mediado pela coordenadora de Comunicação Social da Fiocruz, Raquel Aguiar, e contou com a participação de Paulo Sabroza, do Departamento de Endemias Samuel Pessoa da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz); Gulnar Azevedo, da Uerj; Paulo Buss, do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz); e Naomar de Almeida Filho, do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

Ao refletir sobre a possibilidade de um método científico eficiente, Paulo Sabroza discutiu os conceitos de casualidade e determinação no campo da saúde. Segundo ele, a tradição científica consolidada no século XIX – que acompanhou o surgimento da epidemiologia moderna – privilegiou uma abordagem centrada na casualidade das doenças. Para o pesquisador, embora o método analítico tenha contribuições, ele se mostra insuficiente para compreender problemas de saúde. Sabroza defendeu uma abordagem mais ampla, capaz de articular diferentes formas de conhecimento e de superar visões reducionistas da saúde pública.

Nessa direção, a epidemiologista e reitora da Uerj, Gulnar Azevedo, reforçou a necessidade de pensar a ciência para além da cura de doenças, incorporando fatores sociais, econômicos e territoriais que interferem no processo saúde-doença. Com base em dados estatísticos nacionais, ela  mostrou como diferenças regionais, de classe social  e de raça influenciam o acesso ao tratamento, as chances de cura e até mesmo as estratégias de prevenção de doenças crônicas – como o câncer, uma das principais causas de morte neste do século. Para Gulnar, considerar categorias como interseccionalidade e determinantes sociais é fundamental para garantir que todas as pessoas tenham acesso aos recursos de prevenção e tratamento.  

Naomar de Almeida Filho trouxe ao debate a pergunta: determinantes sociais das doenças ou determinação social da saúde? O professor chamou atenção para a importância da linguagem e da semântica na construção das análises e defendeu a necessidade de ir além das formulações tradicionais. Como alternativa, propôs uma abordagem baseada na categoria determinação eco-etno-social (DEES), que articula dimensões ecológicas, étnico-culturais e sociais para compreender as iniquidades em saúde.  
Na avaliação de Naomar, as categorias "determinação social" e "interseccionalidade", embora importantes, apresentam limites analíticos. Por isso, sugeriu ampliar o debate com a noção de "sobredeterminação", entendida como uma categoria mais abrangente para analisar os processos que produzem desigualdades em saúde. Essa perspectiva considera trajetórias múltiplas de determinação social. “A discussão conceitual precisa avançar e incorporar também a colonialidade epistêmica", observou.

Na sequência, o ex-presidente da Fiocruz Paulo Buss apresentou um panorama do debate global sobre os determinantes sociais da saúde. Ele enfatizou o papel histórico dos sistemas de saúde pública e da própria Fundação, criada com uma vocação para doenças infecciosas e para enfrentar problemas sanitários. “Por isso, precisou fazer pesquisa e formar recursos humanos”, lembrou. Segundo Buss, as condições de saúde das populações resultam de um conjunto amplo de fatores interligados – entre eles desigualdades sociais, decisões político-econômicas e mudanças ambientais. Diante desse cenário complexo, afirmou, cabe à comunidade científica repensar as estratégias de pesquisa e de formulação de políticas públicas. Ele também ressaltou o caráter inevitavelmente político das agendas de saúde.

“Tudo tem natureza política – das decisões de governo à vida acadêmica, passando por questões sociais, ambientais e econômicas”, afirmou. Nesse sentido, acrescentou, a agenda da Fiocruz – incluindo o debate sobre determinação social – é também uma agenda política e social. “Saúde é o resultado de um conjunto de políticas sociais e econômicas”, frisou. Ao comentar os desafios globais contemporâneos — como crises ambientais, desigualdades e conflitos geopolíticos — que impactam diretamente as condições de saúde, Buss defendeu que a produção científica contribua de forma mais ativa para orientar políticas públicas e agendas de pesquisa.

Agenda de pesquisa

A programação da tarde contou com a mesa-redonda Experiências de Elaboração de Plano de Desenvolvimento da Pesquisa na Fiocruz, composta pelas pesquisadoras Luzia Carvalho, do Instituto René Rachou (Fiocruz Minas); Luciana Dias, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz); e Flávia Elias, da Fiocruz Brasília. A moderação foi conduzida por Tania Fonseca, da Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência, instância que integra o grupo da Presidência nos trabalhos do Fórum Oswaldo Cruz.

