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ENSP debate diversidade e equidade na Pós-Graduação durante a Abertura do Ano Letivo 2026

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Publicado em:03/03/2026

*Por Bruna Abinara e Tatiane Vargas

O segundo dia de atividades da Abertura do Ano Letivo 2026 da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) foi marcado por um debate aprofundado sobre diversidade e equidade na Pós-Graduação. A programação reuniu docentes, pesquisadores e estudantes em torno da mesa ‘Desafios da Equidade na Pós-Graduação’, coordenada pelo vice-diretor de Ensino da Escola, Gideon Borges. A atividade teve início com a apresentação da Vice-Direção de Ensino (VDE/ENSP) sobre o Núcleo de Gestão da Diversidade e Políticas Afirmativas, instância recentemente estruturada para fortalecer as ações institucionais voltadas à inclusão e à acessibilidade. 

Segundo Gideon Borges, o Núcleo é um espaço estratégico da gestão. “É importante ressaltar que se trata de um núcleo da gestão. Ele não opera diretamente as Políticas de Ações Afirmativas, mas atua na execução daquilo que está estabelecido pelas políticas institucionais. A ideia é criar uma inteligência institucional capaz de responder às demandas que envolvem ensino, assistência e pesquisa, garantindo mais inclusão e acessibilidade”, explicou. 

De acordo com o vice-diretor, a criação do Núcleo responde ao aumento e à complexidade das demandas, especialmente por parte dos estudantes. “São muitas demandas que surgem, predominantemente dos alunos, e precisamos de pessoas especializadas para atendê-las da melhor maneira possível. O Núcleo vem para auxiliar a gestão a dar respostas qualificadas às questões de inclusão e acessibilidade, reafirmando o compromisso da Escola com uma perspectiva inclusiva”, completou. 

Ao abrir a mesa, Gideon destacou que iniciar o ano letivo debatendo equidade não é casual, mas parte de um eixo estratégico do Projeto Político-Pedagógico da ENSP. “Trouxemos palestrantes que atuam em diferentes frentes - pessoa com deficiência, população negra, povos indígenas, população LGBTQIAPN+ - porque queremos promover o desenvolvimento da equidade numa perspectiva interseccional. Começar o ano com essa discussão é uma forma de sensibilizar a comunidade e, ao mesmo tempo, construir uma agenda permanente para aprofundar o tema ao longo dos próximos anos”, afirmou. 

Para ele, tornar a Escola cada vez mais inclusiva envolve mudanças que vão desde a construção de uma cultura institucional de acolhimento até a revisão de metodologias e da própria estrutura física. “Isso implica pensar em metodologias acessíveis, em políticas de permanência, em reestruturação de espaços e, sobretudo, em uma instituição mais acolhedora para a diversidade humana.” 

Equidade racial e agenda antirracista 

Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Rita de Cassia Dias Pereira de Jesus abordou a promoção da equidade sob a perspectiva étnico-racial. Em sua exposição, destacou os avanços sociais e políticos das políticas afirmativas voltadas ao acesso, à permanência e à pós-permanência de estudantes negros na Pós-Graduação. 

A docente ressaltou a necessidade de consolidar uma agenda antirracista estruturante, capaz de impactar a gestão administrativa e pedagógica das instituições. “Não se trata apenas de garantir o ingresso. É fundamental que as políticas afirmativas estejam integradas às políticas públicas e institucionais, incidindo sobre os currículos, a destinação de recursos, a formação continuada de docentes e a constituição de redes colaborativas que envolvam Educação Básica, Ensino Superior e movimentos sociais negros”, defendeu. 

Educação das sensibilidades e deficiência 

Doutoranda do Programa de Ciências, Tecnologias e Inclusão da Universidade Federal Fluminense, Ana Cristina Teixeira Prado - que também integra a Diretoria de Educação Especial e Inclusiva da Secretaria Municipal de Educação de Niterói - trouxe à mesa a perspectiva das pessoas com deficiência, a partir de sua experiência como mulher com deficiência visual. 

Em sua fala, destacou que a transformação institucional passa, antes de tudo, por um deslocamento subjetivo. “Precisamos nos distanciar de nós mesmos para rever nossas práticas sociais. Os conhecimentos técnicos são importantes, mas não são suficientes para garantir o respeito à diversidade humana. É preciso conjugar esses conhecimentos com a educação das sensibilidades”, afirmou. 

Ana Cristina enfatizou que a universidade, embora seja um espaço de produção de conhecimento e interação, ainda reproduz exclusões. “São ambientes que, muitas vezes, discriminam e eliminam. É justamente nesses espaços que a educação precisa começar, porque é daqui que sairão os futuros profissionais. Garantir respeito à diversidade exige uma transformação cultural profunda.” 

Universalidade de direitos e políticas de permanência 

Docente do Departamento de Direitos Humanos e Saúde (Dihs/ENSP), Henrique Rabello de Carvalho relacionou o debate sobre equidade à própria tradição da Reforma Sanitária brasileira. Ao mencionar o pensamento de Sérgio Arouca, destacou que a universalização de direitos é um dos pilares do campo da saúde coletiva. 

“Se retomarmos a história da Reforma Sanitária, veremos que ela não foi fruto de um processo burocrático, mas da luta pela universalização de direitos. A equidade é fundamental porque é a partir dela que conseguimos compreender as demandas dos diferentes grupos sociais e compatibilizar suas especificidades com o ideal de universalidade”, argumentou. 

Henrique ressaltou que isso implica não apenas pensar em políticas de acesso, como cotas, mas também em políticas de permanência. “É preciso considerar as especificidades de pessoas trans, estudantes que são mães ou pais, pessoas LGBTI+, negras, quilombolas. A equidade nos permite enxergar essas realidades e formular respostas institucionais que garantam direitos de forma efetiva.” 

Povos indígenas e enfrentamento ao racismo estrutural 

Encerrando a mesa, a primeira pesquisadora indígena da ENSP/Fiocruz, Diádiney Helena de Almeida, trouxe uma reflexão contundente sobre o papel da universidade no enfrentamento das desigualdades históricas. 

“Meu objetivo é produzir conhecimento e, politicamente, construir pontes para que as demandas dos territórios indígenas sejam acolhidas, escutadas e incorporadas nas agendas institucionais, acadêmicas e políticas”, afirmou. Para ela, é necessário “tensionar os muros da universidade e da Fiocruz” para que se tornem permeáveis aos saberes e aos projetos de futuro dos povos indígenas. 

Diádiney destacou que o racismo deve ser nomeado como problema estrutural. “O racismo é uma lógica histórica e institucional que estruturou o Estado e as políticas públicas, hierarquizando vidas e saberes. Foram ideias racializadas que colocaram os povos indígenas à margem dos processos de formação em saúde, seja como sujeitos formadores, seja como destinatários de políticas pensadas sem sua participação.” 

Segundo a pesquisadora, além de excluir, o racismo naturalizou a vulnerabilização extrema desses povos, transformando desigualdades historicamente construídas em supostas fragilidades inerentes. “Enfrentar essa lógica é condição para que a equidade deixe de ser apenas um princípio e se torne prática concreta nas instituições”, concluiu. 

+ Assista a mesa no canal da ENSP no Youtube! 



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