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Por soberania e democracia, Elias Jabbour defende criação de novo projeto nacional de desenvolvimento

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Publicado em:05/09/2025
Por Barbara Souza e Bruna Abinara

“Não vamos alcançar soberania nem democracia sem que o país se reencontre consigo mesmo”. A afirmação é do professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Uerj e presidente do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP), Elias Jabbour. Ele foi o palestrante da conferência de abertura do aniversário de 71 anos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Diante do auditório lotado, o convidado falou sobre “Soberania Nacional e Democracia”, tema das celebrações deste ano. Realizado na manhã desta quarta-feira (3/9), o evento teve transmissão ao vivo pelo canal da ENSP no YouTube, onde está disponível na íntegra.

Mestre e doutor em Geografia Humana e Econômica pela Universidade de São Paulo (USP), Jabbour destacou a urgência de um novo projeto nacional de desenvolvimento, associando a realização plena da democracia à capacidade do Brasil de afirmar-se como nação soberana. Enfático e contundente, o convidado defendeu que a superação dos desafios sociais e democráticos do país passa, impreterivelmente, pela construção desse projeto, cujo principal pilar seria a industrialização.

“Nós não vamos atender o povo brasileiro e tirá-lo da pobreza sem que o Brasil se transforme num gigantesco país industrializado. Um país com 215 milhões de habitantes não consegue criar mobilidade social sem gerar renda, ou seja, com salários altos da indústria e do desenvolvimento tecnológico. Industrialização não é um fetiche, mas sim uma necessidade social. O fascismo, do qual tanto falamos, se alimenta em sociedades que não têm mobilidade social. E a desindustrialização do Brasil é o grande caldo para o fomento do fascismo. Sem indústria, não tem mobilidade social. Sem mobilidade social, não tem esperança. E sem esperança, quem vai se criar? O fascismo”, sintetizou. 

O professor criticou o discurso “blasé” em torno dos conceitos de democracia e soberania, defendendo que ambos devem ser compreendidos de maneira concreta. “Democracia é pessoas vivendo bem, com dinheiro no bolso, mulheres e negros empoderados, pessoas capazes de tomar decisões com base material própria, sem depender de ninguém, com capacidade de colocar o filho na escola e saber que ele vai ter um emprego, com condições de ir à churrascaria com a família aos finais de semana”, explicou. Já soberania, segundo ele, é “a defesa intransigente de que o Brasil só terá futuro e a democracia só será plausível com a criação de um plano nacional de desenvolvimento”.

Durante a palestra, o convidado sublinhou também que o Brasil enfrenta um “dilema existencial” e que não há saída democrática ou social sem clareza sobre as intenções nacionais para o amanhã. Na avaliação de Jabbour, a questão democrática no Brasil “não é um fim em si, mas é de base material”. Ele reforçou que “a democracia só se realizará no Brasil quando todas as pessoas estiverem comendo três vezes por dia e quando tivermos capacidade de ter mobilidade social”. Para isso, apontou a necessidade de “construir uma cultura brasileira, nacional e antineoliberal, que naturalmente será antirracista, antimachista e contra preconceitos de qualquer natureza”. 


O professor relacionou ainda a crise da democracia brasileira ao cenário político pós-ditadura e aos desdobramentos recentes. “A questão democrática ganhou muita força no final da ditadura militar e ela ‘vai e vem’, principalmente após o golpe de 2016, quando um novo pacto de poder chegou à governança do Brasil buscando institucionalizar a precarização do trabalho e a criminalização da política fiscal, além de sedimentar o exercício do poder pelo setor financeiro, pelo agronegócio e pela indústria de serviços de baixa qualificação”, analisou.

Jabbour também destacou a centralidade da luta nacional em meio ao cenário global, apontando como “contradição principal” a relação entre trabalhadores e burguesia, assim como o embate com os Estados Unidos. Nesse sentido, o professor fez críticas a quem se diz patriota e apoia o país norte-americano e a quem se diz de esquerda, mas não defende, por exemplo, o fortalecimento da indústria nacional. “O que define o que é ser de direita e de esquerda no Brasil é ser patriota de verdade ou ser entreguista. Ser nacionalista e desenvolvimentista é uma condição indispensável para ser de esquerda no Brasil hoje.”


Soberania na saúde

Jabbour lembrou que, na pandemia de Covid-19, o Brasil se viu sem respiradores suficientes para o cuidado às pessoas que adoeceram. Isso jogou luz sobre a falta de capacidade de fabricar o que é importado. “Hoje, importamos 23 milhões de dólares de insumos médicos. Não se trata somente insumos para vacina, não. Estou falou de mobiliário médico, inclusive. Nós não temos uma indústria da saúde do Brasil hoje. Isso é uma questão de soberania”, criticou. 

Ao internalizar as cadeias de valor que envolvem a produção de vacina, de medicamentos e de mobiliário industrial médico, por exemplo, o país alcançará soberania tecnológica para fabricação de vacinas, exemplificou o professor. “Assim, será possível atender melhor o povo brasileiro, pois deixaremos de sofrer o constrangimento de ter que importar algo cujo preço é determinado no exterior e o constrangimento fiscal do teto de gastos e do arcabouço fiscal. Desde sempre, soberania se relacionada também à base material, o que significa industrialização e reindustrialização.” 