Para a vice-presidente Alda Cruz, as unidades vão auxiliar na formação da matriz que é necessária para a elaboração da agenda de pesquisa da Fiocruz (Foto: Peter Ilicciev)

Ao abrir a sessão, a vice-presidente Alda Cruz destacou a importância de o processo institucional se apoiar nas experiências acumuladas pelas unidades. “Estamos neste encontro bebendo da experiência que as unidades já estão construindo com relação às suas agendas de pesquisa. São elas que vão nos auxiliar na formação dessa matriz densa que é necessária para a elaboração da agenda de pesquisa da Fiocruz”, afirmou.

Na mediação, Tania Fonseca ressaltou a diversidade institucional e o papel articulador da coordenação. “A Coordenação de Vigilância tem uma característica muito singular, porque trabalha em rede com todas as unidades da Fiocruz. Isso nos dá uma oportunidade enorme de interação, seja com grupos de pesquisa, seja com as referências propriamente ditas. Com isso, temos um panorama do país, uma vez que a Fiocruz está presente — como costumamos dizer — em todas as regiões, em todos os biomas e em diferentes organizações”, observou.

Citando a fala do professor Paulo Sabroza na mesa-redonda da manhã, Tania reforçou que a Fiocruz nasceu com uma visão estratégica de Estado. “É uma instituição do Estado brasileiro, voltada para resolver problemas desse Estado. Em nossas andanças, percebemos que os projetos de pesquisa refletem isso: os territórios, as interações, as intervenções e as possibilidades de cada área. Formar uma mesa com essa diversidade remete à metáfora utilizada mais cedo, a do aquário e do lugar que ocupamos nele. O Fórum Oswaldo Cruz pretende ser esse aquário, onde diferentes áreas, regiões e grupos possam se ver refletidos e, ao mesmo tempo, reconhecidos como parte desse grande aquário multicolorido e diverso que é a Fiocruz”, destacou.

Experiências das unidades

Ao iniciar sua apresentação, Luzia Carvalho relatou a experiência da Fiocruz Minas na construção de sua agenda estratégica de pesquisa, destacando o papel das câmaras técnicas abertas como espaço permanente de debate institucional. “Neste processo de construção coletiva, fomos levados a definir os principais temas estratégicos de pesquisa da unidade. Isso foi possível por meio de câmaras técnicas abertas e encontros institucionais, que culminaram na definição de quatro grandes temas e de temas transversais. Não criamos uma agenda de pesquisa de uma hora para a outra — foi um processo longo, com muitas etapas”, explicou.

Segundo a pesquisadora, a agenda foi construída a partir do mapeamento das competências institucionais e do fortalecimento de um “ecossistema da pesquisa”, envolvendo gestão, ensino, laboratórios e comunicação. Os temas estratégicos definidos incluíram respostas a emergências e desastres, redução de doenças socialmente determinadas, desafios do perfil demográfico e epidemiológico da população brasileira e questões relacionadas à saúde, ambiente e vulnerabilidade social. Entre os temas transversais estão clima e saúde, vigilância, ciência de base e comunicação ativa.

Luciana Dias apresentou a experiência da Ensp/Fiocruz no fortalecimento da gestão estratégica da pesquisa entre 2021 e 2025. Segundo ela, o planejamento foi adotado como instrumento participativo de definição de prioridades e organização institucional. Isso foi crucial para definir a direção e as prioridades com construção coletiva, apoiar a tomada de decisão, com transformação de diretrizes em ações concretas, fortalecer a governança institucional e permitir monitoramento contínuo, avaliação e aprendizado institucional. A Escola reúne atualmente 262 servidores dedicados à pesquisa e conta com 66 grupos certificados pelo CNPq. A diversidade também marca a formação do corpo técnico, composto por profissionais de cerca de 40 áreas acadêmicas. Inserida no campo da saúde coletiva — que articula epidemiologia, ciências sociais e humanas em saúde e política e gestão em saúde —, a Ensp/Fiocruz mantém forte compromisso com a produção científica voltada saúde pública e à justiça social.

Durante a gestão, o planejamento da pesquisa foi estruturado a partir de um Programa Vivo, que definiu eixos estratégicos orientados pelas diretrizes aprovadas no Congresso Interno da Fiocruz. O primeiro eixo foi o fortalecimento da articulação interna e externa, ampliando o diálogo com outras unidades da instituição e com parceiros governamentais e movimentos sociais. O segundo concentrou-se no fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico aplicado à saúde pública e à saúde coletiva, incluindo um programa específico de financiamento à pesquisa com apoio da Presidência da Fiocruz. O terceiro eixo priorizou o fortalecimento da comunicação institucional e da divulgação científica.

