“Filme que já vimos”: febre de Oropouche traz desafios de diagnóstico, vigilância e controle, alerta pesquisador
Por Barbara Souza
Aumento na incidência, expansão da área de registros de novos casos, mudanças na apresentação clínica e na gravidade da doença. Essas foram as principais preocupações relativas à febre de Oropouche discutidas na ENSP/Fiocruz na última quinta-feira (3/7). As questões foram tema de sessão científica do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos, apresentada pelo pesquisador José Cerbino Neto. Em tom de alerta, o integrante recente do DEMQS apresentou uma atualização clínico-epidemiológica da doença e as perspectivas de controle. “Desde 1955, nunca havia sido registrado um óbito por Oropouche. A primeira vez foi depois de 60 anos de ocorrência da doença.”
O número de casos no Brasil em 2023 foi de 834. Em 2024, subiu para 13.801. Já nas primeiras 25 semanas de 2025, há 11.787 registros oficiais. José Cerbino Neto ponderou ao lembrar que a ampliação do diagnóstico contribuiu para a alta do número. “Aumentou muito a testagem a partir do reconhecimento da expansão do vírus. Ao ampliar esses testes, certamente encontraremos mais casos”, disse. Durante a palestra, o pesquisador destacou ainda que os dados do Ministério da Saúde somam quatro mortes no país, sendo duas na Bahia, uma no Paraná e uma no Espírito Santo. Há também uma confirmada no Rio de Janeiro que ainda não foi contabilizada. Outros quatro óbitos seguem em investigação.
Até 2023, a febre de Oropouche era uma doença endêmica conhecida, restrita à região amazônica e sem muita repercussão, pois não havia registros de casos graves nem óbitos. No entanto, há cerca de dois anos, como explicou o pesquisador, essa dinâmica mudou. “Entre 2024 e 2025, foi observada transmissão extra-amazônica. No Sudeste, principalmente. Agora, há casos em todas as regiões, mas não vemos transmissão tão importante no Norte. Já é um comportamento diferente do histórico da febre de Oropouche no Brasil”, ressaltou Cerbino Neto. Além do aumento de incidência e da expansão na área de ocorrência no país, a transmissão se estabeleceu em novos países, como Cuba, Barbados, República Dominicana e Guiana. Houve ainda mudanças na apresentação clínica e na gravidade da doença. “Essa é a definição clássica de doença emergente”, resumiu o pesquisador.
Ele também chamou a atenção para três casos de Guillain-Barré associados à infecção aguda por Oropouche em Cuba e para quatro casos de transmissão vertical que terminaram com óbito fetal no Brasil — três em Pernambuco e um no
Ceará —, além de um caso de anomalia congênita no Acre. Outras 24 suspeitas estão em investigação, das quais 20 terminaram com a morte dos fetos. “A vigilância desse tipo de má-formação demora. Se a mulher se infecta durante a gestação, só é possível constatar má-formação no filho alguns meses depois. Então, só teremos noção do problema depois que já estiver acontecendo há algum tempo. Esse é um filme que já vimos. Já passamos por isso”, alertou o pesquisador ao lembrar a epidemia de Zika ocorrida há cerca de uma década.
“Esse me parece um problema potencialmente grave sobre o qual deveríamos estar tomando medidas muito mais austeras e relevantes para fazer, pelo menos, um melhor monitoramento. É extremamente preocupante.” Ao sublinhar as incertezas envolvidas no cenário da febre de Oropouche, Cerbino Neto afirmou que “o diagnóstico e a vigilância são um nó que precisamos desamarrar”. O pesquisador defende avanços nas vigilâncias sindrômica e laboratorial. Segundo ele, a falta de experiência clínica com Oropouche também é um agravante: “Ninguém sabe o que é atender um caso de febre de Oropouche. Todos os diagnósticos foram retrospectivos”.
Ao fim da apresentação, o pesquisador mostrou estudos que oferecem explicações para a mudança e expansão do vírus, destacando que a cepa recombinante que passou a circular é, teoricamente, mais virulenta, mais patogênica e foge da resposta imunológica anterior. “Há achado in vitro que corrobora com o que está sendo visto na prática”, comentou.