Pautas civilizatórias

Durante a conferência, Jabbour também ressaltou que a agenda nacional precisa integrar as lutas de gênero, raça, população LGBTQIA+ e povos indígenas, classificando-as como “pautas civilizatórias” e não apenas identitárias, como muitas vezes costumam ser tratadas. “Temos que observar essas questões e universalizá-las. Assim, teremos condições de alçá-las ao verdadeiro patamar que devem estar na luta política”, afirmou, destacando que um projeto nacional de desenvolvimento só se torna legítimo quando incorpora a diversidade que compõe a sociedade brasileira.

Nesse sentido, o professor defendeu que a soberania e a democracia só serão consolidadas em paralelo à construção desse projeto nacional, no qual a inclusão de grupos historicamente marginalizados seja central. Para ele, tais questões “não serão solucionados num país com terra arrasada, sem emprego, sem indústria, sem futuro e sem esperança”. Caso contrário, advertiu, tendem a alimentar discursos de distopia e de “guerra de todos contra todos”.

Mesa solene de abertura  

“Viva a ENSP, a Fiocruz, o SUS e o Brasil, cada vez mais soberano, democrático e com justiça socioambiental", celebrou o diretor da ENSP. Menezes destacou que, embora se fale muito sobre os desafios futuros, a trajetória de 71 anos da Escola é marcada por uma construção histórica sólida. Nesse sentido, saudou todos os trabalhadores e trabalhadoras que fazem e fizeram parte dessa caminhada. O diretor explicou que as comemorações de aniversário da instituição sempre dialogam com o contexto do momento e refletiu sobre os grandes obstáculos enfrentados hoje para a democracia, a cidadania e a justiça social. Menezes também ressaltou a relevância do coletivo Vozes da Fiocruz pela Palestina e pediu um minuto de silêncio em memória de todas as vítimas dessa “tragédia humanitária”. Ao abordar o cenário nacional, afirmou: “Fazer esse debate é defender a governabilidade e a governança, respeitando os poderes instituídos”.  

O diretor ainda destacou a atuação da Fiocruz no Sul Global e na produção mundial de medicamento e vacinas. “Somos a maior instituição não universitária de formação para o SUS e os sistemas nacionais de ciência e tecnologia”, avaliou, enfatizando a importância das parcerias com os movimentos sociais. “Defender um SUS cada vez mais diverso e inclusivo, a saúde como direito humano universal e a democracia: é nessa perspectiva que avançamos na construção coletiva desses 71 anos para o futuro”, concluiu. 

Para refletir sobre o tema da cerimônia, o presidente da Fiocruz recorreu a uma metáfora: “As placas tectônicas do mundo estão mudando em uma velocidade nunca vista antes”. Entre guerras, blocos, retaliações e sanções, Mário Moreira apontou que o desafio atual é tentar compreender o Brasil nessa nova configuração global de disputas, ainda marcada pelo desequilíbrio entre o Norte e o Sul. O presidente lembrou que o Congresso Interno da Fiocruz, que será realizado este ano, debaterá o reposicionamento da Fiocruz como uma instituição estratégica de Estado. “Cremos que a Fiocruz pode atuar em ciência, tecnologia e saúde por um mundo mais equilibrado”, declarou.  

Moreira considerou que a Fiocruz tem um papel fundamental em seu campo de atuação, especialmente ao valorizar a cooperação com o Sul Global. Ao relembrar a pandemia, comentou como ficamos no fim da fila para a compra de vacinas, equipamentos de proteção individual e respiradores. “O cenário atual nos mostrou que a dependência dos países do Norte precisa ser diminuída”, reforçou. Dessa forma, defendeu a urgência de garantir a soberania e a capacidade de autodeterminação do sistema de saúde brasileiro. Segundo o presidente, o papel da ENSP e da Fiocruz é atuar pela transformação social e pela eliminação das desigualdades. “Sem isso, não teremos um país democraticamente governado e instalado. E, sem democracia, não há soberania”, afirmou.  

A representante dos discentes da ENSP, Lillian Silva, ressaltou que a Saúde Pública é um pilar da soberania nacional: “a história da Escola nos ensina que não há saúde plena sem democracia”. A doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente destacou que a luta pela soberania passa também pelo meio ambiente, pela proteção dos recursos naturais e pelo acesso ao ambiente saudável, saneamento básico, água limpa e ar puro. “O protagonismo estudantil é uma responsabilidade. Nós somos a voz da próxima geração de sanitaristas e vamos carregar essa demanda”.


“A ENSP é um centro de excelência na defesa de direitos e na promoção de políticas públicas de saúde, comprometida com a transformação social e o bem-estar da população”, afirmou o presidente da Asfoc-SN. Paulo Garrido apontou a instituição como um bastião na luta pela Saúde Pública e pelos direitos humanos, elementos essenciais para a construção de uma democracia forte e soberana. Para ele, falar sobre o tema da celebração é também valorizar os serviços públicos e os servidores. Garrido ainda ressaltou a importância do compromisso da direção da Escola com as pautas de acessibilidade, inclusão e diversidade. 

A mesa solene de comemoração pelo aniversário de 71 anos da ENSP foi precedida pela apresentação do vídeo comemorativo feito em homenagem à data. Com vozes de trabalhadores, pesquisadores e alunos, o vídeo propõe uma reflexão sobre a luta pela garantia da democracia, da soberania nacional e da saúde para todos. Assista na íntegra pelo canal da Escola no YouTube.  A manhã também foi marcada pela apresentação dos novos servidores, aprovados no último concurso, e por uma homenagem aos servidores que se aposentaram este ano. 

+ Assista ao vídeo comemorativo dos 71 anos da ENSP:




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