A experiência também trouxe aprendizados para a gestão. Entre eles, a compreensão de que o planejamento deve funcionar como um guia de alinhamento de propósitos, e não como instrumento de controle. A participação institucional foi apontada como elemento central para garantir legitimidade às decisões e reduzir resistências internas, ainda que processos participativos também revelem conflitos que exigem mediação institucional. Luciana destacou ainda desafios importantes, como a dificuldade de priorização em ambientes de grande diversidade temática, a fragmentação entre pesquisa, ensino e gestão e a dependência crescente de financiamento externo. Nesse cenário, a liberação de recursos institucionais para editais internos foi considerada fundamental para estimular a colaboração e reduzir a competição entre pesquisadores.

Planejamento e redes de colaboração

Na apresentação final da mesa, Flávia Elias compartilhou a experiência da Fiocruz Brasília na elaboração de seu plano de ação para a área de pesquisa. O trabalho vem sendo desenvolvido por um grupo responsável por estruturar o planejamento de forma participativa, com reuniões regulares envolvendo pesquisadores, profissionais que atuam em atividades de pesquisa e bolsistas vinculados a projetos.

Atualmente, a unidade conta com 11 grupos de pesquisa formalizados, muitos deles fortemente vinculados à formulação e avaliação de políticas públicas em áreas como soberania alimentar, saúde do trabalhador, saúde mental e avaliação de tecnologias em saúde. Parte dessa atuação ocorre por meio de assessorias técnicas a órgãos governamentais e participação em comitês e conselhos ligados à formulação de políticas públicas. Como estratégia de integração entre os grupos, foram criados coletivos temáticos voltados a pautas transversais, como equidade étnico-racial e de gênero, acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência e envelhecimento e longevidade. Também está em desenvolvimento um coletivo dedicado à saúde da mulher.

A Ensp/Fiocruz mantém ainda parcerias com diferentes instituições, incluindo outras unidades da Fiocruz, órgãos do governo federal e universidades brasileiras e internacionais. Essas colaborações se concretizam por meio de instrumentos como Termos de Execução Descentralizada (TED), convênios, acordos de cooperação técnica e projetos financiados por emendas parlamentares. Entre as iniciativas recentes está uma chamada pública para projetos de pesquisa qualitativa que financiou 18 propostas, das quais 15 foram concluídas, apesar dos impactos da pandemia. Os projetos geraram produtos técnicos, metodologias, modelos de gestão e artigos científicos, além de iniciativas de formação acadêmica associadas à pesquisa.

Com base nessa trajetória, a unidade trabalha agora na consolidação de um plano estruturado de gestão e fomento à pesquisa. “O objetivo é organizar iniciativas já existentes em uma estratégia mais integrada e sustentável, voltada ao fortalecimento da pesquisa aplicada às necessidades do SUS, às demandas das políticas públicas e às realidades dos territórios. A proposta busca ampliar o impacto social da produção científica e consolidar a instituição como um polo robusto de desenvolvimento de soluções para desafios de saúde pública”, afirmou Flavia.

Entre os objetivos do plano estão o fortalecimento da governança da pesquisa, a integração entre grupos por meio de linhas temáticas transversais, a ampliação de mecanismos de financiamento e o fortalecimento da relação com os territórios. Também fazem parte das metas a democratização do acesso ao conhecimento científico e o aprimoramento da gestão do conhecimento institucional.

Encerramento

Ao encerrar o debate, a mediadora Tania Fonseca destacou que as apresentações refletiram a diversidade de trajetórias das unidades da Fiocruz, mas também revelaram pontos de convergência importantes. “A necessidade de agendas transversais, o trabalho em equipe, o estímulo aos grupos de pesquisa e aos jovens pesquisadores apareceram em todas as falas”, observou. Ela também ressaltou a importância de ampliar os espaços de diálogo institucional, retomando um ponto levantado anteriormente pelo professor Paulo Sabroza sobre a necessidade de fortalecer as conversas internas. "Cada uma das exposições trouxe novas questões e possibilidades que devem alimentar as discussões do Fórum nos próximos meses, contribuindo para aprofundar o debate até a consolidação das propostas previstas para agosto", concluiu Tania.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias
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