Sintomas da febre de Oropouche
A infecção se caracteriza por febre alta repentina, dor de cabeça forte e prolongada, dores no corpo e nas articulações. Também podem surgir tontura, dor atrás dos olhos, calafrios, sensibilidade à luz, enjoo e vômitos. Em alguns casos, aparecem pequenos sangramentos, como manchas vermelhas na pele, sangramento pelo nariz ou pela gengiva, e problemas no sistema nervoso, como inflamação no cérebro ou nas meninges e alterações nos batimentos cardíacos e na pressão sanguínea. Os sintomas duram entre 2 e 7 dias e costumam desaparecer sozinhos. No entanto, em até 60% dos casos, eles podem voltar uma ou duas semanas depois, geralmente de forma mais leve. Também há registros de sangramentos parecidos com os da dengue grave, mas as causas desse agravamento ainda não são totalmente conhecidas.
O vetor é o mosquito Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora. Suas larvas se desenvolvem em habitats úmidos, como buracos de árvores, frutos em decomposição, tocos e margens de rios, sendo comum o uso de resíduos como bananas e cascas de cacau em áreas periurbanas, o que facilita a interação com humanos. A picada ocorre tanto em ambientes abertos quanto fechados, com maior intensidade durante o período chuvoso e picos de atividade ao longo do dia. A dispersão se dá por voos curtos ou por correntes de vento. Não há métodos químicos específicos de controle, mas repelentes como DEET e icaridina podem ser eficazes. A diversidade de criadouros naturais e artificiais torna o controle da espécie um desafio.
“Temos hoje uma estrutura de controle vetorial totalmente focada na proliferação do Aedes aegypti. E o maruim tem um criadouro totalmente diferente. O que se aplica de controle com larvicida, inspeção e identificação domiciliar não se aplica ao controle do maruim. Ou seja, há menos recursos para fazer o controle vetorial”, detalhou.
Saiba mais
O vírus Oropouche (OROV) foi isolado pela primeira vez do sangue de um trabalhador febril da indústria do carvão perto do Rio Oropouche, em Trinidad e Tobago, em 1955. O Orthobunyavirus oropoucheense pertence à família Peribunyaviridae, no gênero Orthobunyavirus (OBV), o maior gênero de vírus de RNA, com mais de 170 vírus nomeados, correspondendo a 18 sorogrupos e 48 complexos de espécies. Baseado na análise do Segmento S, o vírus foi classificado em quatro genótipos: Genótipo I (Trinidad e Tobago), Genótipo II (Peru), Genótipo III (Panamá) e Genótipo IV (Brasil).
Desde sua identificação, pelo menos 30 epidemias e mais de 500 mil casos de infecção foram relatados na América do Sul e Central, principalmente na região amazônica. Até a introdução do Zika e do Chikungunya, em 2013, a febre de Oropouche era a segunda arbovirose mais comum no Brasil.
Medidas de prevenção e controle listadas em nota técnica do Ministério da Saúde
- Proteger áreas expostas do corpo com calças e camisas de mangas compridas, meias e sapatos fechados;
- Evitar, se possível, a exposição aos maruins. O vetor tem atividade durante o dia, mas os momentos de maior atividade são ao amanhecer e no final da tarde;
- Uso de telas de malha fina nas janelas ou mosquiteiros, com gramatura inferior a 1,5 mm, que não permita a passagem do vetor;
- Não há, até o momento, comprovação da eficácia do uso de repelentes contra o maruim. Porém, sua utilização é recomendada, principalmente para proteção contra outros mosquitos, como, por exemplo, Culex spp. (pernilongo), Aedes aegypti, etc.;
- Até o momento, desconhece-se a efetividade de inseticidas para controle do maruim. Dessa forma, a medida mais efetiva é o manejo ambiental: manter o peridomicílio limpo e o solo livre do acúmulo de material orgânico, principalmente folhas e frutos de plantações como bananeiras, cacaueiros, cafezais etc.;
- As gestantes, se possível, não devem se ocupar da limpeza dos quintais ou de quaisquer outras atividades que apresentem risco de exposição ao vetor;
- Há demonstração da presença do OROV em urina e sêmen, mas ainda não está esclarecido o potencial de transmissão do vírus por esses meios. Assim, recomenda-se o uso de preservativos.
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