Novo esquema de tratamento BPaL para tuberculose resistente já mostra resultados promissores no Brasil
A tuberculose resistente ganhou um importante aliado no Brasil. O novo esquema de tratamento BPaL — formado pelos medicamentos Bedaquilina (100 mg), Pretomanida (200 mg) e Linezolida (600 mg) — já mostra resultados promissores no enfrentamento da doença. No país, a distribuição do esquema é coordenada pela farmácia do Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF/ENSP/Fiocruz), que atua de forma estratégica para garantir o acesso rápido, seguro e gratuito a todos os pacientes.
Referência internacional no enfrentamento da tuberculose, a pneumologista e pesquisadora da ENSP/Fiocruz Margareth Dalcolmo considera a adoção do esquema BPaL no Brasil um marco histórico. Para ela, trata-se de “um avanço extraordinário, uma redução do sofrimento humano muito grande, com a exclusão de medicamentos injetáveis e, sobretudo, uma taxa de cura extremamente boa”.
O esquema de tratamento BPaL é formado pelos medicamentos Bedaquilina, Pretomanida e Linezolida.
Desde fevereiro de 2025, o Ambulatório de Pesquisa Germano Gerhardt (APGG/ENSP) iniciou a administração do BPaL em pacientes com tuberculose resistente. Em agosto e setembro, dois marcos importantes reforçaram o potencial do novo regime: os primeiros pacientes completaram o tratamento e receberam alta, com boa evolução clínica e adesão satisfatória. Atualmente, 53 pacientes estão em uso do novo esquema, e 34 devem concluir o tratamento até o fim de 2025.
“A mudança de paradigma que o BPaL representa é enorme. A redução do tempo de tratamento para seis meses, com um esquema totalmente oral, tem impacto direto na adesão do paciente, que enfrenta um processo menos desgastante e mais eficaz”, destaca Erica Fernandes, farmacêutica e responsável técnica da farmácia ambulatorial do CRPHF.
Um tratamento mais curto, eficaz e bem tolerado
O esquema BPaL foi aprovado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, após estudos clínicos multicêntricos que demonstraram taxas de cura superiores a 85% em pacientes com formas resistentes da doença. A grande vantagem está no tempo reduzido de tratamento (de até 24 para apenas 6 meses) e na via de administração exclusivamente oral, eliminando o uso de injetáveis e seus efeitos adversos intensos.
No Brasil, a Bedaquilina foi incorporada ao SUS em 2020, seguida da Pretomanida, em 2023. A Linezolida, já utilizada para outras infecções, foi integrada ao esquema. O uso combinado dos três medicamentos passou a ser operacionalizado em 2025 pelo CRPHF, unidade da ENSP/Fiocruz que atua como centro de referência nacional para tuberculose.
“A adesão ao tratamento é visivelmente melhor. A maioria dos pacientes apresenta melhora clínica rápida, especialmente com o ganho de peso, um dos primeiros sinais de recuperação”, afirma Aline Gerhardt, farmacêutica e chefe da farmácia do CRPHF.
Leia mais: Marco histórico: paciente com tuberculose resistente inicia primeiro tratamento com Pretomanida no Hélio Fraga.
Monitoramento e cuidado humanizado
Mesmo com bons resultados clínicos, alguns pacientes relataram efeitos adversos, como tontura, fadiga, dor no estômago, diarreia e dormência. Contudo, segundo as farmacêuticas, esses eventos têm sido mais leves e menos frequentes do que os observados em tratamentos anteriores, o que também contribui para a continuidade do tratamento.
A equipe da farmácia do CRPHF realiza o acompanhamento rigoroso desses pacientes por meio de atividades de farmacovigilância ativa. Os eventos adversos são registrados em sistema interno e notificados ao VigiMed (Anvisa), gerando dados valiosos para subsidiar futuras atualizações nas diretrizes nacionais.
“A atuação farmacêutica vai muito além da entrega do medicamento. Oferecemos um acompanhamento farmacoterapêutico individualizado, com escuta ativa, orientações personalizadas e contato contínuo com os pacientes, inclusive por telefone e WhatsApp. Esse vínculo é essencial para garantir o sucesso do tratamento”, ressalta Aline Gerhardt.
Avanço estratégico para o SUS
O acesso ao esquema BPaL é garantido de forma universal e gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O CRPHF é responsável por organizar e realizar a distribuição dos medicamentos para todos os estados brasileiros, fortalecendo a capacidade de resposta nacional à tuberculose resistente. “O Brasil está entre os primeiros países da América Latina a implementar o BPaL em escala nacional, e isso reforça o papel estratégico do SUS na incorporação de tecnologias inovadoras com base em evidências”, destaca Erica Fernandes.
A expectativa é de que o novo regime traga benefícios concretos, como a melhora na taxa de cura, a redução de hospitalizações prolongadas e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes. Além disso, ao otimizar os recursos, o BPaL também contribui para a sustentabilidade do sistema de saúde.
“A tuberculose resistente representa um grande desafio sanitário. Com o BPaL, damos um passo importante para mudar essa realidade. O CRPHF/ENSP/Fiocruz está comprometido com o cuidado, o acesso e a geração de conhecimento, sempre com foco na saúde pública”, conclui Aline Gerhardt.
A visão de uma referência internacional: Margareth Dalcolmo destaca o avanço histórico do BPaL contra a tuberculose resistente
Em evento de celebração aos 40 anos do Hélio Fraga, em 2024, a pesquisadora Margareth Dalcolmo destacou o protagonismo brasileiro na redução do tempo de tratamento da tuberculose.
Referência internacional no enfrentamento da tuberculose, a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da ENSP/Fiocruz e integrante dos principais estudos clínicos que embasaram a adoção do esquema BPaL, reforça a dimensão histórica do novo regime no Brasil.
“Sem dúvida nenhuma eu considero como pesquisadora clínica nessa área um avanço extraordinário, uma redução do sofrimento humano muito grande. Com a exclusão de medicamentos injetáveis e, sobretudo, uma taxa de efetividade de pacientes com resultados favoráveis e cura extremamente bons”, afirma a especialista, que participou diretamente de ensaios clínicos multicêntricos e do estudo Global Alliance SimpliciTB, conduzidos com voluntários brasileiros.
Além do impacto clínico, Dalcolmo destaca os ganhos econômicos para o Sistema Único de Saúde. “Em termos de economia da saúde e de custo-efetividade, os tratamentos encurtados e totalmente orais são infinitamente mais baratos para o sistema de saúde, portanto mais custo-efetivos. Não há necessidade de profissionais para aplicação de injeções, compra de seringas ou armazenamento de medicamentos injetáveis. Tudo isso reduz muito os custos e facilita a adesão do paciente, que toma um número reduzido de comprimidos por um período muito menor, de seis meses.”
Nenhum comentário para: Novo esquema de tratamento BPaL para tuberculose resistente já mostra resultados promissores no Brasil
Comente essa matéria:
Utilize o formulário abaixo para se logar.



